16 de Janeiro de 2010

Monarquia e república

Publicado no Linhas de Elvas de 14 de Janeiro de 2010


A diferença entre monarquia e república reside no facto de na primeira o chefe do estado se suceder por via hereditária (o filho sucede ao pai), enquanto na república é escolhido periodicamente pelos cidadãos. A monarquia foi o sistema mais usado em todo o mundo durante séculos mas, especialmente em tempos recentes variou muito, desde o monarca ter poderes absolutos, de vida ou de morte, sobre os seus súbditos, até aos casos em que é apenas um símbolo ou uma figura quase só decorativa.

Nos finais do século XIX e princípios do século XX, a situação de Portugal, embora com aspectos pontuais muito bons, não era, globalmente, das mais famosas. Para um determinado grupo de pessoas, todos os males eram devidos ao facto de a forma de governo ser a monarquia e desenvolveram esforços para impor, pelas armas, a república, o que conseguiram em 1910. Embora um ou outro ponto fosse melhorado, o descalabro foi-se acentuando de tal forma que, apenas 16 anos depois da implantação da república, o país se encontrava em bancarrota, com governos a durarem às vezes escassos meses, as finanças num estado miserável e o escudo a nada valer internacionalmente.

Ao contrário do que agora se conta aos mais novos, o movimento militar se 28 de Maio de 1926, entusiasticamente apoiado pela população, farta da vida a que os políticos a submetiam, iniciou a recuperação do país. Algum tempo depois a moeda portuguesa era uma das mais constantes do mundo - um bom sintoma de sanidade financeira - e assim se manteve durante décadas. As obras públicas que estavam em estado deplorável, começaram a ser corrigidas, com a construção de estradas, portos, escolas, hospitais, variados edifícios públicos, barragens (para produção de energia eléctrica, abastecimento de povoações e irrigar os campos), instalaram-se algumas indústrias, como a siderurgia e os cimentos, num curto período (décadas de 1930-1940) deu-se algum desenvolvimento à agricultura e florestaram-se milhares de hectares, etc. Mas o desenvolvimento económico foi modesto e politicamente havia restrições pelo que o sistema se podia considerar uma ditadura, embora moderada e sem a ferocidade do nazismo ou do comunismo.

Neste ano de 2010 vão ser celebrados os 100 anos da república e o Presidente da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República é o Dr. Artur Santos Silva. De acordo com as suas afirmações (Diário de Notícias de 3-1-2010) teremos de concluir que na Suécia, na Noruega, na Dinamarca, na Holanda, na Bélgica, na Inglaterra e na Espanha (que são monarquias), não há "a afirmação da liberdade e da cidadania, o combate à pobreza e a celebração do Estado de direito". Em Portugal (que é uma república, com dois milhões de pobres, onde os cidadãos não se podem candidatar a deputados e onde meia dúzia de pessoas ditam a oito milhões de eleitores em quem é que eles têm "licença" de votar) é que há.

Não estou a defender a monarquia nem a atacar a república. Apenas gostaria que pessoas, presumivelmente com responsabilidades, não fizessem declarações que dão uma péssima ideia do que é a elite nacional.

10 de Janeiro de 2010

Melhor alternativa

Publicado no Público de 8 de Janeiro de 2010

O Prof. Daniel Bessa persiste no erro (para que já há tempos chamei a atenção)* quando diz "Não vejo outra solução que não seja aumentar o conteúdo tecnológico das exportações portuguesas" (Público de 4-1-2010).

Eu vejo. Como repetidamente tenho indicado,* muito mais fácil que exportar mais (que depende de outros quererem os nossos produtos)* é não ter de importar avultadas quantidades de produtos que aqui devemos ser capazes de produzir e às vezes de melhor qualidade e a mais baixo preço. É provável que haja outros sectores em que essa regra se aplica, mas um em que tenho a certeza que tal é evidente é a agricultura. Que Portugal importe bananas e mangas, compreende-se. Mas ter os nossos supermercados com quantidades astronómicas de batatas, cebolas, cenouras, alhos, alfaces, tomates, pimentos, feijão verde, melões, melancias, laranjas, limões, ameixas, pêssegos, nêsperas, maçãs, peras, uvas, morangos, etc. etc.* etc. vindos, à vezes de bem distantes terras é a consequência directa - e bem prejudicial! -* da destruição da agricultura (e, portanto, da economia) levada a cabo por vários ministros e com especial intensidade pelo que há pouco cessou funções. Uma agricultura eficiente como a que podíamos e devíamos ter, ainda exportaria mais do que actualmente.*

Miguel Mota, Oeiras

* Suprimido pelo jornal.

Financiamento interno

Publicado em "O Diabo" de 29 de Dezembro de 2009

O governo já anunciou que, havendo problemas na banca portuguesa, aumentariam os juros a pagar pelos empréstimos que fizesse em bancos estrangeiros. "O Diabo" (15-12-2009) noticia que "Bancos estrangeiros fecham a torneira a empréstimos ao Estado".

Não é preciso ser especialista de finanças para perguntar porque é que o estado pede empréstimos aos bancos estrangeiros, em vez de se financiar internamente. O que será simples se, em vez do juro miserável com que remunera os Certificados de Aforro (pelo que já lhes chamei "certificados de desaforo") lhes desse o juro que paga ao estrangeiro e é certamente mais alto. Um juro que tornasse os Certificados de Aforro apetecíveis seria uma melhor solução para o estado e para quem tem dinheiro para investir. Pelo menos enquanto o governo merecesse uns restos de credibilidade.

Desemprego. Uma sugestão

Publicado no "Linhas de Elvas" de 23 de Dezembro de 2009

O subsídio de desemprego é hoje um enorme encargo, do qual o estado não recebe nada em troca. Além dos subsídios pagos há a carga burocrática necessária para processar esses pagamentos.

Em alguns casos é possível que certos desempregados tudo façam para manter essa para eles cómoda situação. Uma sugestão, não só para combater esses casos mas para muitos outros, é decretar que quem recebe subsídio de desemprego seja obrigado a dar à comunidade 4 horas por dia de serviço cívico.

Tanto nos serviços do estado como nas autarquias e mesmo em empresas, só se os chefes forem muito incapazes é que não encontram actividades úteis que possam ser exercidas durante 4 horas diárias por aqueles que recebem subsídio sem darem nada em troca. Só 4 horas porque as outras 4 horas por dia deveriam ser dedicadas a procurar emprego. As actividades exercidas não dariam quaisquer direitos como "emprego", embora durante essas 4 horas as pessoas estivessem submetidas às mesmas obrigações dum empregado. Seria uma forma da sociedade receber algo em troca do subsídio, contribuindo para o aumento da produtividade nacional. Os trabalhadores honestos, que não encontram emprego mas a quem não agrada a ociosidade, acolheriam esta actividade com agrado pois até nesse trabalho poderiam aumentar os seus conhecimentos e, eventualmente, revelando-se eficientes, aumentariam as probabilidades de encontrar quem lhes desse emprego. Suspeito que alguns, que hoje recebem subsídio de forma fraudulenta (já vi na comunicação social a indicação que podem atingir 10%), não estariam interessados, pelo que automaticamente deixavam de ser subsidiados. É uma sugestão que deixo a quem de direito.

19 de Dezembro de 2009

Alternativas

Publicado no "Linhas de Elvas" de 17 de Dezembro de 2009

Embora os portugueses tenham constantemente a evidência da ditadura a que estão submetidos, continuam a não quererem ver, como quem deliberadamente tapa os olhos com uma venda.

As últimas eleições gerais deram mais uma prova desse facto. Ao longo dos quatro anos de governação Sócrates, a degradação do país acelerou-se enormemente, com a economia a crescer cada vez menos, com a grande maioria dos portugueses a sofrerem o maior corte de sempre no seu nível de vida (que esperavam que subisse, em vez de descer) e com os ricos cada vez mais ricos, enquanto a maioria - chamada classe média - foi ficando cada vez mais pobre. E tudo isto aconteceu antes da crise mundial, que só estalou na segunda metade de 2008.

Eram numerosíssimos os que declaravam que tinham votado em Sócrates - acreditando nas promessas tão belas! - mas que não voltariam a fazê-lo, dado o descaramento com que a tudo faltou e o referido grande corte no nível de vida que lhes tinha causado.

Vieram as eleições e, embora com muito menos eleitores do que em 2005 e sem a maioria absoluta, o PS - e, portanto, o seu chefe Sócrates - aparece como o partido mais votado e por esse facto a indicar o Primeiro Ministro.

Muitos dos que tinham declarado não voltar a votar em quem tanto mal tinha causado explicaram que o fizeram "por não terem alternativa". Não votariam nos comunistas (CDU e BE) porque não estavam interessados em ter em Portugal um sistema totalitário como o da União Soviética, o tal "sol da terra". Não votavam no CDS porque, embora Paulo Portas mereça elogios como parlamentar, não só o partido não apresentou um programa suficientemente credível como, sendo provável que não pudesse ultrapassar o PS, não valia a pena. E não votariam no PSD porque o Primeiro Ministro seria a Dr.ª Manuela Ferreira Leite. Além de também não apresentar um programa credível, lembravam-se de ter sido Ministra das Finanças (e também da Educação) e também, como todos os outros, tinha funcionado muito mal. Portanto, "não tinham alternativa" porque temiam que ela ainda fizesse pior que Sócrates.

Se os portugueses raciocinassem e vissem a evidência da ditadura partidocrática a que estão submetidos, teriam há muito questionado - e derrubado! - o sistema antidemocrático que não permite a qualquer cidadão, se o desejar, candidatar-se a deputado, e só dá a 8 milhões de eleitores "licença" para escolherem uma de meia dúzia de listas (com ordem fixa!), elaboradas ditatorialmente por meia dúzia de pessoas. Em qualquer parte do mundo um tal sistema é ditadura.

Seria fácil corrigir o sistema com "pequenas" (mas significativas) alterações da Constituição(1) e até para eleger o Primeiro Ministro(2) e passarmos a viver em democracia. Bastava que todas as eleições fossem da mesma forma que elegemos o Presidente da República (as únicas democráticas em Portugal) e já "teríamos todas as alternativas" para colocar no parlamento e no governo pessoas capazes de fazer o país sair do pântano em que a ditadura partidocrática o tem afundado e que o mantém na cauda da Europa.

(1) Mota, M. - Proposta de Alterações à Constituição da República Portuguesa, INUAF Studia, Ano 2, Nº 4, Pag. 135-147. 2002

(2) Mota, M. - A eleição do Primeiro Ministro. Jornal de Oeiras de 7-6-2005

Agricultura, Ciência e Política

Publicado no "Linhas de Elvas" de 10 de Dezembro de 2009

Estive há dias a reler textos sobre o que se passou na União Soviética (URSS) no mais clamoroso e destruidor caso de má política a interferir de forma ruinosa na ciência e na agricultura. É um caso bem conhecido pois deu brado em todo o mundo e causou à agricultura da União Soviética o maior atraso de sempre. Talvez tenha sido bom para o ocidente porque, em 1945, o que limitou muito a URSS não foi a falta de soldados ou canhões, mas sim a de produtos agrícolas. Teve, até, de receber trigo dos Estados Unidos. Não sabemos o que Estaline teria feito se não tivesse essa limitação. Os povos são mais facilmente derrotados pela fome do que pelos canhões.

No primeiro quartel do século XX a URSS tinha um dos maiores cientistas do mundo, uma reconhecida autoridade no campo da Genética: o agrónomo Ivan Vladimirovich Vavilov. Professor de Genética nas Universidades de Moscovo e Leninegrado (agora novamente São Petersburgo), foi o grande pioneiro da Conservação dos Recursos Genéticos e no Instituto de Melhoramento de Plantas (VIR) que fundou e dirigiu (e que hoje tem o seu nome) estabeleceu o maior repositório de sementes de milhares de espécies vegetais que recolheu por todo o mundo, incluindo Portugal. No campo da Genética era reconhecido como uma das maiores autoridades.

Nos começos do segundo quartel do século XX, um homem de fracos conhecimentos científicos, Tofim Denisovich Lysenko, conseguiu convencer Estaline de que a Genética ocidental capitalista nada conseguia e eram os seus processos que, de acordo com os princípios do marxismo-leninismo e do materialismo dialéctico, levavam a adaptar as plantas às condições que interessassem ao sistema comunista.

Passo a passo, apoiado por Estaline e com as suas fabulosas promessas - embora nunca as cumprisse - foi conseguindo destruir o trabalho de Vavilov e dos cientistas por ele dirigidos e que já tinham dado - e iriam continuar a dar - muito à agricultura e à economia da URSS.

Quando Vavilov quis começar a produzir milhos híbridos, que nos Estados Unidos já ocupavam 15% da área de milho, com um acréscimo de produção da ordem dos 100 milhões de "bushels" (1 bushel de milho equivale a cerca de 25 kg), foi impedido de o fazer com o pretexto de que essa Genética capitalista e dos inimigos da URSS nada conseguia. Os ataques foram intensificados e todas as instituições de Vavilov, principalmente o Instituto de Melhoramento de Plantas e as suas muitas delegações por todo o país foram sendo extintas umas, passadas para os domínios de Lysenko outras, cerceados os financiamentos e outros meios de trabalho, presos, executados e desaparecidos muitos dos seus cientistas e culminando em 1940 com a prisão de Vavilov, que ali acabaria por morrer em 1943.

Só anos mais tarde, na década de 1960, a URSS se apercebeu do tremendo erro que cometera. Lysenko foi demitido e a Genética iniciou uma penosa recuperação, a partir dos poucos restos que ainda existiam. Assinalei essa mudança num artigo publicado no antigo "Jornal do Comércio" em 1965(1).

A leitura desses textos fez-me pensar no paralelismo com o que tem sido feito em Portugal à investigação agronómica - e particularmente à Genética - nas últimas décadas e com particular intensidade nos últimos quatro anos. Lembro novamente a vergonhosa legislação dos finais de 2007. E pensei no que, tal como na URSS, Portugal e os portugueses sofreram, na agricultura, na ciência e na economia, como resultado da destruição da sua investigação agronómica.

(1) Mota, M. - A Rússia renega a "Genética" de Lysenko e resolve entrar a sério nas ciências biológicas. Jornal do Comércio de 16 de Junho de 1965 e no livro Problemas da Investigação Científica. Problemas da Agricultura, Lisboa 1969, Pág. 165-167

Como se cura uma agricultura que produz pouco, mau e caro

Publicado no "Jornal de Oeiras" de 8 de Dezembro de 2009

"Como se cura uma agricultura que produz pouco, mau e caro" foi o título duma série de três artigos que publiquei há muitos anos(1) para tentar - como tenho repetido ao longo dos tempos - ensinar aos responsáveis pela agricultura em Portugal algo elementar mas que eles, pelos seus actos, mostram não saber.

Para transformar uma pobre agricultura numa de grande eficiência e de grande valor económico é necessário que o Ministério da Agricultura possua uma muito ampla, eficiente e de alto nível investigação agronómica (que constantemente descubra formas de agricultar melhor, no seu sentido mais lato) e um serviço que tem hoje no mundo o nome de extensão agrícola e que tem o objectivo de levar até aos agricultores os conhecimentos criados e que lhes permitem melhorar a sua actividade económica.

Relembro estes factos ao ler o editorial "Marcas do Tempo" do Director do "Jornal de Oeiras" de 1-12-2009. Ali se diz:

"Estamos habituados a ouvir dizer que a nossa agricultura não é rentável e por isso não tem razão de existir, não me atrevo a contrariar os entendidos nesta matéria ... talvez não fosse mau repensar algumas ideias, tendo em conta que para nos alimentarmos tem que haver produção agrícola ..."

Tem toda a razão o Director e apenas lhe digo que os que apelida de "entendidos" têm mostrado uma tremenda ignorância (a menos que seja intencional e então seria um caso de polícia) com a qual têm ajudado a afundar este país, com uma monumental destruição dessa parte importante da economia que é a agricultura.

Os erros cometidos são tanto mais estúpidos e graves porque os investimentos feitos naqueles dois serviços, que têm andado a ser destruídos, são de tal forma fabulosos que os economistas, mesmo aqueles que tinham obrigação de os conhecer, não pensam ser verdadeiros. Na realidade, são um óptimo negócio até para o orçamento do estado. Também há muito venho demonstrando essa realidade(2) e repeti-a em Março deste ano de 2009 numa conferência na Universidade de Évora.

Alguns desses falsos "entendidos" tentam desculpar-se com a Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia. Basta ver o que é a agricultura doutros países submetidos à mesma PAC e com algumas condições naturais piores que as nossas para se fazer ideia do que devia ser, actualmente, a agricultura portuguesa. Lembro a Holanda, a Dinamarca, a França e até a Espanha para as esfarrapadas desculpas caírem pela base. Recentemente, aos microfones do Fórum da TSF Rádio, tratando deste tema, terminei da seguinte forma "O actual ministro deverá inverter esta destruição que, aliás, está patente em qualquer supermercado. E o responsável número um é, naturalmente, quem estiver à frente da pasta do Ministério da Agricultura. É isto que era preciso fazer para Portugal sair da cauda da Europa".

(1) Mota, M. - Como se cura uma agricultura que produz pouco, mau e caro. Jornal do Comércio de 11 e 19/20 de Dezembro de 1964 e 5 de Abril de 1967. Também no livro Problemas da Investigação Científica. Problemas da Agricultura, Lisboa 1969, Pág. 185-193

(2) Mota, M. - A rentabilidade dos Serviços de Agricultura. Jornal do Comércio de 7, 10, 16 e 21 de Julho de 1969. Também no livro Problemas da Investigação Científica. Problemas da Agricultura, Lisboa 1969, Pág. 250-265

Avaliação e Progressão

Publicado no Diário de Notícias de 6 de Dezembro de 2009

Qualquer "avaliação" deve medir uma situação real. Condicionar uma avaliação a quaisquer factores estranhos é falseá-la à partida, o que é grave.

Isto aplica-se aos professores e se todos os professores duma escola forem excelentes, a avaliação tem obrigação de assim o declarar. Dizer que só uns quantos podem ser excelentes é convidar os outros, preenchida a quota, a deixarem de se esforçar para serem melhores, por tal esforço não ser reconhecido.

O erro do Ministério da Educação é misturar avaliação com progressão na carreira (DN de 3-12-2009). Se, como existe em várias carreiras, deve haver um quadro com categorias diferentes para os professores, não tenho elementos para me pronunciar. Mas, se aplicássemos ao exército a norma que ainda existe para os professores, apenas uns quantos coronéis poderiam ser excelentes e os outros teriam de ser piores, pois não chegariam ao posto de general.

Conferência de Miguel Mota - Universidade de Évora


Conversas ao fim da tarde na Universidade de Évora (2009)

Reprivatizações

Publicado no Linhas de Elvas a 3 de Dezembro de 2009

Nenhum privado compra uma empresa a menos que, considerando a situação em que se encontra e o preço que vai pagar por ela, lhe permita ter lucros. Certamente nenhum privado compra uma empresa para ter prejuízos.

Num acto de "socialismo ao contrário" (1) o estado, com razões que não discuto, nacionalizou o Banco Português de Negócios (BPN), nele colocando, pelo menos, 3,5 mil milhões de euros, dinheiro dos portugueses, pois são estes os donos da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Diz, agora, que vai reprivatizar o BPN.

O que qualquer cidadão pensa é que, ou o comprador entrega ao estado os 3,5 mil milhões de euros, acrescidos dos respectivos (e avultados) juros ou está a causar a todos os cidadãos um enorme prejuízo. Se não houver comprador por esse preço e se apenas o BPN puder ser vendido por uma tuta e meia, não interessa a venda. O que o privado ia fazer no BPN por esse preço - e ter, obviamente, lucros - pode, então, ser o estado a fazê-lo, o que é muito simples: é integrar o BPN na CGD, em vez de dar lucros a algum "amigo".

O banco tem alguns activos, principalmente uma série de balcões e uma apreciável carteira de clientes. Se os gestores da CGD não são capazes de fazer tão bem ou melhor o que o privado - ganhando lucros - ia fazer, há que os substituir, sem indemnização, por provada incompetência. Se são capazes, escusam de dar aos tão causticados portugueses mais um enorme prejuízo.

(1) Mota, M. - Socialismo ao contrário. Linhas de Elvas de 6 de Novembro de 2008

blicado no "Linhas de Elvas" de 3 de Dezembro de 2009

Censura prejudicial

Publicado no “Linhas de Elvas” de 26-11-2009

A censura, no sentido de impedir que determinada informação chegue a determinadas pessoas, é algo que pode ser muito prejudicial a quem a exerce. Só pode ser eficiente se for absoluta e conseguir que nem a mais pequena parcela dum conhecimento possa escapar, o que é extremamente raro e muito difícil, especialmente na era actual, com os sofisticados meios existentes. Quase sempre, quaisquer acções para encobrir a totalidade dos factos levam a pensar que, se se pretende esconder, é porque a realidade é muito grave, admitindo-se sempre o pior. Com frequência, a realidade não é tão má como os que sofreram a censura pensam que é. Ou seja, obteve-se um resultado pior do que se não tivesse havido acções de encobrimento ou destruição de informação e se deixasse que os factos fossem revelados. Uma boa prova dessa situação é evidente nalguns escritos publicados em jornais do pós-25 de Abril, com os textos a mostrar os cortes feitos pela censura da anterior ditadura, aliás, na maior parte dos casos, da responsabilidade de pessoas de fraco discernimento, que cortavam textos realmente inofensivos e não percebiam alguma escrita mais subtil. A menos que a realidade seja ainda mais grave do que a mais avançada imaginação possa pensar, os prejuízos da censura, dantes como agora, são enormes.

Deputados por meia hora

Publicado no "Linhas de Elvas" de 29 de Outubro de 2009

O caso não é novo, é uma rotina que está constantemente a acontecer e que os portugueses têm obrigação de saber que existe mas... aceitam como bom! O que fez este caso ser notícia de jornal, "João de Deus Pinheiro foi deputado por meia hora", foi talvez a notoriedade da pessoa e a celeridade com que aconteceu: um deputado tomar posse e logo depois renunciar ao cargo.

O Dr. João de Deus Pinheiro, como todos os outros deputados, não foi eleito democraticamente. Foi eleito porque a chefe do seu partido decidiu, ditatorialmente, que ele seria candidato duma lista e "em lugar elegível"! Os eleitores, sem possibilidade de se candidatarem (mesmo que o desejassem) nem de votarem em quem lhes parecesse mais capaz, só podem escolher uma de meia dúzia de listas (com ordem fixa!) feitas ditatorialmente pelos chefes dos partidos. Limitam-se a escolher a lista que se lhes afigura ser a "menos pior".

Se o Dr. João de Deus Pinheiro, ou qualquer outro deputado, tivesse sido eleito democraticamente (obviamente em círculo uninominal, por vontade própria e com o apoio de alguns dos seus eleitores) e resolvesse renunciar ao cargo, não entrava, automaticamente, qualquer outro candidato que estivesse em fila de espera e que não tinha sido o escolhido pelos eleitores. No caso de renúncia - que devia ser caso raro e não o actual "pão nosso de cada dia" - seria feita nova eleição no seu círculo eleitoral para saber quem é que, não sendo ele, os eleitores desejavam como seu representante. Permitam-me os leitores que lembre o que aqui escrevi na semana passada (1) com o caso paradigmático das eleições dos Presidentes das Câmaras Municipais de Faro e de Tavira.

Como Portugal seria melhor se houvesse democracia e os cidadãos pudessem escolher livremente os seus legisladores e governantes!

(1) Mota, M. - Quem vale são as pessoas. Linhas de Elvas de 15 de Outubro de 2009

Eleições livres 2

Publicado no "Linhas de Elvas" de 12 de Novembro de 2009

Quando o Primeiro Ministro disse, na Assembleia da República, em 5 de Novembro de 2009, que o povo "se exprimiu livre e democraticamente nas urnas", deveria - se entre os deputados houvesse alguém com a noção do que é democracia e votar livremente - ter ouvido, nas interpelações, algo como o seguinte:

Lamento ter de contradizer o que disse o Senhor Primeiro Ministro. Nem os do seu partido nem qualquer dos deputados presentes nesta Assembleia da República foi eleito democraticamente, em eleições livres. Todos fomos eleitos porque os cerca de 8 milhões de eleitores, além de não se poderem candidatar, se o desejassem, apenas tinham a "grande liberdade" de escolher a que considerassem "menos pior" entre meia dúzia de listas, por ordem fixa, feitas ditatorialmente por outras tantas pessoas.

Eu fui eleito porque tive a sorte de ser incluído numa dessas listas e em tal posição que chegou à minha vez o número de votos obtidos por essa lista.

Devo dizer que teria muito mais prazer e honra se aqui estivesse porque, tendo decidido candidatar-me - como qualquer outro poderia ter feito - foi o meu nome que recebeu, no meu círculo eleitoral (uninominal, evidentemente), o maior número de votos.

Nota - Não há aqui muita repetição do que já apareceu noutros escritos? Há, mas a razão de ser necessário repetir é o facto de, apesar da descarada evidência demonstrar a falta de liberdade para escolher os dirigentes, os portugueses continuarem a pensar que vivem em democracia e aceitam como boas frases como a do Primeiro Ministro citada no início.

4 de Novembro de 2009

Esquerda

Publicado em "O Diabo" de 3 de Novembro de 2009

O Dr. Sarsfield Cabral, embora compreendendo a diferença entre esquerda e direita, considera ("O Diabo" de 20-10-2009) que " 'Esquerda' é um termo demasiado vago e ambíguo para dar substância a uma estratégia política".

As designações de esquerda e direita, em política, nasceram em 1789, em plena Revolução Francesa, na Assembleia Nacional, onde se sentavam à direita do Presidente os nobres e defensores de certos privilégios e à esquerda o povo, lutando por Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Penso que na vida actual os termos continuam a ter validade. Mas, tal como ninguém é pintor ou escultor apenas porque se declara como tal, só é "de esquerda" quem pratica acções de esquerda. Podemos considerar que são acções de esquerda as nacionalizações, a redução do leque salarial (na extrema esquerda os salários seriam todos iguais), saúde, educação e protecção na velhice como encargos do estado, predomínio do trabalho sobre o capital (na extrema esquerda não pode haver capital privado), impostos altamente progressivos, em que quem tem mais paga proporcionalmente mais e quem tem muito mais paga proporcionalmente muito mais, etc. etc. etc. Por oposição, são de direita as privatizações, um grande leque salarial (desde salários de miséria a salários muito altos), saúde, educação e protecção na velhice como negócios privados, predomínio do capital sobre o trabalho, impostos pouco progressivos ou, até, todos a pagarem a mesma percentagem, etc. etc. etc.

Actualmente, pelo menos em países considerados civilizados, todos os governos praticam acções de esquerda e acções de direita. Pode variar muito é a proporção entre elas. O grande erro, em Portugal, é dizer-se "de esquerda" quem pratica principalmente acções de direita e de extrema direita.


Nota - A negro o que foi suprimido pelo jornal e substituído por (...)


17 de Outubro de 2009

Quem vale são as pessoas

Publicado no "Linhas de Elvas" de 15 de Outubro de 2009

Na ditadura partidocrática que nos impuseram sem referendo, os eleitores não podem escolher livremente os seus dirigentes. Para a Assembleia da República - as eleições mais importantes - só podem votar em partidos, ou seja, em listas, por ordem fixa, feitas ditatorialmente por meia dúzia de pessoas. Isto é baseado na falsíssima ideia de que cada partido representa uma ideologia, diferente das dos outros e que se exprime nos dizeres (falsos) de que as pessoas não interessam e o que vale são as ideias.

As eleições autárquicas de 2009 forneceram mais uma excelente demonstração da falsidade daquelas afirmações e bom seria que os portugueses acordassem e exigissem a alteração da Constituição que permitisse eleições livres, já que apenas o é a eleição do Presidente da República: é candidato quem o deseja ser e é apresentado com o apoio dum certo número de eleitores, no caso cerca de 0,1 a 0,2% dos eleitores. Os partidos, que têm toda a razão de existirem como associações de cidadãos com o mesmo credo político mas nunca como "órgãos de poder" e muito menos como "órgãos de poder ditatorial", limitam-se a apoiar o candidato que entenderem.

A demonstração do que afirmei no início foi dada pelas eleições autárquicas de Faro e Tavira. Na grande maioria dos casos os Presidentes das Câmaras Municipais foram reeleitos e é bem evidente que se Macário Correia quisesse continuar a presidir à Câmara Municipal de Tavira também seria reeleito. Confiado na sua boa capacidade como autarca, resolveu candidatar-se a Faro, a capital do distrito e, portanto, com mais alargadas responsabilidades. Era uma candidatura arriscada porque, dentro da regra da reeleição dos Presidentes, teria de ganhar a José Apolinário e até lutar contra a imensa propaganda socialista, ajudada por uma boa parte da comunicação social. Macário Correia (PSD) ganhou a José Apolinário (PS). Porque os farenses resolveram preferir a Social Democracia ao Socialismo, se os nomes dos partidos tivessem alguma validade? Certamente que não. Apenas consideraram que Macário lhes dá mais esperanças de fazer melhor que Apolinário.

7 de Outubro de 2009

As responsabilidades da República

Publicado no Diário de Notícias de 7-10-2009

De acordo com Vital Moreira, na defesa da república, por oposição à monarquia (DN de 5-10.2009), teremos de concluir que na Suécia, na Dinamarca, na Noruega, na Bélgica, na Holanda e na Inglaterra, para já não falar da Espanha, não existe, como doutrina política e praxis política, igualdade dos cidadãos no acesso à educação e à informação, na possibilidade de participação de todos no poder público, na primazia da coisa pública (res publica em latim) sobre os interesses privados, na construção de uma comunidade política baseada na autonomia individual, na virtude e responsabilidade cívica, nem dedicação à causa pública, nem prevalência do interesse público, nem transparência e escrutínio dos cargos públicos, nem sujeição da actuação política a grandes exigências de rigor e de probidade ("ética republicana"), nem responsabilidade política e criminal dos titulares de cargos públicos em geral e dos cargos políticos em especial.

Em Portugal é que sim, existem!

25 de Setembro de 2009

Bolonha não "reduziu" coisa nenhuma

Publicado no Global Notícias de 25-9-2009

Um erro que tem sido generalizado e que o Global Notícias comete (22-9-2009) é dizer que Bolonha "reduziu as licenciaturas para três anos".
Bolonha, que veio dizer em 1999 essencialmente o que eu tinha proposto cinco anos antes e o governo não aceitou, definiu três níveis no ensino superior. Cada país dá a esses níveis o nome que entender. Eu tinha proposto que desaparecesse o nome mestrado e ficassemos com bacharel, licenciado e doutor, como existia antes da infeliz legislação de 1980, que eu pretendia corrigir. Preferiram suprimir o nome bacharel e passar a chamar ao primeiro ciclo licenciatura. É óbvio que a licenciatura portuguesa pós-Bolonha é - e assim é considerada internacionalmente - um bacharelato.

24 de Setembro de 2009

Governabilidade

Publicado no Linhas de Elvas de 24 de Setembro de 2009


Aprendia-se na escola - e não sei se ainda se aprende - que a governação dum país assenta em três poderes: o legislativo, o executivo e o judicial.

Na Europa e em alguns países de outros continentes está a ser considerada a "necessidade" de o sector do executivo ter maioria absoluta de simpatizantes da sua ideologia no legislativo e alguns até consideram o país "ingovernável" se tal não existir. Outros, porém, consideram tal maioria um mal gravíssimo.

Nestes países o chefe do executivo (normalmente com a designação de Primeiro Ministro) não é eleito como tal, mas é uma consequência das eleições para o legislativo. Nem sempre é assim e há casos em que o chefe do executivo é eleito directamente e em eleição diferente da que leva à formação do legislativo. Um caso típico são os Estados Unidos, em que o Presidente é, simultaneamente, o chefe do governo, com funções perfeitamente idênticas às dum Primeiro Ministro. É um sistema presidencialista, diferente dos semi-presidencialistas, em que o Presidente se limita a aprovar ou não as leis feitas pelo legislativo.

Invoco estas linhas, que publiquei há uns anos(1) porque a situação que se vive e as ideias que vejo apresentadas pelos nossos políticos e politólogos exigem que se chame a atenção para alguns aspectos da nossa desgraçada política. Aquela separação dos três poderes garantia um certo equilíbrio, evitando que qualquer deles tome supremacia, invadindo o sector que a outro pertence. Quando aqueles três poderes se mantêm independentes, o governo terá de governar com as leis - quaisquer que elas sejam - elaboradas pelo legislativo. (Por esse facto, não me parece lógico que um parlamento dê ao governo "autorizações legislativas". Está a abdicar das funções que, por definição, lhe competem e a entregá-las a outros). Se um governo considera que não é capaz de governar com as leis feitas pelo legislativo, tem de se demitir. Se não as cumpre satisfatoriamente, tem de ser demitido. Se, cumprindo bem as leis, os resultados são maus porque as leis são más, só tem de chamar a atenção dos cidadãos que, em democracia, já não elegerão tão maus deputados.

Nos Estados Unidos já tem sucedido o governo ser dum partido e a maioria no Senado ser de outro. E ninguém ali pensa que o país, assim, é ingovernável. O governo não é consequência das eleições para o Congresso (Senado e Câmara dos Representantes) e os partidos não são órgãos de poder. Não existe ali o partidarismo fanático que vemos ao máximo em Portugal e que nos submete a uma ditadura feroz, em que os cidadãos não se podem candidatar a deputados e meia dúzia de pessoas dizem a 8 milhões de eleitores em quem é que eles têm "licença" de votar e em listas de ordem fixa. Em qualquer parte do mundo em que as pessoas sabem o que é democracia (sistema em que o poder reside nos cidadãos e não em qualquer clique) e ter eleições livres, um tal sistema é, obviamente, ditadura.Mais uma vez me vejo compelido a citar a frase com que terminei um artigo publicado no "Expresso" há trinta anos: "Partidos como congregações de cidadãos com o mesmo credo político, sim! Partidos como órgãos de poder paralelo, não! E partidos como órgãos de poder ditatorial, três vezes não!"(2)

Nos Estados Unidos não existe esse caso caricato do Presidente "consultar os partidos" nem o aberrante sistema de, quando sai um Primeiro Ministro, o lugar ser ocupado por um senhor que nem foi eleito e simplesmente é o chefe dum partido, cargo que ainda nem ocupava quando, em eleições gerais, esse partido foi o mais votado. Para corrigir essa anti-democrática aberração e, depois de já ter publicado numa revista universitária uma "Proposta de Alterações à Constituição"(3), publiquei um aditamento sobre a eleição do Primeiro Ministro(4).

Era bom que Portugal aprendesse o que é democracia e fosse capaz de eleger - livremente - uma Assembleia da República que fosse o autêntico órgão legislativo e não desse o espectáculo triste que vimos durante estes quatro anos e meio, com uma maioria parlamentar completamente subserviente do governo, fazendo tudo o que este queria e onde nos debates os seus correligionários se limitavam a louvaminhar esse mesmo governo.

(1) Mota, M. - São necessárias maiorias absolutas? Linhas de Elvas de 3-2-2005

(2) Mota, M. – Partidofobia e partidocratite. Expresso de 27-10-1979

(3)Mota, M. - Proposta de Alterações à Constituição da República Portuguesa, INUAF Studia, Ano 2, Nº 4, Pag. 135-147. 2002

(4) Mota, M. - A eleição do Primeiro Ministro. Jornal de Oeiras de 7-6-2005

18 de Setembro de 2009

Exportar ou não importar

Publicado no Público de 18-9-2009

Os economistas insistem na necessidade de Portugal exportar e o Prof. Daniel Bessa propõe redução de impostos para as empresas que exportam. Mas parece esquecerem que produzir para o mercado interno e não ter de importar é mais fácil, tem o mesmo efeito e só depende de nós. Para exportar dependemos do estrangeiro querer os nossos produtos.

Um dos sectores em que é mais fácil suprimir importações é a agricultura. Se temos de importar bananas e mangas, não se justifica ver os nossos supermercados (e não só...) a abarrotar de batatas, cebolas, cenouras, alhos, alfaces, tomates, pimentos, feijão verde, melões, melancias, laranjas, limões, ameixas, pêssegos, nêsperas, maçãs, peras, uvas, morangos, etc. etc. etc. vindos, às vezes, de bem distantes terras. Se o Ministério da Agricultura, em vez da destruição que vem fazendo há décadas e grandemente intensificada pelo actual governo, tivesse desenvolvido a agricultura (e muito tenho escrito sobre a forma de o fazer), a situação de Portugal seria bem outra, pelas melhorias causadas no PIB, na inflação, no desemprego e na balança comercial, além de benéficos reflexos na indústria e no comércio, a montante e a jusante.Aliás, uma agricultura portuguesa bem desenvolvida também exporta mais produtos agrícolas do que actualmente.

Também convém lembrar que um país que assenta a sua riqueza essencialmente na exportação está sempre em risco de que ela falte, como é o caso actual da Finlândia.

Nota - Faltou acrescentar, depois de "PIB," também "no défice orçamental, "

16 de Setembro de 2009

Os fazedores de comunistas

Publicado no linhas de Elvas em 20-1-2006

Não foi por acaso que o comunismo nasceu na Rússia dos czares. Num sistema com aspectos de feudalismo, com senhores riquíssimos, vivendo faustosamente e uma imensa plebe a viver em condições miseráveis, estavam criadas as condições para um movimento apoiado nas ideias de Karl Marx que se apresentava a prometer melhores condições a essa gente. Quem nada tem a perder está aberto a qualquer promessa que lhe façam de melhoria da sua infeliz situação.

Os factos têm demonstrado que é uma utopia a total igualdade entre os homens, numa verdadeira “sociedade sem classes”, como o Dr. Mário Soares apregoava (e tem sido visto na televisão) logo após o 25 de Abril, antes de virar à direita e meter o socialismo na gaveta. Mas desse extremo igualitário ao extremo de grande desequilíbrio social, com a maioria da população a viver com enormes dificuldades, há toda uma gama intermédia. Compreenderam bem isto os países escandinavos, particularmente a Suécia, a mais notável realização politica duma sociedade equilibrada, grande geradora de riqueza e com muito boa protecção social. E por esse facto, embora bem perto da União Soviética e mesmo durante o período em que o comunismo conseguia um certo número de aderentes, como em França, o partido comunista na Suécia era uma pequena minoria, sem peso na política do país. Que é que os comunistas podem prometer a uma população com um razoável ou mesmo bom nível de vida e uma elevada protecção social? Um país onde deixou de haver pobres e onde os de menos posses fazem inveja à classe média de muitos países é um modelo que bem podia ser adoptado. Portugal não foi capaz de compreender isso, o que ficou bem evidente na conversa em que, nos tempos do PREC, Otelo, orgulhosamente, disse a Olof Palme, então Primeiro Ministro da Suécia, que “em Portugal já acabámos com os ricos”. A resposta que recebeu foi que “na Suécia tinham acabado com os pobres”.

Infelizmente, muitos países não compreendem estes factos e mantêm ou, aumentam, um grande desequilíbrio social. Com esse sistema conseguem estimular o desenvolvimento de simpatizantes dos comunistas ou de grupos semelhantes, situação que tenderá a crescer à medida que o fosso entre ricos e pobres aumenta. Que é o que tem estado a acontecer em Portugal, até com governos que têm o descaramento de se dizer “socialistas” e “de esquerda”.

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Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética

1 de Setembro de 2009

A agricultura dita "biológica"

Publicada, com cortes (assinalados a negro) no "Expresso" de 29-8-209


Os portugueses parece que não se apercebem do enorme ridículo que é chamar "biológicos", por oposição a outros que o não são, a produtos agrícolas obtidos sem aplicação de produtos de síntese, nomeadamente fertilizantes e pesticidas (Expresso de 22-8-2009).

Não discuto os métodos preconizados, alguns deles apenas princípios de boa agricultura que durante anos ensinei aos meus alunos dos cursos de engenharia agronómica. Critico a ridícula designação de "agricultura biológica" e dos seus produtos "biológicos". Enquanto as fábricas não fizerem couves sintéticas ou bifes sintéticos, todos os produtos agrícolas são biológicos, isto é, plantas e animais, com o seu código genético, a característica fundamental dos seres biológicos. Se uma couve que foi adubada com sulfato de amónio deixou de ser "biológica", uma pessoa que tomou uma aspirina já não é um ser biológico. E teríamos que considerar uma "medicina biológica", aquela em que o médico nunca receitaria produtos de síntese.

Alguns países europeus como Portugal e a França usam essa designação errada. A Inglaterra usa o nome também ridículo de "agricultura orgânica". Couves inorgânicas ou "não biológicas" são apenas as de barro das Caldas. Uma designação aceitável para esse tipo de agricultura (e esses produtos) é "ecológica", como é usada em Espanha, por ser a agricultura que pretende aproximar-se das condições naturais.

Também seria interessante que explicassem o que é "agricultura tradicional" já que a forma de agricultar a terra tem estado em constante evolução, como resultado da investigação agronómica, que tem permitido obter cada vez mais e melhores alimentos e sem a qual metade da humanidade já teria morrido de fome.

MIGUEL MOTA, Oeiras

Eleições simultâneas

Publicado no Linhas de Elvas de 27-8-2009

As eleições, especialmente as de âmbito nacional, custam muito dinheiro aos que trabalham e pagam impostos, além de perdas de produtividade pois durante muitos dias um grande número de pessoas nada mais faz do que ocupar-se dessa improdutiva propaganda. Qualquer país inteligente e particularmente se for um país pobre, deve fazer os possíveis por reduzir esse gastos. Quando, num ano, há vária eleições, o mais natural é fazê-las todas ao mesmo tempo, como sucedeu há menos de um ano nos Estados Unidos em que, além das presidenciais, se realizaram outras, simultaneamente.

Todos os partidos com assento na Assembleia da República menos o PSD se opuseram a essa medida alegando que, se fossem ao mesmo tempo, umas podiam influenciar outras, ou seja, passando aos portugueses um atestado de parvinhos que não sabem o que querem. Suspeita-se que essa "influência" se baseava no facto de no últimos tempos o PSD ter mais Câmaras Municipais e por isso desejavam que fossem as últimas, como, aliás, vão ser.

Apesar do descontentamento geral, consequente de nos últimos quatro anos a grande maioria dos portugueses ter sofrido o maior corte de sempre no seu nível de vida, resultado do aumento dos impostos, taxas, etc. e corte de numerosos serviços e benefícios vários - tudo ao contrário das muitas promessas durante a campanha - a intensa propaganda do governo tentava criar a ideia de que a única dúvida era se o PS teria ou não maioria absoluta. Não se admitia a hipótese do PS não ter mais votos que qualquer outro partido e uma boa parte da comunicação social, como sempre pró PS, considerava impensável que esse partido não tivesse maioria. Isso era também o que aparecia como resultado de todas as sondagens, nas últimas das quais apenas uma dava a maioria ao PSD. Algo estranho, em virtude do generalizado descontentamento por tudo quanto a maioria sofreu.

Para descrédito da propaganda governamental e das sondagens, nas eleições para o Parlamento Europeu, o PSD teve mais cinco pontos percentuais dos votos do que o PS. Caía por terra toda a pretensa invencibilidade do partido que ainda - e tão mal! - nos governa. Pode mesmo dizer-se que o tiro saiu pela culatra porque aqueles resultados deram uma alma nova aos outros partidos. Afinal, o PS não era invencível e nasceu a esperança de que em breve seja substituído, pois acredita-se que, depois destes anos da maior perda de poder de compra sofrida pela maioria dos portugueses e de grande protecção à minoria de mais ricos, o próximo governo não se atreverá a fazer a política destrutiva sofrida nos últimos quatro anos. Sem liberdade para elegerem quem desejam, sujeitos os 8 milhões de eleitores a votarem apenas em quem uma meia dúzia de pessoas lhes dão "licença", ficam limitados a escolher a que lhes parece "menos pior" dessas listas. Não podendo eleger quem desejariam, apenas lhes resta mandar embora quem tanto mal lhes causou. Por muito fraca que seja a escolha, não parece provável que seja pior.

Depois de marcadas as eleições gerais para 27 de Setembro, competia ao Sr. Presidente da República marcar a data das eleições autárquicas. De acordo com os argumentos já referidos, poderia tê-las marcado para o mesmo dia das eleições gerais e algo se economizaria. Preferiu marcá-las para Outubro. Penso que fez bem. Se as tivesse marcado para 27 de Setembro, imagina-se a choradeira que iríamos ouvir, que estava a favorecer o PSD, que os resultados foram aqueles porque estavam influenciados pelas autárquicas, etc. etc. etc. Essa desculpa já não pode existir.

Novos partidos, para além dos que têm tido assento na Assembleia da República, vão concorrer a estas eleições. Sem os portugueses terem liberdade de eleger quem lhes merece confiança, seria excelente se algum desses partidos aparecesse com um programa credível (e não meras declarações de intenções), apresentado por pessoas com competência e honestidade demonstradas.

29 de Julho de 2009

Agricultura em perigo

Publicado no "Diário de Notícias" de 28 de Julho de 2009

A compra de terras e plantação de olivais em Portugal por agricultores espanhóis (DN 26-7-09) é o resultado das destruições que têm vindo a ser feitas no Ministério da Agricultura, com particular intensidade pelo actual governo. O desmantelamento da investigação agronómica (mais uma vez lembro a vergonhosa legislação dos finais de 2007) já custou ao país imenso, tanto na ciência não produzida como naquela que dá à agricultura portuguesa um valor várias vezes superior a todos os gastos.

Não dispondo de números concretos (*porque nunca os altos dirigentes quiseram fazer o que propus), lembro que algo que todos conhecem, a uva 'D. Maria', "fabricada" na Estação Agronómica pelo já falecido Eng.º Agrónomo José Leão Ferreira de Almeida (que a baptizou com o nome de sua mãe), dá ao país, todos os anos, mais do que o orçamento da Estação. E tive recentemente informação que os centeios tetraplóides (*que obtive há muitos anos, duplicando o número de cromossomas) ainda são cultivados pelo menos na região de Castelo Branco, onde produziam cerca de 50% mais que as variedades locais que substituíram. É com tão brilhante acção governamental que se consegue que Portugal vá ficando cada vez mais distante do nível dos seus parceiros europeus.

Miguel Mota

Oeiras

* Cortado pelo jornal


23 de Julho de 2009

O que a oposição não tem dito

Publicado no Linhas de Elvas de 23-7-2009

Do que tenho visto e ouvido ao longo das campanhas eleitorais dos últimos tempos – e as campanhas não existem apenas nos períodos oficialmente a elas devotados – afigura-se-me, na minha modesta opinião, que há pontos importantes que as diferentes oposições não têm denunciado.

Penso que o mais grave, para a grande maioria dos portugueses, foi o brutal corte no seu poder de compra sofrido ao longo destes quatro anos – o maior de sempre! – resultado do aumento de impostos e taxas – tão veemente negado nas promessas da campanha eleitoral, em 2005! – da estagnação dos salários ou subidas inferiores à inflação, da extinção de serviços públicos, obrigando a pagar a privados, a supressão ou redução de benefícios, como alguns do IRS, etc. Aqueles que viviam com orçamento apertado, sem margem para cortes, cujo individamento era suportável para o nível de vida que tinham em 2005, deixaram, por motivo dos cortes (e não estouvadamente, como alguns economistas apregoam), de serem capazes de satisfazer esses compromissos o que originou o disparar das penhoras. Não vi as oposições denunciarem esse mal, com os dados completos, mostrando os erros cometidos pelo governo. (Lembro que tudo isto é anterior à crise internacional, que só estalou na segunda metade de 2008).

Os grupos parlamentares do PCP e do Bloco de Esquerda insistem muito no combate aos empregos precários e querem que os patrões não possam despedir empregados. Se isso pode “proteger” alguns empregados, tem dois efeitos perversos. Um é que pode levar à extinção de empresas, como temos visto suceder a tantas; o outro é que muitos empresários não admitem mais pessoal, mesmo quando, em certas ocasiões, tivessem possibilidade de lhes dar trabalho, porque não os podem despedir se faltar trabalho para os ocupar. Estes dois casos são causa de mais desemprego. Mas não vi aqueles grupos parlamentares atacarem um mal que parece ter voltado como era nos tempos de Mário Soares Primeiro Ministro, os salários em atraso. O mais elementar direito do trabalhador é receber o seu salário a tempo e horas e creio que seria oportuno fazer uma lei que determinasse que qualquer atraso seria automaticamente causa para penhora até aos valores em falta. Aqui fica a sugestão.

Em tempos antigos, o PS era um acérrimo defensor dos direitos adquiridos, algo sagrado em que não se poderia tocar. Era o seu ponto de vista quando ainda era socialista e de esquerda, algo que há muito deixou de ser e só porque os portugueses não se dão ao trabalho de raciocinar é que ainda lhe atribuem aquelas duas designações. (E isso apesar de alguns dos seus militantes estarem a chamar a atenção para o facto!). Não vi a denúncia desses vários casos, de que dou como exemplo o facto de os reformados da função pública terem passado a descontar para a ADSE, com total desprezo pelo direito adquirido. Este é apenas um entre muitos outros casos e as oposições, em vez de atacarem os males concretos, gastam tempo com acusações vagas, como a de arrogância, eleitoralismo e outras do estilo. É pena.

Eleições livres

Publicado no "Jornal de Cascais" em 21-7-2009

O Prof. José d’Encarnação insurge-se, no “Jornal de Cascais” de 14-7-2009 (“Não posso crer”), contra as “lógicas partidárias que o vulgar cidadão não compreende”, a propósito do que se vai passar nas próximas eleições para a Junta de Freguesia de Cascais. Tem toda a razão mas eu penso que o “vulgar cidadão”, ao fim de mais de trinta anos do regime que nos impuseram sem referendo (algo inadmissível em tempos modernos) já devia ter compreendido algo que continua a ignorar: que o sistema vigente e que quase toda a gente apelida de “democracia” (incluindo os mais qualificados politólogos) é um sistema ditatorial, com muitos pontos de contacto com o anterior.

Por definição, em democracia o poder reside em todos os cidadãos maiores de 18 anos. Obviamente, isso implica o direito de decidir livremente em quem delega (pelo voto) esse poder ou mesmo o de se candidatar a qualquer cargo electivo, se esse for o seu desejo. Se não se pode candidatar e só pode votar (delegar o seu poder) em quem um ou meia dúzia de cidadãos lhe dão “licença”, estamos em ditadura. É isso que se passa em Portugal, excepto na eleição para o Presidente da República, a única livre e democrática em Portugal. As candidaturas estão abertas a qualquer cidadão maior de 35 anos e justifica-se que sejam apoiadas por um certo número dos seus eleitores, para evitar um muito avultado número de candidatos em quem quase ninguém votaria. E considero correcta a percentagem de apoiantes exigida, cerca de 0,1 a 0,2% (7,500 a 15.000, num total de 8 milhões de eleitores). Os partidos limitam-se a apoiar o candidato que entenderem, mas não podem apresentar candidatos, o que considero certo e dentro das normas que há muito defendo(1).

Infelizmente, para a Assembleia da República, as mais importantes eleições, a ditadura partidocrática (ou “partidismo”) é completa e os cidadãos só podem votar numa de meia dúzia de listas (com ordem fixa!) elaboradas por outros tantos ditadores. Não são eleições livres e para corrigir o mal já apresentei o que considero ser a solução(2, 3).

Para as autarquias – e é esse o caso da Freguesia de Cascais – já se abriu uma pequena janela democrática(4), de que resultaram alguns casos de estrondosa derrota da ditadura partidocrática, como já mostrei(5, 6, 7, 8, 9). Assim, os eleitores da Freguesia de Cascais têm a possibilidade de elegerem quem melhor entenderem, podendo, se essa for a vontade da maioria, derrotar todos os candidatos apresentados pelos partidos. Se não são eleições completamente livres como as do Presidente da República, já dão algumas possibilidades de fazer vingar a vontade dos cidadãos.

O que não compreendo é que os que antigamente se queixavam de não serem livres as eleições para os deputados (podiam candidatar-se e votar em quem desejassem, mas os resultados eram manipulados), agora, que também não são, acham que têm “eleições livres” e chamam ao sistema “democracia”. E não pensam, sequer, na alteração da Constituição, nos moldes que já propus (2, 3) .

(1) Mota, M. – Partidofobia e Partidocratite. Expresso de 27-10-1979

(2) ----- Proposta de Alterações à Constituição da República Portuguesa. INUAF Studia, Ano 2, Nº 4, Pag. 135-147. 2002

(3) ----- A eleição do Primeiro Ministro. Jornal de Oeiras de 7-6-2005

(4) ----- Uma pequena janela democrática. Linhas de Elvas de 6-10-2005

(5) ----- A derrota do partidismo. Jornal de Oeiras de 1-11-2005

(6) ----- A segunda derrota do partidismo. Jornal de Oeiras de 31-1-2006

(7) ----- As duas derrotas do partidismo, Linhas de Elvas de 9-2-2006

(8) ---- A ditadura partidocrática em grande. Linhas de Elvas em 14-12-200

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado

5 de Julho de 2009

Partidocracia

Publicado no Linhas de Elvas de 2-7-2009

O Senhor Director da Faculdade de Medicina de Lisboa publicou no “Expresso” um artigo em que critica, muito justamente, a partidocracia a que estamos submetidos sem qualquer possibilidade de eleger livremente os deputados que, presumivelmente em nosso nome, irão legislar e governar. Nesse artigo declara que “Ninguém toca no assunto. É preciso que a escolha dos representantes políticos deixe de ser monopólio dos directórios partidários; círculos uninominais impõem exigência e participação dos cidadãos”.

Eu sei que a enormíssima parte da população assim procede. Não sei se outras pessoas já “tocaram no assunto” mas se outros o não fizeram eu tenho-o feito repetidas vezes e precisamente para acabar com o “monopólio dos directórios partidários”, ter círculos uninominais e dar aos cidadãos a liberdade de voto que não têm e que é essencial para um sistema ser considerado democrático. Eu sei que a minha voz é fraquinha mas em 1979 (há trinta anos!) publiquei no Expresso, um artigo(1) cujo último Parágrafo transcrevo:

“Partidos políticos como congregações de homens com o mesmo credo político, sim! Partidos como órgãos de poder paralelo, não! E partidos como órgãos de poder ditatorial, três vezes não!

Ao longo destes trinta anos tenho publicado numerosos artigos e cartas em diversos jornais(2 a 14) e até já publiquei, numa revista universitária, uma “Proposta de Alterações à Constituição”(15) para haver em Portugal democracia. Os portugueses, antes do 25 de Abril, queixavam-se, legitimamente, de não terem eleições livres. Agora, que também não têm (há meia dúzia de senhoras/es que ditam aos 8 milhões de eleitores em que é que eles têm “licença” de votar), chamam ao sistema “democracia”!

(1) Mota, M. – Partidofobia e Partidocratite. Expresso de 27-10-1979

(2) ----- Conceito de democracia. Público de 8-4-2001

(3) ---- Um bizarro conceito de democracia. Jornal de Oeiras de 16-5-2006

(4) ----- Votar em liberdade. Correio da Manhã de 8-9-2000

(5) ----- O patrão dos deputados. Linhas de Elvas de 15-11- 2007

(6) ----- Uma pequena janela democrática. Linhas de Elvas de 6-10-2005

(7) ----- A derrota do partidismo. Jornal de Oeiras de 1-11-2005

(8) ----- A segunda derrota do partidismo. Jornal de Oeiras de 31-1-2006

(9) ----- As duas derrotas do partidismo, Linhas de Elvas de 9-2-2006

(10) ---- A terceira derrota do partidismo. Linhas de Elvas de 19-7-2007

(11) ---- A melhor campanha eleitoral. Correio da Manhã de 17-4-1992

(12) ---- A ditadura partidocrática em grande. Linhas de Elvas em 14-12-2006

(13) ---- Democracia. VISÃO nº 792, de 8-5-2008

(14) ----- A eleição do Primeiro Ministro. Jornal de Oeiras de 7-6-2005

(15) ---- Proposta de Alterações à Constituição da República Portuguesa. INUAF Studia, Ano 2, Nº 4, Pag. 135-147. 2002

6 de Junho de 2009

Conceito de democracia

Publicado no Diário de Notícias de 6 de Junho de 2009

O leitor Mário de Sousa escreve (DN de 4-6-2009) que a 2 de Abril de 1976 foi aprovada a Constituição Portuguesa  e que isso “restituiu aos portugueses o direito à liberdade e a estabelecerem os princípios básicos da democracia”. Não é verdade. Os princípios básicos da democracia dão o poder aos cidadãos maiores de 18 anos e isso implica o direito de delegar esse poder livremente em quem lhe merecer confiança e até de se candidatar a deputado se o desejar e tiver o apoio de um certo número dos seus eleitores. Um sistema em que um ou meia dúzia de cidadãos dizem à grande massa de eleitores em quem é que eles têm “licença” de votar para, presumivelmente em seu nome, irem legislar e governar, é uma ditadura. Em Portugal a única eleição democrática é para o Presidente da República, em que os cidadãos são livres de se candidatarem e os partidos se limitam a apoiar o candidato que entenderem.

Foi para haver em Portugal democracia que publiquei numa revista universitária (INUAF Studia, 2002) uma “Proposta de Alterações à Constituição”. Só quando essa alteração se efectuar e tivermos liberdade de escolher os nossos deputados (como temos para escolher o Presidente da República) é que Portugal será uma democracia.

Miguel Mota

Nota - A negro o que foi suprimido pelo jornal e substituído por (...)

27 de Maio de 2009

Comentário na TIME

Publicado na TIME de 1 de Junho de 2009

 

Choosing the 100 World’s Most Influential People (May 11, 2009) is certainly highly subjective, but it seems strange that the list does not include the President of the European Union Commission, José Manuel Barroso. Not only the official position but also the efficient way he performed his activities were certainly more influential than some of the names in your list.*

Miguel Mota, Oeiras, Portugal

 

* A negro o que foi suprimido pela TIME

7 de Maio de 2009

Mais uma vez, os cabeças de lista

Publicado no “Linhas de Elvas” de 7 de Maio de 2009 

Por mais voltas que dê, não encontro em que eu possa estar errado em relação ao que se me afigura ser uma verdadeira miséria de ideias políticas generalizada em Portugal. Não encontrando erro da minha parte, não tenho complexos de me encontrar só, mesmo que, em vez de orgulhosamente, seja com uma certa tristeza de não viver num Portugal diferente e bem melhor do que aquele que temos.

Já mais de uma vez chamei a atenção para a total irrelevância dos cabeças de lista, pelo menos nos partidos que certamente vão eleger mais de um deputado.

Também considero incrível que aqueles que, legitimamente, se queixavam de não ter eleições livres e que, apesar de se poderem candidatar, viam ser eleitos apenas quem o chefe queria, agora aplaudem freneticamente quando o chefe lhes anuncia o nome da pessoa em que ele, ditatorialmente, lhes dá licença de votarem. Que bons antifascistas!

Nas eleições para o Parlamento Europeu, tanto o cabeça de lista do PS, como o do PSD, vão certamente ser eleitos. Assim, é perfeitamente absurdo que pessoas que tinham obrigação de ter ideias claras em matéria política e serem capazes de raciocinar, mostram não o fazer. No “Público” de 1-5-2009, o Dr. José Miguel Júdice, em relação às eleições para o Parlamento Europeu, diz: “Volto ao tema, desta vez através do principal confronto, o que oporá Vital Moreira e Paulo Rangel”.

Não vai haver confronto nenhum, pois ambos vão ser eleitos. Já em anteriores eleições tive de corrigir alguns comentadores, que cometeram idêntico erro.

Só haveria confronto se tivéssemos círculos uninominais e concorressem ambos ao mesmo e único lugar. Mais ou menos votos em qualquer das listas apenas vai decidir a eleição dum candidato lá para o 5º, 8º ou 10º lugar, frequentemente um ilustre desconhecido. Todos os que forem eleitos vão para o Parlamento Europeu em igualdade de condições e com o mesmo poder: um voto, quer seja cabeça ou cauda de lista. Não vai o cabeça de lista “chefiar” um grupo, pois cada deputado tem toda a liberdade de votar como entender, sem receber ordens de ninguém. (Se alguns, carneiralmente, aceitam receber ordens dum patrão, é com eles. Não é isso que se pretende em democracia).

Também nenhum partido que eleja mais um ou dois deputados que o outro pode clamar que “ganhou” estas eleições. Mais um ou dois entre as muitas centenas de deputados europeus é muito pouco relevante.

9 de Abril de 2009

Desorientação no ensino superior

Publicado no “Linhas de Elvas” de 9 de Abril de 2009

 

 Se anteriormente já havia alguns defeitos no ensino superior em Portugal, como ter o mesmo título de “licenciado” para níveis de escolaridade muito diferentes, a partir de 1980 e continuando no presente, a acumulação de erros é um indicativo de enorme desorientação. Pretendi, a partir de 1994, ajudar a corrigir esse erros propondo alterações que não foram aceites(1, 2), embora em 1999 Portugal assinasse a Declaração de Bolonha, que determina essencialmente o que eu tinha proposto cinco anos antes(3). Mas a desorientação não parece desaparecer, como um caso recente vem demonstrar.

O jornal "Sol" de 17-1-2009, dá uma notícia intitulada "Primeiro MBA em Gestão chega à Madeira".

MBA significa "Master in Business Administration" o que, traduzido à letra quer dizer "Mestrado em Administração de Negócios", ou seja "Mestrado em Gestão". Não há, portanto, MBAs que não sejam "em Gestão", como dão a entender o título e o texto. E no texto diz-se depois que quem fizer este MBA (um mestrado) com aproveitamento pode prosseguir os estudos para um mestrado no mesmo tema. Das duas uma: ou o MBA é um mestrado (como o nome indica e deve ser) e o prosseguimento dos estudos será para um DBA ("Doctor in Business Administration", um doutoramento) ou o MBA da Madeira não é um MBA e então, realmente, justifica-se ir fazer um mestrado.

Enquanto em Portugal existirem anomalias deste género, não é possível alinhar com os da média europeia, para não falar dos da frente, grupo em que devíamos estar se no comando dos variados sectores estivesse gente competente.


(1) - Mota, M.  -  Achegas para o novo estatuto da carreira docente universitária.   Público  de 2 de Julho de 1994

(2) - --- A propósito da Escola Superior Agrária de Elvas, o Ensino Superior Agrícola.  Linhas de Elvas de 5 de Maio de 1995

(3) - ---- O ensino da engenharia e a Declaração de Bolonha.  Ingenium, Nº 65, Fevereiro 2002

3 de Abril de 2009

Avaliação da ciência...

Publicado no “Diário de Notícias” de 3 de Abril de 2009


A avaliação dos Laboratórios de Investigação (DN 30-3-200) é muito simples: basta ver a investigação científica que produziram. Há que não esquecer relacionar a investigação produzida com o dinheiro neles investido. Um laboratório que recebe por ano 10 milhões de euros tem obrigação de produzir muito mais ciência do que um que só recebe 200 mil euros. E também convém lembrar que duas avaliações, com intervalo de dez anos, feitas a um grande instituto de investigação, com vasto curriculum e grande projecção internacional, foram arrasadoras para os governos (a primeira do PSD, a segunda do PS) como os responsáveis pelos males apontados. De nada serviram porque os males apontados pelos avaliadores (e um dos estrangeiros participou em ambas), não só não foram corrigidos como continuaram a ser agravados. Deve ser para isso que alguns querem “avaliações”.


Nota: a negro o que foi suprimido pelo jornal

29 de Março de 2009

O espaço político

Publicado no “Linhas de Elvas” de 26 de Março de 2009

 Nas paupérrimas e distorcidas ideias políticas que vemos constantemente em Portugal, surge de vez em quando a pergunta se há "espaço político" para novos partidos. Essa pergunta é posta normalmente quando se anuncia ou já se concretizou a criação de novos partidos. O erro da pergunta está no facto de se pensar que os partidos existentes em Portugal têm políticas bem definidas e ocupando cada um uma clara parcela do espectro político que vai da extrema esquerda à extrema direita o que, como sabemos, não é a realidade. Mesmo que fosse, haveria sempre espaço para outro partido, pois há sempre a possibilidade de alguém concretizar melhor determinada política.

Variados acontecimentos mostram como os partidos portugueses, pelo menos os que têm estado no poder - e só desses podemos saber como concretizam as ideias que apregoam em campanha, pois não raro, como temos amarga experiência, fazem depois tudo ao contrário daquilo com que conseguiram enganar os ingénuos - mostram as mais erráticas e desencontradas políticas no exercício do poder ou mesmo fora dele. Todos se lembram como, durante as muitas mudanças de ministros do governo Guterres, o que entrava fazia tudo ao contrário do que o seu antecessor tinha feito. Durante a campanha para a eleição do Presidente do PSD, cada candidato defendia ideias claramente diferentes, do ponto de vista político, das dos outros candidatos. No governo PS que ainda temos e para além de ter feito tudo ao contrário do que tinha prometido - desde não subir impostos até criar 150.000 empregos - e de afastar cada mais Portugal da média europeia, variou constantemente de políticas e a enorme maioria dos seus actos são de direita. Privatizações são actos de direita. Se são de entidades de grande responsabilidade nacional, como é o caso da ANA - com o controle do espaço aéreo - que querem privatizar, podem ser consideradas de extrema direita. O aumento do leque salarial é de direita e um bom exemplo disso é o aumento, a eito, da mesma percentagem para todos os ordenados. Faz lembrar a antiga história do sujeito que dizia para outro: "dá-me o teu aumento que eu dou-te todo o meu ordenado". Os nossos ilustres politólogos continuam a chamar " de esquerda" ao PS que nos governa. Só o foi no seu início, quando andava de braço dado com o PC a fazer ocupações e nacionalizações, mas esse esquerdismo pouco durou. E quando hoje alguns falam dos "partidos à esquerda do PS" não compreendem que são todos os outros e que nem o CDS se atreveria a causar à grande maioria dos portugueses a maior perda de sempre no seu poder de compra e, portanto, do seu nível de vida. Umas migalhinhas dadas a uns velhinhos - aliás, baratas - não chegam para contrabalançar, apesar da intensa propaganda, essa enorme perda do poder de compra que, tudo somado, foi certamente mais de 20% e, como disse, a maior de todos os tempos, para a grande maioria dos portugueses. Essa perda de poder de compra é a causa da maioria dos casos em que as famílias - que se tinham endividado para o que era então o seu nível de vida - deixaram de poder satisfazer os seus compromissos. Apenas os ingénuos, que acreditam na propaganda e que o PS é socialista e de esquerda, consideram "corajosas" as medidas que tanto os prejudicaram.

Assim, há certamente "espaço político" para um partido - já que estamos sujeitos a uma ditadura partidocrática, ou partidismo e não podemos votar livremente - que seja capaz de desenvolver o país, fazer subir enormemente o actualmente baixo nível de vida da maioria dos portugueses e alterar  a constituição para dar liberdade aos portugueses. Só precisa de aparecer com nomes de pessoas credíveis e um programa satisfatório. Dizem-me que tal é impossível. Será mesmo?

16 de Março de 2009

Biblioteca da Universidade de Évora

Conversas ao fim da tarde com o professor doutor Miguel Mota:

A palestra será subordinada ao título - 'Agricultura e Desenvolvimento Rural'.
A Biblioteca Geral informa que, no âmbito da iniciativa CONVERSAS AO FIM DA TARDE, a próxima palestra será proferida pelo senhor professor doutor Miguel Mota, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Évora, no dia 25 de Março de 2009, pelas 18 horas, na sala de Bellas Artes. A palestra será subordinada ao título - 'Agricultura e Desenvolvimento Rural'.

13 de Março de 2009

Notícia no Público de 12 de Março de 2009



Notícia IOL

IOL Tecnologia

Notícia U Évora

Site da UÉvora

Ciência Hoje

Ciência Hoje

Notícia RTP (Lusa)

RTP Notícicas - investigação

Notícias no JN

Dia 6 de Março

11 de Janeiro de 2009

O ridículo nome de "agricultura biológica"

Publicado no “Jornal de Sintra” de 26 de Dezembro de 2008


Num Suplemento com o título "Agricultura Biológica", o "Jornal de Sintra" de 14-11-2008 publica um artigo do Dr. José Furtado Mateus, Delegado de Saúde de Sintra (aposentado), com o título "Sobre agricultura e saúde" e com o subtítulo "O Jornal de Sintra, na edição de 25 de Abril de 2008, publicou um artigo do sr. Prof. Miguel Mota, com o seguinte título: O ridículo nome de agricultura biológica. Tão insólito título provocou a necessidade de esclarecer o público em geral, com vários dados científicos e não só, para que possa decidir e compreender, de que lado está a transparência, versus opacidade"
Temos de dividir esse texto em duas partes: uma o caso da terminologia a aplicar a determinado tipo de agricultura; a outra os benefícios que ela pode dar e os malefícios das outras alternativas.Como ficou bem claro logo no início do meu escrito (Não vou discutir a metodologia do que chamam "agricultura biológica") só tratei da designação de "agricultura biológica" pois, como ali disse, enquanto as fábricas não fizerem couves sintéticas e bifes sintéticos, TODA a agricultura é biológica. Portanto, todos os outros considerandos do Dr. Mateus não me podem ser aplicados pois não tratei desse assunto.Dá uma definição de Biologia e diz que "Biológico - o que é relativo a Biologia". Um "ser biológico" - designação que certamente não contesta - é algo com vida e que tem como característica fundamental possuir um código genético, que lhe permite, ao reproduzir-se, transmitir à sua descendência todos (no caso da reprodução assexuada) ou uma parte (na reprodução sexuada) dos seus genes. (É claro que faço estas considerações para os leitores que estejam mais longe destes assuntos, pois um médico está perfeitamente familiarizado com elas e poderia ser considerado um insulto se se pensasse que as dirigia ao Dr. Mateus).Uma couve que foi adubada com sulfato de amónio continua a ser um "ser biológico", com o seu código genético. É por isso que considero ridículo dizer que há "couves biológicas", ou quaisquer outros produtos agrícolas, como batatas, peras, porcos ou vacas, como alternativa a outros produtos idênticos que o não são.A actuação da União Europeia em matéria da Agricultura é, desde há vários anos e mesmo antes da entrada de Portugal, uma acumulação de erros que bem caro têm custado à economia dos estados membros. Teve um excelente início, com a sua Política Agrícola Comum (PAC), especialmente devido à acção do brilhante agrónomo holandês Sicco Mansholt e resolveu o grave problema alimentar duma CEE (inicialmente apenas com seis países) deficiente em 50% de produtos alimentares. Essa situação era grave não apenas do ponto de vista económico (exigindo avultadas importações), mas também da defesa pois, em caso de conflito, os povos são mais facilmente derrotados pela fome do que pelos canhões. Os erros que começaram a ser cometidos a partir de certa altura e que continuam a ser cometidos por Comissários e Ministros da Agricultura que têm mostrado elevado grau de incompetência (como em vários escritos já denunciei) atingem até pontos bem mais graves que a terminologia. É lamentável que alguns países mostrem não saber o que é um "ser biológico", como Portugal e a França que falam de "couves biológicas" (como se houvesse outras!) ou como a Inglaterra, que fala de "agricultura orgânica" (como se houvesse "couves inorgânicas"!). É por isso que, para esse tipo de agricultura e sem nada alterar nas práticas que defendem, entendo que deviam usar uma designação mais apropriada. Considero que "agricultura ecológica", como é usada pela Espanha, pode considerar-se adequada, por se aproximar das condições ecológicas naturais.Sobre o resto do escrito que, como mostrei, nada tem a ver com o meu artigo, pois nele só tratei da terminologia, gostaria de fazer algumas considerações. E começo por dizer que tudo o que se fizer para incrementar a colaboração entre médicos e agrónomos tem o meu completo apoio. Mas nem todos estão "de costas voltadas" e, ao longo da minha vida vi - e nalguns casos colaborei - acções conjuntas de pessoas dessas duas formações.Lembro algumas palavras do discurso do Professor (médico) Fraga de Azevedo, na Academia das Ciências, ao fazer o elogio histórico do Prof. (engenheiro agrónomo) Joaquim Vieira Natividade, que transcrevo: “Mas, além do paralelismo dos seus métodos, os médicos e os agrónomos encontram-se de mãos dadas, sobretudo na convergência simultânea dos seus grandes e tantas vezes incompreendidos esforços a favor do bem estar da humanidade”. Estou a recordar-me que, ainda estudante, participei com uma comunicação num congresso regionalista, organizado na sua quinta aqui no concelho de Sintra por um ilustre Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, com a participação de vários engenheiros agrónomos e em que a agricultura foi tema muito importante. Além de colaborações várias, tenho pelo menos um "paper" científico assinado por mim, um médico e um botânico. Há muitos anos, um trabalho meu sobre cromossomas, realizado com raízes de cebola (usando o método conhecido como "Allium test") recebeu do Instituto Português de Oncologia o "Prémio A. J. da Silva Pereira" para investigação ligada ao problema do Cancro. Está publicado no "Arquivo de Patologia", a revista do Instituto, pois essa era uma das condições do prémio. Em 1962-1963 trabalhei um ano no Institute for Cancer Research (hoje Fox Chase Cancer Center) em Filadélfia. Durante um dos meus mandatos como Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética, assinei um protocolo com o Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética Humana (onde, naturalmente, predominam os médicos) no sentido de dar, em reciprocidade, aos sócios da outra sociedade, os mesmos direitos dos sócios da que organiza congressos ou outras reuniões. (Peço desculpa de usar o meu caso pessoal mas, além de ser o que melhor conheço, creio ser inegável a sua relevância para demonstrar colaboração entre agrónomos e médicos e que, além das metodologias, há uma "convergência simultânea dos seus grandes e tantas vezes incompreendidos esforços a favor do bem estar da humanidade”, como disse o médico Prof. Fraga de Azevedo atrás citado). Posso ainda adiantar que as XXXIV Jornadas Portuguesas de Genética (da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Genética, actualmente presidida por um agrónomo), que se vão realizar de 28 a 30 de Abril de 2009, estão a ser organizadas sob a presidência dum Professor Catedrático da Faculdade de Medicina. Será que, perante estes exemplos - muitos outros haverá - podemos dizer que médicos e agrónomos estão de costas voltadas?A agronomia e a medicina não são ciências exactas. Por insuficiente conhecimento, é possível em qualquer delas cometer erros, que devemos evitar e corrigir. O Dr. Mateus refere o caso do cálcio no combate à osteoporose, que não é absorvido se não for acompanhado de magnésio. A talidomida foi um dos casos mais trágicos. Por esse facto, alguns produtos usados na agricultura por algumas boas propriedades, foram proibidos sempre que se lhes atribuíram alguns maus efeitos, como foi o caso do DDT.É vulgar ouvir elogiar muito os "produtos naturais" como se essa característica automaticamente os tornasse inofensivos, o que não é verdade. Basta lembrar como são venenosos alguns cogumelos como a Amanita phaloides ou plantas como a cicuta (que matou o Sócrates) e várias outras para que a condição de ser "natural" nada nos diga sobre as vantagens de qualquer produto. Muitos produtos naturais, usados para tratar doenças, contêm compostos que causam efeitos secundários graves. O gengibre, que tem algumas boas qualidades, também afecta o estômago e causa sérias insuficiências renais. Uma vantagem de alguns produtos de síntese - muitos deles sintetizados depois de ser conhecida a sua acção a partir de plantas, como o bem conhecido caso da aspirina - é que não vêm acompanhados de outros nocivos.O Dr. Mateus escreve sobre a importância do húmus. Totalmente de acordo. É um facto elementar que a matéria orgânica é um dos mais importantes factores da fertilidade do solo. Em artigos, tanto para agricultores como para o grande público, várias vezes tenho insistido nas vantagens da compostagem e até elogiei a Câmara Municipal de Oeiras - o concelho onde moro há muitos anos - pela sua acção de estímulo e ajuda à prática da compostagem nos quintais. À vantagem do aumento de fertilidade do solo junta-se a de não ter de transportar e "armazenar" muitas toneladas de lixo. E, nesse tipo de aproveitamentos, um jornal publicou recentemente uma carta minha lembrando que a cinza das lareiras é um excelente adubo fornecedor principalmente de fósforo e potássio. Muitas das normas que defendem são regras gerais de boa agricultura e vários delas ensinei aos meus alunos dos cursos de engenharia agronómica.Sobre os adubos químicos, começados a usar na segunda metade do século XIX - e que foram a razão de ser do início da famosa Estação Agronómica de Rothamsted, em Inglaterra - pode dizer-se que, se não fossem eles mais de metade da população do mundo já teria morrido de fome. Houve - e continua a haver - casos de desequilíbrio? Claro, como noutros sectores pois, repito, agronomia e medicina não são ciências exactas. Como quando, ao ajudar uma mulher que não conseguia engravidar se originaram gestações com sete fetos. Sempre que ocorrem erros, se não foi possível evitá-los, há que corrigir e impedir novos, como no exemplo da osteoporose referido pelo Dr. Mateus.Dizer que, por se usar P+K+N (e não Ph como certamente por lapso, ali se refere três vezes) se esqueceram os oligoelementos, não é afirmação justa. Há mais de cinquenta anos um dos brilhantes trabalhos de investigação da Estação Agronómica Nacional (agora a ser destruída e até "oficialmente" extinta!), ainda em Sacavém, foi a solução do problema da "maromba" das vinhas do Douro, detectada como uma deficiência de boro e preconizada a terapêutica. Só a solução desse caso dava (e continua a dar), anualmente, à economia do país, o dobro de todo o orçamento da Estação Agronómica. Não é por acaso que a agricultura portuguesa e, como consequência, a economia portuguesa estão como estão. Pedindo desculpa de, mais uma vez, citar o caso pessoal, lembro que, num livrinho "O Pomar", de divulgação agrícola elementar, que publiquei há muitos anos, não deixei de referir a importância do boro nas macieiras, para evitar os nódulos com aspecto de cortiça no interior dos frutos.Se chamamos agricultura química àquela que usa produtos de síntese e agricultura biológica à que os não usa, teremos de usar a mesma designação para a medicina e teríamos uma "medicina biológica", aquela em que o médico só receita produtos naturais e nunca de síntese._____________________

Miguel Mota, Ex Presidente da Direcção e actual Presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Genética

Ainda o défice democrático

Publicado no “Linhas de Elvas” de 30 de Dezembro de 2008

Porque parece ser uma verdade que "a história se repete", em vez de nova prosa, permita-se-me que respigue alguns parágrafos de dois artigos publicados há mais de oito anos.
(Sobre o Défice Democrático, "Linhas de Elvas" de 11 de Fevereiro de 2000):A democracia baseia-se nalguns pressupostos. Um deles é o da maioria. Havendo que escolher entre pessoas ou decisões, elege-se ou adopta-se aquela que tiver mais adeptos, expressos em votos. Por isso, há quem considere a democracia a "ditadura da maioria".*No PSD, por exemplo, tem ocorrido com certa frequência, algo que grandemente prejudica o partido. O problema é já antigo. Quando, pela morte do Dr. Sá Carneiro, o Dr. Balsemão assumiu a chefia do partido, logo começaram os contestatários a actuar. E em breve houve eleições internas, que Balsemão ganhou por larga margem. Terminou o problema? Não! O charivari contestatário e antidemocrático manifestou-se logo a seguir. Novas eleições e nova vitória do Dr. Balsemão. Mais contestação e o Dr. Balsemão voltou as costas! (De memória e à distância, admito que possa haver algumas pequenas variações desta sequência. Mas recordo bem que o aspecto geral foi este).*Quando o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, em condições difíceis, assumiu uma liderança que não queria - até porque, em termos económicos, ela lhe seria bastante prejudicial - logo vários lhe começaram a morder às canelas, em constante contestação interna e antidemocrática. Com a maior parte da grande comunicação social há muitos anos encarniçadamente anti-PSD e pró-PS (os terríveis "males" dos tempos de Cavaco Silva passaram a ser "virtudes" de Guterres e dos seus ministros...) essas lutas internas e antidemocráticas no PSD são verdadeiros tiros nos pés.*O sistema que nos rege está longe de ser democrático. Numa democracia o poder reside no povo (do grego "demos"), o que exige total liberdade de escolher as pessoas em que cada cidadão delega um poder que é seu. Enquanto os portugueses só tiverem "licença" de votar em quem uns senhores chefes de partidos deixarem (tal como nos tempos do Salazar), "isto" não tem qualquer semelhança com democracia. É perfeitamente irrelevante que seja livre o acto de votar - deitar o papelinho na urna - quando alguns senhores, ditatorialmente, decidiram previamente em quem há "licença" para votar e, para cúmulo, sob a forma de listas, em que os nomes do topo das listas dos principais partidos têm, à partida, assegurada a sua eleição, algo inadmissível em democracia.*Verifica-se que, vinte e cinco anos depois duma revolução que lhes disseram que foi feita para implantar uma "democracia" - o governo do povo, pelo povo e para o povo - é, afinal, o governo deles, por eles e para eles. Os portugueses ainda têm muito a aprender em matéria de DEMOCRACIA.******* (O défice democrático continua, Linhas de Elvas de 21 de Abril de 2000):Convém lembrar que, numa DEMOCRACIA, por definição, o poder reside nos cidadãos e não nos partidos. Estes só detêm o poder numa partidocracia (o "partidismo"), uma forma de ditadura (ou "fascismo"...) em que alguns cidadãos se tornaram senhores do poder e dão aos outros "licença" para "votarem livremente"... mas apenas naqueles "conjuntos" de pessoas que eles escolheram.*Acabado o congresso do PSD, por toda a parte se ouviram clamores quanto aos resultados.Houve quem declarasse que o novo presidente só o era de meio partido. Não era! Acabado o congresso passou a ser "Presidente de todos os PSDs". Só não consideram assim os que "defendem", mas não desejam, democracia. São aqueles que só aceitam as regras da democracia quando ganham; ou seja, os não democratas.(Nunca ouvi ninguém dizer que Mário Soares tinha sido "eleito Presidente de meio Portugal")*A "interpretação" dada por esses "analistas políticos", a tão claros resultados foi a mais anedótica possível. "O Presidente (noutros casos "o partido"...) sai fragilizado", "uma vitória de Pirro", e frases do estilo, abundaram. Não compreendem que as divergências e mais de um candidato a um cargo são perfeitamente normais, em democracia, até ao momento das eleições. Mas, acabada a votação, terminam as divergências e, em DEMOCRACIA, repito, todos aceitam os resultados. Só em PARTIDISMO - e do pior - é que "a luta continua!"

Partidismo

Publicado no "Linhas de Elvas" de 8-1-2009

A ditadura partidocrática - para a qual cunhei o nome de "partidismo", para estar de acordo com os outros "ismos" políticos - foi o sistema implantado em Portugal pelos que elaboraram a Constituição de 1976. Porque sabiam que o povo não a aceitaria e exigiria uma Constituição que desse ao país um sistema democrático, não a submeteram a um plebiscito, o que, em tempos modernos, não é aceitável e lhe tira toda a validade. Numa democracia não pode haver ditadores a dizerem aos cidadãos em quem é que eles têm "licença" de votar e foi mesmo para combater esse mal que, segundo disseram, se fez o 25 de Abril.A única votação democrática é para o Presidente da República: qualquer cidadão se pode candidatar, a candidatura é apoiada por um certo número de eleitores (para evitar um exagerado número de candidatos em quem quase ninguém votaria) e os partidos políticos limitam a sua acção a apoiar o candidato que entenderem. É esse modelo que deveria ser aplicado a todas as eleições e que propus na "Proposta de Alterações à Constituição"(1) publicada numa revista universitária.Vital Moreira já fez parte do grupo de masoquistas que, considerando que a ditadura vigente em Portugal era demasiado suave, tudo faziam para aqui implantar uma bem mais feroz e sangrenta, como a da União Soviética, por eles considerada "o sol da terra" e por outros bem designada de "social fascismo". Já abandonou esse grupo, mas continua adepto da ditadura partidocrática - o partidismo - e expressa muito bem essa opção no seu artigo "Mais defeitos do que virtudes", no "Público" de 23-12-2008. São bem esfarrapadas as desculpas que apresenta para negar ao povo o direito de escolher livremente os seus governantes - a essência da democracia - e dar a meia dúzia de chefes de partido o poder ditatorial de serem eles os "patrões" dos deputados(2). Mostra, assim, total desprezo pela vontade dos eleitores, considerando, tal como Salazar, que o povo não sabe o que é bom para ele e, portanto, não se lhe pode deixar o direito de escolher livremente os seus dirigentes. Ou seja, que a palavra democracia é uma treta que serve para enganar os pobres de espírito, mas que não é para praticar. O que interessa é que os deputados obedeçam ao seu chefe de partido - como no tempo de Salazar - e nunca tenham de responder perante os cidadãos, como teriam numa democracia. Essa opção é evidente em todo o artigo, mas está bem condensada na seguinte frase, destacada pelo jornal:"O principal argumento contra o voto nominal resulta dos enormes riscos para a coesão e a disciplina partidária"Em liberdade, qualquer pessoa pode defender o sistema em que se considera que há algumas pessoas que sabem o que é bom para o povo - tal como Salazar, repito, e alguns do pós-25 de Abril - e que, portanto, são essas que devem governar. O que não podem é chamar a um tal sistema "democracia", porque não é. Sabemos que a democracia tem muitos defeitos, mas a verdade é que todos os outros sistemas ainda têm mais. Os portugueses têm disso amarga experiência, antes e depois do 25 de Abril.
(1) Mota, M. - Proposta de Alterações à Constituição da República Portuguesa, INUAF Studia, Ano 2, Nº 4, Pag. 135-147. 2002(2) ---------- - O patrão dos deputados. Linhas de Elvas de 24-7-2008

15 de Dezembro de 2008

A Ciência em Portugal

Publicado no “Linhas de Elvas” em 11-12-2007:

Não há muito tempo, quando entrevistado por um jornal, um cientista português teve esta frase: “Queria ser professor universitário, porque era a única maneira de fazer ciência em Portugal”. Esta frase revela bem um dos clamorosos erros da política de ciência em Portugal nas últimas décadas: a destruição de toda a investigação que seja feita em instituições fora das universidades. Os portugueses, com excepção das pessoas que trabalham em laboratórios do estado em diferentes ministérios, talvez não se tenham apercebido da fantástica destruição de boa ciência levada a cabo pelos governos das últimas décadas. Embora neste país muita gente não perceba o alto valor da ciência como cultura - como se mostra com os títulos de "Cultura e Ciência", considerando para a primeira a pintura, a literatura, o cinema e outras actividades, até a culinária - essa destruição não causou ao país apenas uma grande perda cultural mas também económica. Basta dar como exemplo o que tem sido feito aos dois primeiros desses grandes laboratórios, a Estação Agronómica Nacional, criada em 1936, e o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, nascido dez anos depois e dela decalcado, duas instituições que muito projectaram o nome de Portugal no mundo, além de lhe darem grandes valores económicos. Impondo-lhes limitações de toda a espécie e culminando com o actual governo a realizar verdadeiras destruições, conseguiram reduzir enormemente a sua anteriormente boa produção científica.Nem todos os ministros souberam ou quiseram resistir da mesma forma a essa destruição. Os que até muito a ajudaram foram os da Agricultura, todos eles incapazes de perceberem a verdade elementar de que sem o seu Ministério ter uma bem desenvolvida e de alto nível investigação agronómica nenhum país pode ter boa agricultura, daí resultando a situação vergonhosa que se encontra bem patente em qualquer supermercado, com a enormidade de produtos agrícolas importados que aqui devíamos produzir de melhor qualidade e mais baratos. O problema é tanto mais errado porque, para além do valor cultural da ciência produzida - bem evidente nas citações dos trabalhos portugueses nas revistas científicas e livros texto de divulgação internacional - a investigação agronómica é um dos mais rendosos investimentos que qualquer governo inteligente pode fazer. Com os escassos elementos existentes - porque não se tem querido efectuar os estudos que já propus(1) - há muito mostrei como a investigação agronómica rende juros verdadeiramente astronómicos(2) . Quando propus a constituição dum Gabinete de Estudos Económicos na Estação de Melhoramento de Plantas apenas dispunha dum caso bem quantificado: a solução duma "doença" das vinhas do Douro, a maromba, resultado da investigação feita na Estação Agronómica, então ainda em Sacavém e que dava à lavoura duriense um valor anual que, ao tempo, era duas vezes todo o orçamento da Estação Agronómica. E, note-se, a solução desse problema continuou a dar ao país um valor semelhante (actualizado) todos os anos. Citei, ao tempo, os evidentes aumentos de produção de cereais das variedades lançadas pela Estação de Melhoramento de Plantas, cujo valor estimado era sempre várias vezes o que toda a Estação gastava ao estado. Ainda não havia, nessa altura um caso que cito com frequência, porque toda a gente conhece, embora a maioria lhe desconheça a origem: essa excelente uva branca de mesa 'D. Maria', "fabricada" na Estação Agronómica, em Oeiras, pelo meu infelizmente já falecido colega Eng.º José Leão Ferreira de Almeida, que a baptizou com o nome de sua mãe. O que essa variedade dá a mais, ao país, em relação às variedades que suplantou é certamente mais do que o que o estado investe na Estação Agronómica. Quantos mais casos como o da uva 'D. Maria' deixaram de contribuir para o PIB de Portugal é algo que os portugueses devem "agradecer" aos vários ministros da Agricultura e também aos da Ciência, desde que estes passaram a interferir no sector. E a destruição parece continuar até ao total desaparecimento dessa valiosa investigação e, mais uma vez, lembro a vergonhosa legislação dos finais de 2007, um verdadeiro crime de lesa ciência e de lesa economia. A única explicação que se encontra é que alguns medíocres das universidades (também lá há bons e muito bons), não sendo capazes de suportar a concorrência de melhores cientistas, têm conseguido que governos que não se importam de manter o país em baixo nível e na cauda da Europa, procedam a tais acções.
(1) Mota, M - "Da conveniência dum Gabinete de Estudos Económicos na Estação de Melhoramento de Plantas", Linhas de Elvas de 25 de Agosto de 2000
(2) ---------- - Investigação Agronómica e Extensão Agrícola, as bases fundamentais do Desenvolvimento Rural, Vida Rural de Julho de 1999

5 de Dezembro de 2008

A confiança política

Publicado no “Linhas de Elvas” de 4-12-2008

Apesar dos portugueses terem repetidas provas da ditadura partidocrática a que estamos submetidos, continuam a chamar "democracia" ao regime vigente.Recentemente, o Bloco de Esquerda (BE) resolveu "retirar a confiança política" ao vereador Sá Fernandes da Câmara Municipal de Lisboa. Como, para as autarquias, já se abriu uma pequena janela democrática(1) e os resultados demonstraram como estão errados os que apregoam que não há democracia sem partidos e que sem o apoio dum partido não se consegue ser eleito(2), o que Sá Fernandes precisa é da confiança política dos eleitores do concelho de Lisboa e não da de qualquer partido. Refiro o caso do BE porque foi o que agora aconteceu. O mesmo pode suceder - e já tem sucedido - com qualquer outro partido.Infelizmente, nas eleições para a Assembleia da República, as mais importantes pois é ali que se fazem as leis aplicáveis a todo o país e dessas eleições resulta, também, o governo, continua a imperar a ditadura e os eleitores não têm possibilidade de eleger livremente quem desejam. Para a Assembleia da República não podemos eleger "independentes". São todos "dependentes", mesmo que digam o contrário, pois dependem do chefe do partido aceitar ou não incluí-lo nas famigeradas listas. Continuamos a ter legisladores e governantes impostos por meia dúzia de ditadores e com os resultados que estão à vista, num país a degradar-se cada vez mais e com a maior parte dos cidadãos a sofrer, só nos últimos três anos, o maior corte de sempre no seu nível de vida. Entre perda real de salários, aumento de impostos e taxas, redução de benefícios vários e extinção de serviços públicos, a perda do poder de compra foi certamente superior a 20%. Para os que já viviam com um ordenado apertado, as consequências foram trágicas(3, 4). Se o que as sondagens dizem se concretizar, o que há pela frente é a continuação da descida. Está na mão dos portugueses mudarem o cenário(5).

(1) Mota, M. - Autárquicas, Jornal de Sintra de 14-11-2008
(2) ----------- - Uma pequena janela democrática, Linhas de Elvas de 6-10-2005
(3) ---------- - Quem pagou a redução do défice, Linhas de Elvas de 17 de Abril de 2008
(4) ---------- - O endividamento, Linhas de Elvas de 9-10-2008
(5) ---------- - Greves, Manifs ou Votos?, Linhas de Elvas de 4-9-2008 e Notícias de Albufeira de 1 de Novembro de 2008

14 de Novembro de 2008

O patrão dos deputados

Publicado no "Diário de Notícias" de 13 de Novembro de 2008


Numa democracia, por definição, o "patrão" dum deputado é o povo, ou seja, o conjunto dos cidadãos do círculo que livremente o elegeram, sem terem um ou meia dúzia de ditadores a dizerem-lhes quem é que eles têm "licença" de escolher para nele delegarem o seu poder de legislar e governar. Por esse facto, Portugal não tem democracia mas, desde 1976, uma ditadura partidocrática, em que o patrão dos deputados é o partido que ditatorialmente consentiu que ele pudesse ser eleito. Anuncia-se uma alteração da antidemocrática e não referendada Constituição mas a ditadura vai continuar, como é confessado pelo politólogo André Freire (DN de 6-11-2008) quando diz que, com círculos uninominais "os partidos perdem o controlo sobre os seus eleitos". Pois é disso mesmo que Portugal necessita, isto é, que o patrão dum deputado deixe de ser o partido que, ditatorialmente, deu "licença" que ele pudesse ser eleito e passem a ser da exclusiva e livre vontade dos seus eleitores.As eleições devem ser todas como a que temos para o Presidente da República, as únicas democráticas em Portugal. Os candidatos são apresentados com o apoio dum certo número de eleitores, limitando-se os partidos a apoiarem o candidato que entenderem. Repito a frase com que terminei um artigo publicado no "Expresso" em 1979: "Partidos como congregações de cidadãos com o mesmo credo político, sim! Partidos como órgãos de poder paralelo, não! E partidos como órgãos de poder ditatorial, três vezes não!"

6 de Novembro de 2008

Socialismo ao contrário

Publicado no "Linhas de Elvas" de 6 de Novembro de 2008

O socialismo nasceu para combater os desequilíbrios económicos e sociais pois em vários países havia ricos (alguns muito ricos) e pobres (alguns muito pobres), os primeiros em pequeno número e os segundos uma verdadeira multidão. Um dos pontos principais do socialismo, pretendendo melhorar a distribuição da riqueza, era a apropriação, pelo estado, dos meios de produção e distribuição. Essa regra era norma no PS, em Portugal, quando esse partido era socialista e de esquerda e andava de braço dado com o PC nas ocupações e nacionalizações, pouco tempo depois do 25 de Abril. Mas esse socialismo e esquerdismo duraram pouco e já não existiam quando, há muitos anos, o então seu chefe Mário Soares declarou que tinha metido o socialismo na gaveta, onde continua aferrolhado a sete chaves. Nessa data, para ser coerente e estar de acordo com a sua declarada praxis, o partido devia ter mudado de nome. A deslocação para a direita continuou progressivamente, algo acentuada com Guterres e enormemente acelerada com Sócrates.Em tempos recentes chegou-se a extremos inacreditáveis, que podemos apelidar de socialismo ao contrário. O problema começou nos Estados Unidos, alastrou à Europa e chegou a Portugal. De repente - o que é estranho - Os Estados Unidos descobriram que uma série de empresas financeiras (responsáveis pelo dinheiro que os seus depositantes lá colocaram) estavam em tal situação aflitiva (apesar dos seus gestores continuarem a auferir valores inconcebíveis...) que o governo federal resolveu intervir com uma quantia fabulosa (dinheiro dos contribuintes...) para que o descalabro não atingisse uma grande parte da população. O quantitativo dessa intervenção, segundo veio nos jornais, era de quatro vezes o PIB de Portugal! Podia considerar-se um caso de socialismo ao contrário. Em vez de nacionalizar empresas rendosas, para que os lucros fossem para as mãos da maioria da população, nacionalizavam-se as que tinham grandes perdas, para a população pagar os prejuízos. Para dourar tão amarga pílula, foi declarado que isso era necessário para evitar graves prejuízos para a população em geral.Este caso sugere-me duas perguntas, que não vi, sequer, formuladas:- como é que o sistema legal não assegura que entidades detentoras de dinheiros de depositantes estejam obrigadas a regras que impeçam que este problema possa ocorrer?- como é que uma tal situação só é detectada quando atingiu tão grave nível e não o foi quando os quantitativos em falta eram, por exemplo, um décimo dos que agora foram detectados?Há quem esteja a considerar a hipótese de isto ser uma fraude monumental, para fazer passar para um pequeno grupo de pessoas muito dinheiro dos contribuintes.Os Estados Unidos, como se sabe, não são um país socialista e todos os seus governos defendem o sistema capitalista embora, como se vê, não tenham sido capazes de assegurar que um tão grave problema nunca pudesse ocorrer.E em Portugal, que se passa, com um governo que se diz socialista e de esquerda? (Quem tenha a noção do que é "socialismo" e "ser de esquerda" sabe que o governo não é uma coisa nem outra). Não comento. Os portugueses têm na frente (escrevo em 2-11-2008) o que está a acontecer.

31 de Outubro de 2008

Mechanisms of chromosome segregation

www.ibmc.up.pt/mmota























Simpósio de homenagem a Miguel Mota

18 de Setembro de 2008

Perda de poder de compra

Carta publicada no DN de 17/9/2008

O desgaste salarial sofrido pelos funcionários públicos durante os três anos e meio do governo Sócrates, indicado no DN de 15-9-2008 como sendo de 4,1%, é apenas uma pequena parte do total de perda de poder de compra. Se à perda de salário real juntarmos a subida de impostos e taxas, reduções grandes nos benefícios vários, as reformas a descerem em valor absoluto por passarem a descontar para a ADSE, a extinção de serviços públicos para obrigar a pagar a privados, etc. etc. somam uma perda de poder de compra superior a 20%. Será mais do mesmo que os portugueses querem?
Com os meus cumprimentos.
\Miguel Mota

4 de Setembro de 2008

Greves, Manifs ou Votos?

Publicado no "Linhas de Elvas" de 4 de Setembro de 2008

A grande maioria dos portugueses, que já eram do grupo dos de menor poder de compra entre os países da União Europeia, tem visto esse baixo poder de compra baixar ainda mais desde o ano 2000, tendo essa redução sofrido uma grande aceleração desde 2005, com o governo que ainda está no poder. Não deve ter sido inferior a 20% a perda de poder de compra nestes três anos e meio, a maior de sempre sofrida pela grande maioria dos portugueses. Apenas a minoria dos mais ricos viu os seus proventos aumentarem.
Como resultado, as famílias, que se endividaram para um determinado nível de vida, ao sofrerem essa brutal perda do poder de compra viram-se a braços com encargos que, se eram suportáveis com o nível anterior, deixaram, em muitos casos, de o ser, logo que os seus proventos desceram e os custos aumentaram. Aumentos de impostos (tão veementemente negados durante a campanha eleitoral!) e taxas várias; congelamentos de ordenados (ou aumentos inferiores à inflação), escalões e promoções; aumento do desemprego; reduções nos proventos, como nas pensões dos funcionários públicos, que passaram a descontar para a ADSE (com total desprezo pelos anteriormente sagrados "direitos adquiridos"); extinção de muitos serviços públicos, obrigando a custosas deslocações ou a pagar a privados (que em muitos casos logo abriram a sua "loja" nos locais dos serviços extintos); a destruição de importantes actividades de natureza económica, como a agricultura (com bons proventos para os importadores de produtos agrícolas que aqui devíamos produzir, de melhor qualidade e mais baratos), foram ocorrências constantes nestes três anos e meio. E tudo isto como resultado de acções dum governo que tem o descaramento de se dizer "socialista" e "de esquerda" e que não é uma coisa nem outra. Umas migalhinhas dadas a uns velhinhos não chegam para contrabalançar as várias acções de direita e de extrema direita que, se fossem feitas por quaisquer outros governos, levantariam imensos clamores em que o nome mais suave seria de "fascistas!"
A redução do défice, em vez de ser feita à custa de cobrar impostos aos que levam muito para casa e tão pouco pagam para a comunidade(1), e do desenvolvimento da economia nacional(2), com um crescimento do PIB inferior à média europeia, foi feita à custa dessa maioria que tem poucos proventos(3), daí resultando numerosas penhoras (aos pequenos, evidentemente) e incapacidade de satisfazer os empréstimos para a compra da casa, com os bancos a verem-se a braços com inúmeros imóveis.
Por toda a parte se ouvem queixas, mas baixinho, quase em surdina.
Quanto a protestos, são poucos e fracos. Com excepção de dois, que reuniram muita gente, mas cujos ecos em breve desapareceram, foram perfeitamente inócuos. Também houve algumas greves, de escasso ou nenhum efeito. Quando as greves são em organismos do estado, o governo é quem ganha. Reduz a despesa pública porque não paga ordenados aos grevistas e está-se completamente nas tintas - perdoe-se-me a expressão - para o funcionamento dos serviços, pois quanto mais os reduzir mais negócio dá aos privados seus amigos. (Acções de direita, obviamente).
Só vejo duas formas de corrigir uma tão má situação, em que cada vez mais nos atrasamos em relação à Europa. Uma é fazendo uma revolução, tão justificada como a de 28 de Maio e a de 25 de Abril, perante a situação do país. Para isso são necessárias espingardas e há sempre o risco de fazer sangue. Não é recomendável.
A outra, dentro do sistema vigente, é votar num partido que mereça confiança, por ter dirigentes competentes, que sejam capazes de desenvolver o país, não faltando às promessas, aumentando muito a produção (o que é possível) e dando uma distribuição mais equilibrada dos proventos e encargos (o que também não é impossível). Aos que me dizem que são todos o mesmo - na realidade, há uns piores que outros - eu recomendo que, então, façam um partido novo mas indo convidar as pessoas competentes e honestas - que ainda há em Portugal - capazes de fazerem muito melhor do que o que temos tido há várias décadas. Se me dizem que Portugal não tem pessoas capazes de fazer bem a tarefa que se exige e apenas há sujeitos bem falantes para continuar a afundar o país; ou se me dizem que essas pessoas existem mas a massa dos cidadãos "não está para a maçada de as convidar e apoiar", então têm de se resignar a ser um povo atrasado e explorado por esses bem falantes. É pena.

(1) Mota, M - Considerações sobre o défice orçamental e a forma de o anular. Jornal dos Reformados nº 318, Outubro/Novembro 2002
(2) Mota, M - O PIB de Portugal pode crescer a 5% ao ano. Jornal de Oeiras de 6-7-2004
(3) Mota, M - Quem pagou a redução do défice. Linhas de Elvas de 17-4-2008

31 de Agosto de 2008

Cinzas para adubo

Publicado no Notícias Magazine (NM, suplemento de domingo do "Diário de Notícias" e do "Jornal de Notícias) de 31 de Agosto de 2008

Às úteis indicações, especialmente em relação à fertilização do solo dos jardins (NM de 10-8-2008), pode adicionar-se mais uma: a utilização das cinzas de lenha, grandes fornecedoras de compostos de fósforo e potássio, dois dos elementos de que as plantas necessitam em grandes quantidades. Se os fogões a lenha, para cozinhar, já praticamente desapareceram, ainda se usam muitas lareiras pelo que a produção de cinzas deve ser grande, o que nos permite poupar umas boas toneladas de adubos fosfatados e potássicos.
Sobre a compostagem, mesmo sem o recipiente apropriado, é possível juntar os materiais e ir cravando algumas pequenas varas (resultantes da poda de árvores) para que a pilha fique numa forma aproximadamente cúbica

30 de Agosto de 2008

Células estaminais, o certo e o errado

Publicado no Expresso ("Única") de 19 de Julho de 2008

Felicito o "Expresso" por referir as células capazes de se diferenciarem nos tecidos que há que reparar ("Única" de 5-7-2008) sem lhes dar o nome errado (usado por muitos) de "células estaminais". Células estaminais são as células dos estames das flores (em inglês "staminal cells") e, no estado actual da ciência, não podemos obter com elas qualquer uso em humanos para curar tecidos danificados.
Tal como em inglês, "stem cells", podemos chamar-lhes "células tronco", pois são capazes de se ramificar nos tecidos a substituir. É o nome usado em Portugal por aqueles que consideram importante, pelo menos em ciência, não distorcer a terminologia e está generalizado no Brasil. A designação de células estaminais é possível que tenha sido uma tradução por parecença da designação inglesa, assim como chamam "nomeações" às candidaturas (em inglês "nominations"). É possível que quem faz essas traduções tenha um caderno de "apontamentos" onde escrevem os nomes dos "apontados" (do inglês "appointed") para qualquer cargo. E talvez passem a falar dos seus pais como os seus "parentes" e os tios e primos como os seus "relativos", incluindo os "oncles" e os "cusinos".

O patrão dos deputados (2)

Publicado no "Linhas de Elvas" de 24-7-2008

Como referi em anterior artigo(1), numa democracia, o sistema em que os cidadãos maiores de 18 anos são livres de elegerem quem desejam para os representar num parlamento, os deputados só respondem perante esses cidadãos e nunca recebem "ordens" de pessoas ou organizações estranhas. Na ditadura partidocrática a que estamos submetidos não é assim. Para começar, os eleitores só podem escolher, para elegerem os que, pretensamente em seu nome, vão legislar e governar, uma de meia dúzia de "listas" de nomes (por ordem fixa!) escolhidos ditatorialmente por outros tantos chefes de partidos. E o real "patrão" dos deputados é... o chefe do partido por que foram eleitos e que até pode estar fora do parlamento!
A recente eleição da Presidente do PSD veio, mais uma vez e de forma insofismável, demonstrar essa aberração antidemocrática. Além de passar a ser um potencial Primeiro Ministro, determinou uma mudança na Assembleia da República, indicando quem queria que fosse o líder do respectivo grupo parlamentar! E lá se fez um simulacro de eleição, para cumprir a ordem!
Não estão em causa o partido nem a pessoa, mas o aberrante sistema - igual para todos os partidos - criado por uma Constituição que não foi aprovada em plebiscito, o que, em tempos actuais é simplesmente inadmissível e lhe tira validade. Considero urgente alterar essa Constituição(2, 3) de forma a que os portugueses tenham em todas as eleições um sistema democrático, que actualmente só têm na eleição para o Presidente da República.
A propósito, é frequente ver na comunicação social que "o Senhor Presidente da República consultou os partidos" sobre este ou aquele assunto. Eu gostaria que, em tais casos, o Senhor Presidente da República consultasse os grupos parlamentares que, se forem eleitos democraticamente(2), podem coincidir ou não com os partidos. Para que não se julgue que sou contra a existência de partidos políticos, transcrevo a frase com que terminei um artigo publicado em 1979(4), tinha a revolução cinco anos: "Partidos como congregações de cidadãos com o mesmo credo político, sim! Partidos como órgãos de poder paralelo, não! E partidos como órgãos de poder ditatorial, três vezes não!"
Em democracia, é irrelevante, para o parlamento, o que se passa no interior dos partidos. Isso apenas sucede na partidocracia, uma ditadura partidocrática para a qual cunhei o nome de "partidismo", para estar de acordo com os outros "ismos". Termino repetindo a frase com que encerrei o anterior artigo(1):
O que é mistério para mim é como os portugueses, incluindo os mais ilustres politólogos, que justamente se queixavam de não poderem escolher livremente os seus legisladores e governantes, agora, apesar de serem constantes as provas de que também não podem, chamam a esta ditadura partidocrática... “democracia”!

(1) – Mota, M. – O patrão dos deputados. Linhas de Elvas de 15-11- 2007
(2) – Mota, M. – Proposta de Alterações à Constituição da República Portuguesa. INUAF Studia, Ano 2, Nº 4, Pag. 135-147. 2002
(3)– Mota, M. – A eleição do Primeiro Ministro. Jornal de Oeiras de 7-6-2005
(4) – Mota, M. – Partidofobia e Partidocratite. Expresso de 27-10-1979

A produção agrícola dos pequenos quintais

Publicado no "Jornal de Sintra" de 30 de Maio de 2008

Já algumas vezes tratei deste assunto mas julgo que vale a pena voltar a ele porque, na sua aparente insignificância, ele é, na realidade, importante.
O pequeno quintal, uma área agrícola de maior ou menor dimensão, geralmente junto à casa de habitação, desempenha um papel de múltiplas facetas. A jardinagem e a horticultura constituem uma actividade fí­sica de grande qualidade. Desenvolvendo-se ao ar livre, dá a quem a pratica a possibilidade de respirar um ar normalmente mais puro do que o que existe no interior das habitações. Sendo uma actividade fí­sica moderada, equivale à frequência de ginásios, tendo associada a ideia de que os seus resultados oferecem um produto valioso, do ponto de vista comestí­vel (frutos e hortaliças) ou da beleza das flores. É ainda uma actividade relaxante, óptima para praticar quando se atinge uma certa saturação em actividades sedentárias, como a escrita ou a leitura e, actualmente, o computador.
A todos estes aspectos, que chegariam para justificar a existência de quintais junto das habitações, soma-se o valor da produção agrí­cola, normalmente de hortaliças, frutos e flores. Muitos centos de milhares de quintais formam, no seu total, uma apreciável área agrí­cola cuja produção não aparece nas estatísticas, mas é real. O seu valor é o somatório de muitos aspectos úteis, para além dos que já foram enunciados.
A mão de obra não tem custo. É o divertimento dos seus proprietários.
Não há custos de transportes, pois os produtos vão directamente para os consumidores. E o consumidor sabe exactamente o que está a comer, sem a suspeita de que possa vir contaminado por pesticidas (a menos que ele próprio os tenha aplicado) ou outras manipulações. Os produtos não sofrem a deterioração que frequentemente acontece porque a colheita é geralmente feita imediatamente antes do consumo. Isto é particularmente importante para os frutos, colhidos apenas quando atingem a maturação. Os frutos comprados num supermercado foram muitas vezes colhidos bastante antes da sua maturação, para aguentarem transporte e armazenagem, o que, especialmente para algumas espécies, faz com que as suas qualidades de sabor e aroma não possam atingir toda a sua plenitude.
No caso das vivendas, a existência dum quintal, maior ou menor, é a norma. Em relação aos prédios com numerosos fogos, é mais rara a sua existência, embora haja exemplos duma área de quintal, dividida em parcelas, cada uma atribuí­da a um dos fogos. Tenho a impressão que esses casos são cada vez mais raros. Não sei se não seria interessante, em planos de urbanização, considerar a obrigatoriedade duma certa área de quintais nos prédios de habitações múltiplas. Essa obrigatoriedade teria a vantagem de tornar maior o espaçamento entre prédios, com grandes benefícios para o ambiente e evitando os "paliteiros" de elevada densidade que vemos em muitos locais.
Vi na Suécia - e sei que existem noutros países - umas áreas, na periferia das cidades, divididas em parcelas que são outros tantos quintais, alugados ou vendidos a pessoas que habitam em andares sem quintal e que ali se deslocam - muitas vezes de bicicleta - para cultivarem hortaliças, frutas e flores. Não seria de estimular, em Portugal, um tal exemplo?

A mentira dos "funcionários a mais"

Publicado no Jornal de Sintra de 25-4-2008

Os portugueses estão a ser constantemente bombardeados por frases bem sonantes a dizerem que Portugal tem "funcionários públicos a mais" e que o estado, para funcionar bem, tem de reduzir esse número. É uma mentira descarada, daqueles que, mesmo quando de declaram "socialistas" (que não são) e "de esquerda" (que ainda são menos) apenas pretendem que o estado funcione mal para dar bons negócios a amigos. (E, às vezes, aparecerem na chefia de empresas que beneficiaram enquanto governantes). Os dados do Eurostat são claros:


PESO DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS NA POPULAÇÃO ACTIVA

(Dados de 2004)

(Fonte EUROSTAT)

Suécia ................ 33,3%
Dinamarca ----------- 30,4%
Bélgica ---------------- 28,8%
Reino Unido --------- 27,4%
Finlândia ------------- 26,4%
Holanda -------------- 25,9%
França ---------------- 24,6%
Alemanha ------------ 24%
Hungria --------------- 22%
Eslováquia ------------ 21,4%
Áustria ---------------- 20,9%
Grécia ---------------- 20,6%
Irlanda ---------------- 20,6%
Polónia ---------------- 19,8%
Itália ------------------- 19,2%
República Checa --- 19,2%
PORTUGAL--------- 17,9%
Espanha -------------- 17,2%
Luxemburgo ---------- 16%

O que abunda são incompetentíssimos chefes, a variados ní­veis, como já tive ocasião de demonstrar(1), nomeados apenas por serem compadres e amigos nas várias formas conhecidas. Também não me surpreenderia - conheço alguns casos evidentes - se a "incompetência" for deliberada, quando se pretende destruir algo. Ainda a propósito de "funcionários a mais", já chamei a atenção para o caso da Suécia (que aparece em primeiro lugar na tabela acima), país onde não há pobres e onde o ní­vel de vida da população em geral é aquilo que se conhece(2).
Se os portugueses quiserem continuar a ser tão ingénuos e crédulos como têm sido, continuarem a chamar "democracia" a esta feroz ditadura partidocrática que não os deixa escolher livremente os seus legisladores e governantes (caracterí­stica fundamental duma democracia) e continuarem a consentir no comando quem tão mal os trata (ao mesmo tempo que beneficia lautamente alguns privilegiados), que extingue serviços para obrigar a pagar a privados, etc. etc. etc. é caso para dizer que têm o que merecem..

(1) Mota, M. - Estrutura e funcionamento. Jornal de Cascais de 20-2-2007
(2) Mota, M. - Portugal e a Suécia. Linhas de Elvas de 21-12-2006

Os funcionários a mais

Publicado no Linhas de Elvas de 23 de Dezembro de 2004
e na Sintra Regional Nº 10, Abril de 2005

Numa entrevista na televisão em Setembro de 2004 o ministro das Finanças Bagão Félix falou dos funcionários a mais no Estado e especialmente no Ministério da Agricultura.
Se o ministro das Finanças estiver a colaborar com aqueles que, a todo o custo, querem liquidar a agricultura portuguesa, com grandes benefícios para os importadores de produtos agrí­colas e enormes prejuízos para a economia nacional; e se não estiver interessado em que Portugal tenha uma florescente agricultura “que, aliás, lhe renderia bom dinheiro em impostos, tanto directamente como nas suas repercussões no comércio e na indústria, a montante e a jusante“ é exactamente esse caminho que deve tomar.
O Ministério da Agricultura não faz hoje muitas acções que devia fazer e faz até bastante menos dessas acções do que jé fez em tempos. Por essa razão, a nossa agricultura, que já era atrasada, ainda mais se atrasou em relação a todas as outras da UE. Já por lá passaram, depois do 25 de Abril, ministros dos quatro maiores partidos e todos eles contribuíram para a degradação da nossa agricultura, bem patente em qualquer supermercado. Todos têm destruí­do o pouco que havia dos dois serviços que são as únicas alavancas para melhorar a nossa agricultura: a investigação agronómica (que descobre as formas de agricultar melhor) e a extensão agrícola (que leva até aos agricultores os conhecimentos de que eles necessitam).
Mesmo com os escassos elementos disponí­veis, mais de uma vez demonstrei o fabuloso investimento que é o dinheiro gasto nesses serviços (e tanto melhor quanto mais bem geridos forem), tão alto que o próprio orçamento do Estado recolhe, em impostos sobre as melhorias obtidas, mais do que ali investiu. Infelizmente, os vários ministros das Finanças e da Agricultura têm dado sobejas provas de que não sabem isso. E também nãoo sabem os Primeiros Ministros, que bem caro pagaram nas urnas essa monumental machadada que têm dado na economia nacional. As mudanças da cor dos governos das últimas décadas têm sido causadas essencialmente pelo estado miserável da nossa economia e esta começa exactamente pela base. O que o Pais deixou de produzir, no sector dos produtos agrí­colas "quando tinha toda a obrigação de o fazer, melhor e mais barato“ custou-lhe carí­ssimo no que teve de importar. Apenas ganharam “ e muito bem!... “ os importadores desses produtos (batatas, cebolas, cenouras, rabanetes, alhos, alfaces, tomates, pimentos, feijão verde, melões, melancias, laranjas, limões, ameixas, pêssegos, nêsperas, maçãs, pêras, diospiros, uvas, morangos, etc. etc. etc. vindos, ás vezes de bem distantes terras) em detrimento da economia nacional. Os reflexos negativos no PIB, na inflação, no desemprego e nas balanças comercial e de pagamentos são enormes. E perdem também o comércio e a indústria, pelos já mencionados reflexos que neles tem, a montante e a jusante, uma agricultura desenvolvida.
A vários ministros da Agricultura sugeri já um Programa Intensivo de Investigação Agronómica e de Extensão Agrícola, a única forma de recuperar o tempo perdido e dar à economia portuguesa a contribuição que a agricultura pode e deve dar para uma bem mais evidente retoma. Nenhum, até agora, o quis pôr em execução. Se continuarem as erradíssimas politicas que têm sido seguidas neste sector, a economia portuguesa vai continuar no seu passo de caracol. Em vez de se afastar cada vez mais da média europeia (como sucedeu nestes últimos anos), podia crescer a ritmo acelerado, em valores que em poucos anos lhe dariam uma posição muito melhor. O bem estar médio do povo português seria bem diferente do que é hoje.

DNA - Um outro cinquentenário com grande importância para a Ciência e para a Agricultura

Publicado na Vida Rural Ano 51, Nº 1691, Julho de 2003:

Neste ano de 2003 celebra-se também o cinquentenário duma descoberta que foi de grande importância para a agricultura.
Em 1953, dois cientistas, James Watson (americano, a trabalhar na Grã-Bretanha) e Francis Crick (inglês) fizeram uma descoberta de enorme importância para a agricultura. Tão importante como a descoberta das Leis de Mendel (que são a base do conhecimento do mecanismo da hereditariedade) e como continuação destas, ela beneficiou enormemente a humanidade, principalmente nos campos da agricultura e da saúde. Vários píses, entre eles a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, estão a celebrar em grande estilo esse outro cinquentenário. Talvez interesse dar alguma contribuição sobre o que se passava, então, em Portugal.
Nesse ano de 1953 encontrava-me a trabalhar em Elvas, a chefiar o Laboratório de Citogenética da Estação de Melhoramento de Plantas. O assunto principal do meu trabalho de investigação eram os cromossomas, as maravilhosas estruturas que, em cada célula, são o repositório do Código Genético. Pela duplicação do número de cromossomas nalgumas espécies obtive poliplóides, entre elas os centeios que, pelos seus grãos maiores e mais alta produção julgo que continuam a ser cultivados nas Beiras e em Trás-os-Montes. Essa duplicação do número de cromossomas é também necessária para tornar férteis os híbridos entre trigo e centeio, a forma como obtivemos alguns novos triticales.
Como todas as pessoas que investigavam cromossomas, não podia deixar de me interessar pelos ácidos nucleicos e em particular pelo ácido desoxiribonucleico, o DNA.
(Embora considere importante a defesa da lí­ngua portuguesa, julgo mais útil, em relação às principais siglas, usar as que estão internacionalizadas, para evitar a confusão inevitável se cada lí­ngua usar a sua. Aos meus amigos que preferem ADN em vez de DNA eu pergunto sempre porque é que usam ATP em vez de TFA, quando falam do TriFosfato de Adenosina?)
Conhecia alguma coisa da quí­mica do DNA, pois há muito se sabia que era composto por nucleótidos, moléculas mais simples. Possuí­a o famoso livrinho de Davidson The biochemistry of the nucleic acids (que tinha comprado na Suécia quando ali trabalhei em 1950 e 1951) e tinha, por baixo do vidro da minha secretária, as fórmulas dos nucleótidos.
Quando vi a Nature e li o artigo de Watson e Crick tive a sensação da sua enorme importância, aliás, de certo modo, assinalada pelos autores. Mas não consegui compreender a estrutura da molécula pois os meus escassos conhecimentos de bioquímica (ciência praticamente inexistente em Portugal) não chegavam para a visualizar, a partir do ultra-esquemático desenho apresentado pelos autores.
Nesse ano fui trabalhar uns meses na Grã-Bretanha, como Bolseiro do British Council e aproveitei para visitar algumas instituições. Não fui ao Cavendish (o laboratório onde tinha sido feita a descoberta), mas no Kings College, em Londres, pude ver o modelo, construí­do de forma semelhante à que usaram Watson e Crick. Só então pude compreender bem a estrutura tridimensional da molécula do DNA.
Em 1962, quando me encontrava a trabalhar em Filadélfia, na Divisão de Biologia do Instituto de Investigação do Cancro, foi recebida a notícia da atribuição do Prémio Nobel. E recordo que o Dr. Tom Anderson (um pioneiro da microscopia electrónica, com quem eu trabalhava) comentou que tinha sido de toda a justiça atribuir o Prémio, além de James Watson e Francis Crick, também a Maurice Wilkins, pois sem os resultados dos seus estudos de difracção dos raios X não teria sido possível imaginar o modelo da molécula.
Nessa altura eu não sabia que as melhores fotos de difracção dos raios X tinham sido obtidas por Rosalind Franklin que, infelizmente, falecera em 1958, com 37 anos. Essa informação só a vim a encontrar mais tarde, no livro de Watson, The Double Helix, que me foi oferecido pelo meu amigo Luis Archer. Tinha lido, antes, várias notícias crí­ticas a esse livro (cujo nome inicial era para ser Honest Jim), algumas de pessoas a quem Watson tinha dado o manuscrito a ler e que até o tinham aconselhado a não o publicar, como a do genetista Gunther Stent que, no entanto, nessa crí­tica dava a mao à palmatória. E pude saber mais do importante papel de Rosalind Franklin, quando o meu filho me trouxe de Inglaterra o livro Rosalind Franklin & DNA, de Anne Sayre, amiga de Rosalind e que, além de muitos pormenores da vida e do trabalho dessa investigadora, corrige um ou outro ponto menos exacto do livro de Watson.
Com base no conhecimento da estrutura tridimensional da molécula do DNA e por uma brilhante série de trabalhos de investigação, por diferentes autores, conseguiu-se decifrar completamente o Código Genético, ficando-se a saber a que grupos de três bases correspondia cada um dos vinte aminoácidos.
Com o objectivo de fazer o ponto e dar aos colegas doutros sectores informação da situação da Genética, fiz na Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, em 14 de Março de 1964 um colóquio intitulado Função genética dos ácidos desoxiribonucleico (DNA) e ribonucleico (RNA). Estado actual do problema. Sensivelmente sobre a mesma matéria, fiz no Instituto de Genética Celestino Mutis, em Madrid, em 3 de Novembro de 1964 um colóquio intitulado A transmissão da informação genetica e em 14 de Abril de 1965, no Hospital do Ultramar, uma conferência sobre O problema da transferência da informação genética ao ní­vel da Biologia Molecular, repetida na Faculdade de Medicina do Porto em 26 de Abril de 1965.
Quando, em 1964, me solicitaram colaboração para o primeiro número do Universo, um jornal de divulgação cientí­fica, ali publiquei, em Junho desse ano, um artigo intitulado A base molecular da hereditariedade, onde descrevi os pormenores, desde o modelo de Watson e Crick até ao processo de decifrar o Código Genético.

Sobre os "Laboratórios Associados do Estado"

Publicado no “Linhas de Elvas” de 14 de Fevereiro de 2003:

Diz-se num jornal que o "Ministro quer rever figura de Laboratório Associado do Estado" e acrescenta que "A figura dos Laboratórios Associados do Estado foi criada pelo anterior ministro da Ciência e da Tecnologia, José Mariano Gago para colmatar algumas necessidades e responder a desafios que os Laboratórios de Estado não conseguiam responder".
Quando a Laboratórios do Estado, com grande curriculum científico e grandes contribuições para o progresso do País, se reduz o seu pessoal; se lhes cortam os meios de trabalho (chegando ao cúmulo dos cúmulos de suprimir a assinatura de quase todas as revistas científicas!); quando se nomeiam chefias de escassos curricula e capacidades ou que para ali vão para que a instituição não progrida, numa espantosa inversão de valores; quando os ministros e secretários de Estado que os tutelam (de várias cores políticas) ostensivamente fazem por "esquecer" que eles existem; quando se desviam verbas avultadas a eles em princípio destinadas, para fazer outros laboratórios a quem se dá tudo e mais alguma coisa e depois se entregam, em comodato, a outro ministério; quando avaliações externas, encomendadas pelos governos denunciam erros (aliás elementares!) e esses mesmo governos, em vez de os corrigirem, os agravam enormemente, será possível "responder a desafios", a que, aliás, antes deste "excelente tratamento" muito bem respondiam?
Tais actos de destruição custaram ao País fortunas fabulosas e as consequências são continuarmos a ser um país pobrezinho e na cauda da Europa.
A nossa agricultura - para falar do sector que melhor conheço - está no estado lastimável em que está como consequência das erradíssimas políticas seguidas para o sector, com particular ênfase no que à investigação agronómica diz respeito, em que a destruição do que havia - e era insuficiente! - atingiu foros inacreditáveis. E, se noutros sectores a investigação é importante, neste é sine qua non.
Acresce que, como várias vezes tenho demonstrado (1) os investimentos (e não "gastos") na investigação agronómica são tão rendosos que o próprio orçamento do Estado recolhe, nos impostos sobre os aumentos de produção resultantes, muito mais do que investiu.
É ingente a tarefa que enfrentam não só o ministro da Ciência mas também os outros ministros dos sectores em que a investigação é condição necessária à sua eficiência - à cabeça dos quais está a Agricultura - para rapidamente fazerem o País progredir, cultural e economicamente. Isso implica uma completa alteração do esquema seguido até agora e voltando a ter os Laboratórios do Estado a funcionar eficientemente. Qualquer ministro que declare que um laboratório de investigação sob o seu comando "não consegue responder aos desafios" e tem de dar a outros essa tarefa, não está à altura de ocupar a pasta e está a condenar o País a continuar na mediocridade. Talvez as pessoas não se apercebam de que foram precisamente as políticas erradas nestes sectores que mais contribuíram para a derrota do PSD ao fim de dez anos e do PS ao fim de seis anos e meio.
Oxalá não aconteça o mesmo ao actual governo e esperemos que o Dr. Durão Barroso não consinta que se continuem a cometer os mesmos erros que, além de o derrotarem nas urnas, mais afundariam a economia de Portugal.

(1) Mota, Miguel - "Investigação Agronómica e Extensão Agrícola, as bases fundamentais do Desenvolvimento Rural", Vida Rural, Ano 47, nº 1650, Julho de 1999

Exames

Publicado no "Notícias Magazine" (“Diário de Notícias” e "Jornal de Notícias") de 29-6-2008

São muito judiciosas as considerações sobre os exames (NM 15-6-2008) e de grande utilidade para os alunos que seguirem as sugestões oferecidas. Penso que vale a pena fazer uns milhares de separatas desse artigo, para distribuir pelas escolas do país, desde a primária ao superior.
Um exame escolar é um acto que tem como objectivo avaliar o nível de conhecimentos dum aluno. Tal como usar um termómetro para medir a temperatura duma pessoa. Para muitos alunos que durante o ano estudaram pouco, pode ser grande preocupação. Mas creio que se está a empolar exageradamente o stress daquilo que deve ser um acto normal na vida do estudante.
Li num outro jornal que muitos professores só preparam os alunos para fazerem exames, o que era considerado perverso. Se o exame está bem elaborado, não há nada de errado nisso porque, se o aluno está "preparado para o exame" é porque sabe a matéria exigível. Também, às vezes, se acusam os exames de apenas medirem a matéria memorizada, sem considerarem a capacidade de raciocínio, tão importante para a vida do cidadão. Se, na aquisição de conhecimentos, a memória é inevitavelmente necessária (e deve ser desenvolvida através de treino), a capacidade de raciocínio é importante e deve ser avaliada. Um exame bem feito, embora tenha perguntas que apenas exigem conhecimentos memorizados, deve ter outras em que isso não basta e exigem raciocínio para encontrar a solução.
Todos estes considerandos devem ser tomados em conta pelos professores encarregados de elaborar exames (e estes nunca devem conter erros) e pelos alunos que vão ser examinados. O artigo no NM ajuda os alunos a enfrentarem essas provas com serenidade, não contribuindo para dar a ideia de que são um papão, inevitavelmente causador de stress. Se um aluno fica em pânico quando tem de fazer um exame, como vai enfrentar os problemas de maior gravidade que lhe vão surgir pela vida fora?

Agricultura e combustíveis

Publicado no "Diário de Notícias" de 23-6-2008

Tem razão Ricardo Freixial (DN 14-6-2008) quando diz que "A agricultura pode reduzir o consumo de combustíveis". Ao que ali se refere podem acrescentar-se outros casos como a utilização de todos os óleos de fritar, que nos poupariam a importação dumas boas toneladas de petróleo. Mas um outro combustível que Portugal não tem sabido aproveitar (e que lhe evitaria importar mais outras boas toneladas de petróleo) é o biogás, ou gás do estrume, ou gás dos pântanos, constituído essencialmente por metano (CH4) e que pode ser utilizado para queima directa, para aquecimento, ou para accionar motores de explosão, fixos (como um gerador eléctrico) ou, engarrafado, para uso nos automóveis. Além de não prejudicar o estrume (antes pelo contrário), seria muito útil para o combate à poluição, por exemplo, nas zonas onde abundam as criações de porcos.

Agricultura urbana

Publicado no "Expresso" de 21-6-2008

Num tempo em que em Portugal se tenta, especialmente a nível governamental, denegrir e destruir a agricultura, fez muito bem o "Expresso" (13-6-2008) em lembrar as hortas de Lisboa. Duas semanas antes eu tinha publicado noutro jornal um artigo sobre "A produção agrícola dos pequenos quintais". Nesse escrito chamo a atenção para a importância dessa produção agrícola de alta qualidade e onde o produtor é o consumidor, proporcionando ao mesmo tempo um saudável exercício. Cito que nalgumas cidades, por exemplo, na Suécia, existem, na periferia, áreas divididas em talhões que são alugados ou vendidos a quem não dispõe de quintal e que ali pode, nas suas horas de lazer, dedicar-se a tão saudável e útil actividade. E também sugeri que seria de estimular algo que tem estado a desaparecer que é um prédio de apartamentos dispor de algum terreno para quintais atribuídos a todos ou alguns dos seus fogos. Isso ampliaria o espaço entre prédios altos, evitando os "paliteiros" que vemos em tantos casos e melhorando substancialmente o ar na cidade.*
MIGUEL MOTA, Oeiras

* O que está a negro foi cortado pelo jornal e substituído por (...)
Publicado no “Linhas de Elvas” em 19-6-2008

Uma das regras da democracia é a de se obedecer à "maioria". Após uma votação, ganha e vai exercer funções a pessoa mais votada, qualquer que seja a margem, grande ou pequena, por que ganhou. Está mesmo consagrado o slogan de que "em democracia, por um voto se ganha e por um voto se perde". Acabada a votação, todos acatam esse resultado.
Isto passa-se em democracia e é necessário para que o sistema funcione. Aqueles que apregoam democracia mas não a praticam - os que eu designo de "democratas para uso externo" - não funcionam assim. O primeiro sintoma dessa "doença" é vermos os que não ganharam, em vez de acatarem os resultados, encarniçarem-se para derrubar quem ganhou. Também temos visto alguns que, quando ganham, foi uma vitória da democracia; quando perdem, a democracia está em perigo. (Lembram-se das declarações do Dr. Mário Soares durante a campanha nas últimas eleições presidenciais?).
Um outro caso é ver e ouvir as declarações, normalmente de comentadores, que apregoam democracia mas não a praticam, declarar que quem ganhou o fez "com uma confortável maioria" (às vezes, até, quando a maioria nem é muito grande) ou que "ganhou com uma maioria fragilizada". Na realidade, quem ganhou, por muito ou por pouco, vai exercer funções na sua plenitude. Não conheço qualquer caso que diga que, "se ganhou por grande maioria, vai ter o poder x, mas se ganhou por maioria menor vai ter o poder x-y". A forma como o eleito vai exercer as suas funções depende da sua capacidade. Mas, se os que têm obrigação de cumprir as determinações legítimas do chefe, não as cumprem e ele não tem forma de os meter na ordem, não é um caso de política, mas de polícia. O sector encontra-se em perfeita anarquia. Não é democracia.

A "maioria confortável" e a "maioria" fragilizada"

Publicado no “Linhas de Elvas” em 19-6-2008

Uma das regras da democracia é a de se obedecer à "maioria". Após uma votação, ganha e vai exercer funções a pessoa mais votada, qualquer que seja a margem, grande ou pequena, por que ganhou. Está mesmo consagrado o slogan de que "em democracia, por um voto se ganha e por um voto se perde". Acabada a votação, todos acatam esse resultado.
Isto passa-se em democracia e é necessário para que o sistema funcione. Aqueles que apregoam democracia mas não a praticam - os que eu designo de "democratas para uso externo" - não funcionam assim. O primeiro sintoma dessa "doença" é vermos os que não ganharam, em vez de acatarem os resultados, encarniçarem-se para derrubar quem ganhou. Também temos visto alguns que, quando ganham, foi uma vitória da democracia; quando perdem, a democracia está em perigo. (Lembram-se das declarações do Dr. Mário Soares durante a campanha nas últimas eleições presidenciais?).
Um outro caso é ver e ouvir as declarações, normalmente de comentadores, que apregoam democracia mas não a praticam, declarar que quem ganhou o fez "com uma confortável maioria" (às vezes, até, quando a maioria nem é muito grande) ou que "ganhou com uma maioria fragilizada". Na realidade, quem ganhou, por muito ou por pouco, vai exercer funções na sua plenitude. Não conheço qualquer caso que diga que, "se ganhou por grande maioria, vai ter o poder x, mas se ganhou por maioria menor vai ter o poder x-y". A forma como o eleito vai exercer as suas funções depende da sua capacidade. Mas, se os que têm obrigação de cumprir as determinações legítimas do chefe, não as cumprem e ele não tem forma de os meter na ordem, não é um caso de política, mas de polícia. O sector encontra-se em perfeita anarquia. Não é democracia.

Rabanetes holandeses

Publicado no "Diário de Notícias" de 11 de Junho de 2008
(Título, da responsabilidade do jornal)

"Não temos de ser auto-suficientes em agricultura e pescas" disse o Ministro da Agricultura ao DN (8-6-2008) e tem razão, "não temos de ser". Mas, não o sendo, estamos a mostrar uma enorme incapacidade, especialmente a alto nível.
Não sou perito em pescas, mas sei que temos uma Zona Económica Exclusiva muito grande, bem maior do que a da Espanha e... compramos peixe aos espanhóis!
Temos, para a agricultura, algumas limitações que outros não têm mas temos variadas outras vantagens bem melhores que outros. Ao longo de algumas dezenas de anos tenho dito e escrito o que é necessário fazer para desenvolver a nossa pobre agricultura e tornar o país, não só auto-suficiente em muitos produtos como para exportar muito mais do que o que exportamos actualmente. Os governos - e muito intensamente o que temos - não só não têm feito o que seria conveniente, como têm, nas últimas décadas, procedido a uma verdadeira destruição do que é necessário para essa melhoria, a começar pela destruição da investigação agronómica, causando ao país prejuízos fabulosos. A legislação dos finais de 2007, no seguimento de várias outras, mostra bem essa intenção destruidora. O resultado está patente em qualquer supermercado, com a enormidade de produtos importados que a nossa agricultura devia produzir, muitas vezes de melhor qualidade e mais baratos. O cúmulo dos cúmulos é encontrar nesses supermercados rabanetes vindos da Holanda e alhos vindos da China.

Melhorar os professores

Publicado no "Jornal de Sintra" de 23 de Maio de 2008

Avaliar os professores, como outros funcionários - qualquer que seja a função que exercem - é algo natural e conveniente. Julgo que essa era, antigamente, uma das funções dos inspectores do Ministério da Educação, que iam às escolas, assistiam a aulas e diziam de sua justiça. Os inspectores eram antigos professores que ascendiam a esse posto depois de vasta e demonstrada experiência de bom ensino.
São vários os factores que contribuem para o sucesso - ou insucesso - escolar mas creio que, de longe, o mais importante é a qualidade do ensino ministrado pelo professor. Da minha já remota mas ainda viva memória de aluno do liceu ficou bem marcada a diferença de aproveitamento, conseguindo-se os melhores resultados quando a disciplina era dada por um bom professor, não só muito sabedor da matéria mas sendo capaz de a expor de forma clara, compreensível e, por vezes, apaixonante. A matemática tem sido a disciplina mais tratada ultimamente e há boas razões para isso. Se todas as matérias exigem alguma memorização - e treinar a memória é algo também importante - talvez nenhuma exija tanto do raciocínio como a matemática. Por essa razão é também muito importante treinar o raciocínio. Mas um outro factor importante é o encadeado ou continuidade dos diferentes passos da matemática. Se, em determinado ponto, a matéria não ficou sabida ou ficou algo nebulosa, todos os passos seguintes ficam prejudicados e a aprendizagem sofre grandemente. Num exemplo simples, pode dizer-se que não é possível ensinar contas de multiplicar a quem não aprendeu as contas de somar. (Sem máquina de calcular, evidentemente...). Por estas razões, creio que se deve insistir principalmente em melhorar os professores. Sei que algo está a ser feito nesse sentido mas afigura-se-me que muito menos do que seria desejável e que julgo possível.
A avaliação poderá levar a alguma melhoria dos professores, por aumento do esforço próprio. No entanto, a grande melhoria no desempenho dos professores consegue-se através de cursos de actualização(1). Esses cursos, bastante curtos, deverão ter sessões de dois tipos. Um visará a actualização e sistematização dos conhecimentos no sector em que ensinam. Pode ser feita em sessões em grandes auditórios, para muitas pessoas, em lições teóricas proferidas por bons especialistas da matéria. O outro tipo de sessões deve apenas ter um número reduzido de participantes, para trabalhos práticos, quando necessário em laboratórios, e para debate sobre metodologias pedagógicas, com trocas de experiências pessoais e incluindo a disciplina na aula.
Para estes dois tipos de sessões podem dar boa colaboração as sociedades científicas dos sectores envolvidos. A Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais organizou, em tempos, uma série desses cursos que, mesmo sem qualquer remuneração ou créditos, encontrou grande apetência da parte dos professores do liceu e sempre cientistas disponíveis para proferir as lições. Alguns foram organizados no período em que exerci o cargo de Vice-Presidente dessa Sociedade e dei também aulas sobre a divisão celular, outros aspectos da citogenética, conservação dos recursos genéticos, microscopia electrónica, etc. Compreende-se o interesse dos professores porque o que aprendiam nesses cursos muito os ajudava, não só na mais fácil preparação das aulas, como na forma como ensinavam, o que dá sempre grande satisfação.
Quando fui eleito Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética, logo a Direcção incluiu no seu programa de actividades a realização de tais cursos. Pensando que, com a colaboração do Ministério da Educação, o trabalho poderia ser mais frutuoso, pedi uma audiência ao Ministro. Algum tempo depois o gabinete informou-me que eu seria recebido pela Secretária de Estado e a senhora que me apareceu - e que eu pensei que era a Secretária de Estado - era, afinal, uma assessora, a quem expus o assunto. Achou que tinha todo o interesse e que eu seria posteriormente contactado... o que nunca sucedeu! A Sociedade Portuguesa de Genética ainda conseguiu realizar alguns desses cursos mas em muito menor número do que se tivesse havido uma boa colaboração da parte do Ministério. Julgo que, a nível nacional e em todas as matérias, o que se faz nesse campo é muito escasso. É pena, pois estou perfeitamente convencido de que, realizando todos os anos muitos desses cursos, em todos os sectores do ensino, envolvendo milhares de professores, se conseguiriam progressos espectaculares na melhoria do ensino.

(1) Mota, M. - O problema da matemática. Uma sugestão. Público de 6-9-2002

DEMOCRACIA

Publicado na VISÃO nº 792, de 8 de Maio de 2008

Quando Ricardo Araújo Pereira (V791) diz que "É todo o nosso conceito de democracia que está em causa" mostra que tem, como a maioria dos portugueses, um conceito muito bizarro de "democracia". Não só não pode candidatar-se a deputado, se o desejar, como não pode escolher livremente as pessoas em quem delega, pelo voto, o seu poder para legislarem e governarem, duas condições necessárias para haver democracia. Só tem "licença" de escolher para, em seu nome, legislarem e governarem, uma de meia dúzia de "listas" feitas ditatorialmente por outros tantos senhores. Em Portugal, embora muitos lhe chamem, erradamente, democracia, vigora uma ditadura partidocrática, para a qual cunhei a palavra "partidismo", para estar de acordo com os outros "ismos".

Miguel Mota, Oeiras

Défice democrático

Publicado no “Linhas de Elvas” em 8-5-2008

Na Madeira há défice democrático. Exactamente o mesmo défice democrático que existe no Continente e nos Açores e que é consequência dos cidadãos não se poderem candidatar livremente a deputados nem votar (delegar o poder) em quem desejam que os represente na Assembleia da República. Numa democracia, em que, por definição, o poder reside nos cidadãos, não pode haver uma ou meia dúzia de pessoas a dizerem a esses cidadãos em quem é que eles têm "licença" de votar para, presumivelmente em seu nome, irem legislar e governar. Quando isso sucede estamos em ditadura.
Na anterior ditadura os cidadãos ainda podiam candidatar-se a deputados mas as manipulações dos resultados levavam a ser eleita uma determinada lista. Na actual ditadura o cidadão nem pode candidatar-se (algo essencial em democracia) e está limitados a escolher uma de meia dúzia de listas feitas ditatorialmente e com ordem fixa. Mesmo que nenhum daqueles nomes seja do seu agrado, não tem alternativa. A única eleição democrática em Portugal é para o Presidente da República. Os cidadãos podem candidatar-se livremente e a acção dos partidos limita-se a apoiarem quem entenderem, o que está correcto. A exigência dum certo número de eleitores apoiantes da candidatura justifica-se para evitar um elevadíssimo número de candidatos em quem quase ninguém votaria. E considero o número de apoiantes - entre 0,1% e 0,2% dos eleitores - também correcto. Para as autarquias, porque se abriu uma pequena janela democrática(1), passou a ser possível "também" (devia ser "exclusivamente") a apresentação de independentes, com os resultados que se viram(2, 3, 4). Para transformar o sistema ditatorial a que estamos sujeitos já propus o que julgo necessário fazer(5, 6).
*
Já em tempos lembrei que a melhor campanha eleitoral(7) é o que qualquer governante fez nos cargos que já desempenhou. O Dr. Alberto João Jardim tem uma forma peculiar de se apresentar e de falar de que muita gente não gosta. E os que o acusam de tratar mal a comunicação social esquecem-se de que não há político mais atacado, insultado e vilipendiado na comunicação social do que ele. Nos trinta anos que leva na governação da Madeira operou naquela Região Autónoma um notável desenvolvimento, bem evidente a quem lá vai com frequência e que a grande maioria dos madeirenses reconhece. Um desenvolvimento que o Continente gostaria de ter em vez do que tem sucedido na última década, em que se tem afastado até em relação à média europeia, quando tem condições, com um governo competente, para se colocar junto dos da frente. E do que sucedeu nos últimos três anos, em que a grande maioria dos portugueses, que não são a minoria de privilegiados, sofreu a maior perda de sempre no seu poder de compra que, tudo considerado, não deve ter sido inferior a 20%. Com um governo que se diz socialista e de esquerda (não é uma coisa nem outra) a minoria de ricos está cada vez mais rica e a maioria de remediados e pobres está cada vez mais pobre.
Não consta que, quando têm de votar, os eleitores madeirenses tenham atrás de si alguém com uma pistola a impor-lhes que votem em determinada pessoa. É o reconhecimento da mudança que se operou na Madeira sob a sua administração que leva os madeirenses a elegerem sucessivamente o Dr. Jardim. Não me admiraria se os ataques de que é constantemente alvo sejam a aplicação da técnica de descredibilizar o líder contrário(8), sempre que alguém se torna "perigoso" para os seus oponentes.

(1) Mota, M. - Uma pequena janela democrática. Linhas de Elvas de 6-10-2005
(2) ----------- - A derrota do partidismo. Jornal de Oeiras de 1-11-2005
(3) ----------- - A segunda derrota do partidismo. Jornal de Oeiras de 31-1-2006
(4) ----------- - A terceira derrota do partidismo. Linhas de Elvas de 19-7-2007
(5) ----------- - Proposta de Alterações à Constituição da República Portuguesa. INUAF STUDIA Ano 2, Nº 4. Pág. 135-147. 2002
(6) ----------- - A eleição do Primeiro Ministro. Jornal de Oeiras de 7-6-2005
(7) ----------- - A melhor campanha eleitoral. Correio da Manhã de 17-4-1992
(8) ----------- - Descredibilizar o líder contrário. Linhas de Elvas de 22-9-2005

O ridículo nome de "agricultura biológica"

Publicado no "Jornal de Sintra" de 25 de Abril de 2008

Não vou discutir a metodologia do que chamam "agricultura biológica". Aliás, uma parte desses princípios ensinei-os, durante anos, aos alunos dos cursos de engenharia agronómica, pois constituem normas gerais a aplicar em qualquer agricultura. Não discuto, mesmo, alguns aspectos de exageros, apenas lembrando que, se a investigação agronómica não tivesse tido o desenvolvimento que teve, grande parte da população do mundo já teria morrido de fome. As carências e a fome que existem em vários pontos do globo são apenas o resultado da acção de maus políticos(1). Quero apenas chamar a atenção para o ridículo nome de "agricultura biológica" que sugere que quem o usa dá a ideia de que não sabe o que é agricultura nem biologia.
Na realidade, enquanto as fábricas não fizerem couves sintéticas e bifes sintéticos, TODA a agricultura é biológica. Os produtos da agricultura, sejam vegetais ou animais, são sempre seres biológicos. Se a aplicação de alguns compostos de síntese faz com que uma planta ou um animal deixem de ser biológicos, qualquer pessoa que tenha tomado uma aspirina deixa de ser "biológica"!
Na Europa a designação de agricultura biológica é usada por alguns países (entre os quais Portugal) que não devem ter reparado no ridículo dessa designação. Alguns outros, como a Inglaterra, usam o nome, também errado, de "agricultura orgânica". É óbvio que uma couve, cultivada num solo que foi fertilizado com sulfato de amónio, não passou a ser mineral. Continua a ser orgânica.
Um nome mais aceitável será "agricultura ecológica", usado nalguns países europeus, já que esse tipo de agricultura se aproxima mais das condições ecológicas da natureza. Muitas vezes lembrei aos meus alunos que fazer agricultura é orientar a ecologia - algo que está em constante mutação - no sentido que mais interessa ao homem.
Seria bom que Portugal corrigisse esse erro generalizado, para não dar a ideia de que os portugueses não sabem o que é um ser biológico.

(1) Mota, M. - Produtividade e Genética. Aspectos da luta contra a fome. Brotéria Genética XVII (XCII) 15-31.1996

Células tronco (Carta)

Carta enviada ao "Correio da Manhã" em 14-4-2008. Não foi publicada

Seria conveniente que os portugueses não distorcessem a terminologia chamando "células estaminais" (que são as células dos estames das flores - em inglês "staminal cells" - e não são capazes de curar humanos) em vez do mais correcto nome de "células tronco" (em inglês "stem cells") às que são capazes de se diferenciar como as células dos tecidos em que são colocadas.

Com os melhores cumprimentos.
Miguel Mota

Os "democratas" - II

Publicado no "Linhas de Elvas" de 3-4-2008

Desde o 25 de Abril que uma das palavras mais usadas e apregoadas, não só pelo homem da rua mas também pelos nossos ilustres politólogos, em relação ao sistema político que nos rege, é "democracia". No primeiro artigo desta série dei um exemplo de como os que a apregoam andam bem longe do que ela representa e que eles reclamavam antes do 25 de Abril.
São bem frequentes os exemplos desse desequilíbrio. Recentemente deparei com mais um, bem evidente. O "Jornal de Sintra" de 7-3-2008 publicou uma entrevista com a deputada Ana Gomes. À pergunta se, no caso de ganhar as eleições para líder do PS em Sintra, seria candidata à Câmara Municipal, respondeu: "Não me movo por quaisquer pretensões a ser candidata do PS à Câmara de Sintra - isso será decidido nos órgãos competentes do PS, a seu tempo".
Isto é, algo que, em democracia, é da exclusiva responsabilidade dos cidadãos de Sintra (e o sistema é o mesmo para todos os concelhos), deixa de o ser e os candidatos a Presidente da Câmara Municipal são decididos por alguém que, na maioria dos casos, nem é eleitor no concelho! O sistema é tão ditatorial que já em tempos chamei a atenção para algo que veio a público e que mostrou que, nem dentro do partido se respeita a vontade das bases. Há anos, as bases do PS de Coimbra decidiram que não queriam, para candidato a deputado, o Dr. Manuel Alegre, cronicamente eleito por esse círculo. Não serviu de nada esse desejo, pois o secretário-geral do PS, creio que o Dr. Jorge Sampaio, logo veio dizer que quem decidia era ele, ele indicou o Dr. Manuel Alegre (em "lugar elegível") e... foi eleito.
É claro que as pessoas estão no direito de preferirem um tal sistema. O que não podem é chamar-lhe democracia, pois nesta o poder é dos cidadãos e não dum ou meia dúzia de senhores. Podem chamar-lhe partidocracia, ditadura partidocrática ou partidismo, a palavra que cunhei para estar de acordo com os outros "ismos".
Para a Assembleia da República (as mais importantes eleições) o sistema ditatorial continua em pleno. Para as autarquias, por se abriu uma pequena janela democrática(1), já é possível aos eleitores exercerem os seus direitos e candidatarem-se ou apoiarem os chamados "independentes". (Os outros são, realmente, "dependentes"). Os resultados(2, 3, 4), nos casos onde tal se verificou foram retumbantes e até mostraram como estão erradas as declarações de que "não há democracia sem partidos" ou de que "os candidatos que não sejam apoiados por um partido não têm possibilidades de ganhar".
A única eleição democrática em Portugal é a que elege o Presidente da República. Para termos democracia em Portugal seria necessário que o mesmo modelo fosse usado para todas as eleições e particularmente para a Assembleia da República, o que é simples, como já propus(5). Parece que os portugueses não estão interessados e vivem satisfeitos (ou insatisfeitos...) com esta ditadura.

(1) Mota, Miguel - Uma pequena janela democrática, Linhas de Elvas de 6-10-2005
(2) ------------- A derrota do partidismo, Jornal de Oeiras de 1-11-2005
(3) ------------- A segunda derrota do partidismo, Jornal de Oeiras de 31-1-2006
(4) ------------- As duas derrotas do partidismo, Linhas de Elvas de 9-2-2006
(5) ------------- Proposta de Alterações à Constituição da República Portuguesa, INUAF Studia, Ano 2, Nº 4, Pag. 135-147. 2002

Os "democratas" - 1

Publicado no "Linhas de Elvas" de 27-3-2008

O regime derrubado em 25 de Abril não era democrático. Embora os cidadãos pudessem candidatar-se a deputados (as eleições mais importantes, pois elegem os legisladores e, indirectamente, o governo) havia manipulação dos resultados e acabavam por ser eleitos os que o ditador desejava.
Por uma eleição não democrática (as pessoas não podiam candidatar-se e só podiam votar numa de algumas listas feitas ditatorialmente pelos chefes dos partidos) foi em 1975 eleita uma Assembleia Constituinte. Ao fim de todo um longo ano e de vicissitudes várias - como o Pacto MFA-Partidos e outras - foi elaborada uma Constituição nada democrática. Por ela os cidadãos não podem candidatar-se a deputados e ficam limitados a escolher uma de meia dúzia de "listas" (inalteráveis), elaboradas ditatorialmente pelos chefes dos partidos. Essa Constituição foi posta em vigor sem ser sujeita a referendo, algo inadmissível em tempos modernos, porque os que a elaboraram bem sabiam que os portugueses a rejeitariam. Mesmo após várias alterações que lhe limaram algumas das arestas, continua antidemocrática pois não permite que qualquer cidadão se candidate a deputado ou possa votar nas pessoas em quem deseja delegar um poder que, em democracia, inteiramente lhe pertence. Depois de tais limitações, não há inconveniente em dar liberdade para meter o papelinho na urna, dando a aparência de eleições livres. Na realidade, a Constituição define uma ditadura partidocrática, onde a única eleição democrática é para o Presidente da República. Qualquer cidadão se pode candidatar, tendo apenas a obrigação de apresentar um certo número de apoiantes, para evitar numerosos candidatos em quem quase ninguém votaria. Os partidos limitam-se a apoiar quem entenderem, o que está correcto. Como já escrevi (em 1979) "Partidos como congregações de cidadãos com o mesmo credo político, sim! Partidos como órgãos de poder paralelo, não! E partidos como órgãos de poder ditatorial, três vezes não!"

***
O Dr. Daniel Sampaio ("Pública" de 9-3-2008) escreve uma intensa diatribe contra Salazar, furioso porque algumas pessoas decidem exprimir-se livremente (algo de que ele se queixava não existir no regime anterior) e escrevem ou dizem o que entendem. E tem, no seu escrito, alguns pontos interessantes. Fala dos seus amigos "antifascistas", todos uns excelentes comunistas, uns sujeitos que temos de considerar masoquistas porque, achando que a ditadura a que estavam submetidos era algo suave, pretendiam aqui instalar uma bem mais dura e sangrenta, comandada pela União Soviética, o tal "sol da terra".
É claro que nem pensa em comparar o regime de Salazar com o que vigorou de 1910 a 1926, que levou o país a um total descalabro. Nem pensa no que foi a ditadura comunista do PREC, da responsabilidade do 25 de Abril. Nem a vergonhosa entrega do ultramar português, sem qualquer consulta às populações, aos grupos comandados e financiados pelo exterior, ali criando cinco ditaduras bem piores do que a que existia no período anterior. Tudo isto faltando às veementes promessas do Programa do MFA de que nada seria feito sem consulta das populações, ao bom estilo comunista (e não só...). Refere a morte de alguns cidadãos antifascistas pela polícia política, mas ignora o que foi o COPCON e as mais numerosas mortes causadas pelas famigeradas FP 25 de Abril.
É este o tipo de "democratas" que pontificam em Portugal e que constantemente apregoam que vivemos em "democracia".

O atraso da democracia

Publicado no “Diário de Notícias” de 8-12-2007, na secção das cartas destacadas (em fundo amarelo) com o título geral de “África na agenda politica europeia”


O quadro sobre os países africanos (“O atraso da democracia”, DN de 6-12-2007) é muito completo e informativo. Se pensarmos no que foi a história da África durante o Século XX, não é surpreendente que a democracia autêntica seja um caso raro.
O que surpreende é que haja na Europa pelo menos um país, Portugal, em que meia dúzia de ditadores têm o direito de dizerem aos cidadãos quem é que eles têm “licença” de escolher para, presumivelmente, os representarem no órgão máximo legislador e donde emana o governo, a Assembleia da República. E mais surpreendente ainda é que aqueles que, legitimamente, se queixavam de não poderem escolher livremente os seus deputados, acham que agora têm eleições “livres” e consideram o regime uma “democracia”.

Doze anos de escola

Publicado no “Linhas de Elvas” em 27-9-2007

Já em tempos escrevi sobre o assunto(1) mas como voltou a ser indicado para futuro próximo que a escolaridade obrigatória passará a ser de doze anos, justifica-se que volte a esse tema. Do escrito citado transcrevo: “A solução que já propus ("Ingenium" de Fevereiro de 2002) é incluir nas actuais escolas de ensino básico e secundário, a partir do 5º ano, o ensino de muitos ofícios de forma que, ao completar o actual 9º ano, ou o 12º ano, em vez de sair com alguma preparação académica mas "sem saber fazer nada", ele possa entrar no mercado de trabalho com preparação para exercer um ofício.”
Um governo que não é capaz de ter a funcionar decentemente nove anos de escola obrigatória, havendo alunos que chegam à universidade sem saber escrever correctamente português e dão mais erros do que era antigamente permitido no exame de instrução primária, que tem os elevados índices de insucesso e de abandono escolar que se conhecem, o que é que pretende se tornar doze anos obrigatórios? Ampliar o mau panorama actual? Fazer crer ao mundo que, porque na lei os doze anos são “obrigatórios”, o nível do país subiu muito?
Para muitas profissões, nove anos de escola chegam para um desempenho eficiente. E o país precisa mais de pessoal a esse nível do que de licenciados (leia-se “bacharéis”) de pouca qualidade e em sectores em que não conseguem emprego. Aquilo que há muito preconizo mas que, mesmo com algum incremento recente, ainda é uma fracção muito pequena do que o país necessita é o que acima transcrevi, incluir nas actuais escolas de ensino básico e secundário, a partir do 5º ano, o ensino de muitos ofícios. Na minha opinião deveria haver, como norma institucionalizada em todas as escolas, a partir do 5º ano, vários cursos profissionais, válidos como escolaridade obrigatória, em paralelo com a linha académica, como em vários escritos já propus. Os bons profissionais com esses cursos ou com os que quiserem ir até ao 12º ano na linha profissional, podem muita vezes ser bem melhor remunerados do que os tais licenciados (leia-se “bacharéis”) de fraca qualidade. Como indiquei, nenhum desses es
quemas impediria quem o desejasse, de prosseguir estudos, fazendo em mais um ano extra as disciplinas que tiveram de suprimir para dar lugar à aprendizagem específica da profissão.
É isto que se me afigura muito mais importante para o país e para os estudantes do que impor doze anos de escola onde muitos (os que não abandonarem...) irão estar a contragosto.

(1) Mota, M. - 12 anos de escola? Jornal de Oeiras de 24-5-2005

Inversão de valores

Publicado no “Linhas de Elvas” de 30-8-2007


O ex-Director-Geral dos Impostos declarou ao “Expresso” (em 4-8-2007) que o Presidente da República e o Primeiro Ministro ganham pouco e deviam ter ordenados maiores. Estamos de acordo. Mas falta dizer que também ganham pouco os engenheiros, os médicos, os professores, os funcionários administrativos e todos os outros.
Quando ele foi contratado com um ordenado quatro vezes superior ao do Primeiro Ministro, ouvimos declarar que se justificava porque, para ter bom trabalho era necessário pagar um salário alto. Deve estar certo mas, nessa ordem de ideias, a partir dessa data, todos os Directores-Gerais – e, por extensão, todos os outros funcionários - a quem só pagam um ordenado que ele considera baixo, ficaram autorizados a trabalhar mal.
Também disse, comparando ordenados, que alguns bancários, mesmo não sendo do topo, já ganham mais que o Primeiro Ministro. Nessa ordem de ideias, comparando salários, ficamos com pena desses pobres bancários pois os salários deles, comparados com os dos jogadores de futebol (mesmo sem serem os do topo) têm de ser considerados de miséria.
Também referiu o caso de funcionários que, pelo que fazem, não merecem o ordenado (mesmo baixo) que recebem. Também estamos de acordo. Mas falta dizer quem nomeou esses funcionários incapazes e quem são os seus chefes, que não os sabem meter na ordem ou propor a sua demissão, com justa causa.
A inversão de valores é mesmo um facto!

21 de Abril de 2008

Células tronco

Publicado no "Diário de Notícias" de 20 de Abril de 2008


Felicito o "Diário de Notícias" por usar a correcta terminologia de "células tronco" (em inglês "stem cells") para as células que são capazes de se diferenciar como as dos tecidos em que são colocadas ("Terapia celular", DN de 9-4-2008). Infelizmente, muitas pessoas chamam a essas células, impropriamente, "células estaminais", o nome que já existe, em português, para as células dos estames das flores, em inglês "staminal cells".

Miguel Mota
Ex-Presidente e actual Presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Genética

14 de Abril de 2008

Um aforro modesto

Publicado no "Diário de Notícias" de 1-4-2008

Já tinha visto, em declarações na comunicação social, agora repetidas pelo Ministro das Finanças (DN de 30-3-2008), que "os juros dos Certificados de Aforro são pagos com o dinheiro dos contribuintes". Não é verdade.
Os juros dos Certificados de Aforro são para ser pagos com uma parcela dos mais avultados juros que o governo tem obrigação de obter (a menos que lhe falte competência) do uso que faz (em investimentos que até podem ser em serviços do estado que, por vezes indirectamente, lhe rendem juros fabulosos, como já demonstrei) do dinheiro que lá tem e é pertença dos aforradores. Os Certificados de Aforro são uma forma de investimento dirigida aos pequenos aforradores que sabem pouco de finanças, e por isso têm limites de valores máximos. Não dando os juros altos de outros investimentos, deviam ter bem melhor remuneração que a miséria actual. Considerando, naturalmente, um governo financeiramente competente e que não diga que os juros são pagos com o dinheiro dos contribuintes... *

Miguel Mota

Oeiras

* Cortado pelo jornal

POBRE AGRICULTURA

Publicado no "Diário de Notícias" de 28 de Março de 2008

As notícias sobre as plantações de olival no Alentejo têm um aspecto positivo e outro muito triste. É positivo que a nossa pobre agricultura se desenvolva e aproveite as suas possibilidades que, ao contrário do que pessoas incompetentes apregoam, são muitas e boas. Mas é muito triste que, em vez de serem os agricultores portugueses a fazerem esse desenvolvimento, ele esteja a ser levado a cabo por espanhóis.
Esse triste aspecto é consequência, primeiro, dos incrivelmente maus Ministros da Agricultura que, nas últimas décadas, tanto têm feito para destruir o sector que são pagos para desenvolver, causando à economia portuguesa prejuízos fabulosos. Mas também são algo responsáveis os agricultores portugueses que, com apenas algumas muito boas excepções, têm mostrado grande apatia, não são capazes de fazer aquilo que os espanhóis cá vêm fazer e só reagem quando lhes cortam subsídios. E aos que querem dar como desculpa do cada vez maior atraso da nossa agricultura a Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia eu lembro que a Espanha e alguns outros países de melhor agricultura a ela estão sujeitos.

Ainda os mestrados

Publicado no "Jornal de Sintra" de 28 de Março de 2008

Continua em grande a confusão - inexplicável - causada pela Declaração de Bolonha para o ensino superior. Essa confusão é muito agravada quando misturada com os monstruosos erros da legislação portuguesa de 1980 e o aberrante "enxerto" dum quarto grau académico, o mestrado, entre a licenciatura e o doutoramento.
Leio na comunicação social que está a haver reacções contra a exigência de algumas Ordens, como a dos Engenheiros e a dos Advogados que, no sistema proposto por Bolonha, só aceitam, para o exercício da profissão, as pessoas com o mestrado integrado. E aparece esta frase bombástica: "Lá fora isso só existe para cursos como Medicina e Arquitectura".
É evidente que quem apresenta essas ideias não tem a mínima noção das proporções. No campo da saúde não está vedado o exercício da profissão a quem tem o primeiro grau (de acordo com Bolonha), noutros países designado de "bacharel" e em Portugal, por decisão de quem pontifica nesse sector, designado "licenciado". Claro que pode exercer a profissão - como enfermeiro, não como médico.
Na engenharia sucede exactamente o mesmo. É possível exercer a profissão com o primeiro ciclo, como engenheiro técnico. Para a exercer como engenheiro exige-se como mínimo o nível de mestrado o que, aliás, já é menos exigente do que eram antigamente os cursos de engenheiro ou de médico, como já referi(1).
O mestrado integrado tem toda a razão de ser porque a estrutura dos cursos é diferente. Assim como os primeiros anos de medicina não formam um enfermeiro, os primeiros anos do curso de engenheiro não dão a categoria de engenheiro técnico. A estrutura dos cursos é diferente porque, com o esquema de Bolonha (e como sucedia anteriormente), quem quer exercer a profissão ao nível do primeiro ciclo, tem menos preparação básica e menos disciplinas técnicas. É por isso que os cursos de engenharia ou de medicina (e, possivelmente, também outros) exigem o tal mestrado integrado para o exercício da profissão com os títulos de engenheiro ou de médico e as correspondentes responsabilidades.
(1) Mota, M. - Mestrados. Jornal de Sintra de 21 de Março de 2008

Mestrados

Publicado na "Jornal de Sintra" de 21 de Março de 2008

O jornal "Público" de 29-2-2008 publicou um Suplemento "Mestrados", em que se diz que "São cada vez mais os portugueses que optam por tirar um mestrado após a conclusão da licenciatura". Esta simples frase mostra a enorme confusão que reina no ensino superior em Portugal.
Em 1999, a Declaração de Bolonha, que Portugal assinou, definiu três níveis de graus para o ensino superior com, respectivamente, 3, 5 e 7 anos de escolaridade. Cada país dá a esses níveis o título que entender. Nos países anglo-saxónicos há muito se usam para esses três graus os nomes de "bachelor", "master" e "doctor". Antigamente havia em Portugal igualmente três graus universitários, "bacharel", "licenciado" e "doutor". A infeliz legislação portuguesa de 1980 "enxertou" nesse sistema um quarto grau, o de "mestre", entre a licenciatura e o doutoramento. A partir dessa data, TODAS as licenciaturas portuguesas passaram a ser, internacionalmente, bacharelatos pois é a quem tem um "bachelor" que se manda fazer um "master". Para corrigir esse erro propus, a partir de 1994(1,2,3) essencialmente o que Bolonha veio dizer cinco anos mais tarde. A minha proposta não foi aceite, embora depois Portugal fosse assinar - aceitando-a - a Declaração de Bolonha. (Foi assinada, por Portugal, pelo mesmo ministro que, anos antes, me disse pessoalmente que aquilo não se podia fazer!).
Na minha proposta indiquei que se suprimisse o nome do grau de "mestre", voltando a ser usados os anteriores graus de bacharel, licenciado e doutor. As pessoas que tiveram poder para decidir preferiram suprimir o nome de bacharel, ficando os três níveis com os nomes de "licenciado", "mestre" e "doutor". Mas parece não se compreender que, para todos os efeitos, o "licenciado" pós-Bolonha é um bacharel e o mestre é menos do que eram antigamente os cursos de médico ou engenheiro.
A Espanha tem tratado estes problemas de forma bastante mais inteligente. Quando, há anos, mudou o sistema, idêntico ao que vigorava em Portugal, para algo como Bolonha definiu, não deixou de tratar convenientemente os seus diplomados. O curso de Engenheiro Agrónomo era semelhante ao que havia em Portugal. O nosso incluía cinco anos de cadeiras, um tirocínio de 120 dias úteis de que devia ser apresentado um Relatório, e uma tese, defendida em acto grande, que levava, em média, cerca de três anos, ou seja um total de escolaridade (incluindo o trabalho de investigação) de oito anos. Quando a Espanha mudou o sistema, os Engenheiros Agrónomos, julgo que com média de curso de, pelo menos, 14 valores, receberam o diploma de Doutor. O Prof. Mateo Box, Catedrático de Agronomia de Madrid, que esteve em Portugal como arguente num concurso para Investigador Coordenador, contou-me que esse foi o seu caso. Quando, na década de 1980, veio a Portugal um grupo de catedráticos da Universidade de Reading, para ajudar a instalar os mestrados, o Prof. Watkin Williams (que sabe espanhol) disse-me que tinha estado na Biblioteca da Estação Agronómica a ver essas teses e que todas as que viu eram perfeitamente boas teses de Ph.D. (Doutoramento). Em Portugal, mais de oito anos depois da Declaração de Bolonha, a confusão continua e as pessoas parece não compreenderem que o título actual de "licenciado" é, na realidade, um "bacharel".
Se os portugueses consentirem que um governo que se diz "socialista" e "de esquerda" (não é uma coisa nem outra) use Bolonha como subterfúgio para só financiar os 3 anos para formar licenciados (leia-se "bacharéis"), de forma inconstitucional (pois viola o Artigo 74º, na sua alínea 2e), não podem queixar-se de continuarmos na cauda da Europa.

(1) - Mota, Miguel - Achegas para o novo estatuto da carreira docente universitária. Público de 2 de Julho de 1994

(2) - Mota, Miguel - A propósito da Escola Superior Agrária de Elvas, o Ensino Superior Agrícola. Linhas de Elvas de 5 de Maio de 1995
(3) . Mota, Miguel - O ensino da engenharia e a Declaração de Bolonha. Ingenium (Revista da Ordem dos Engenheiros) Nº 65, Fevereiro 2002

17 de Março de 2008

O voto de antes e o voto de hoje

Publicado no “Diário de Notícias” de 31-3-2007

O leitor António Brotas (AB), em carta publicada no DN de 25-3-2007, relata um exemplo do que se passava em eleições para a Assembleia Nacional (agora “da República”) antes do 25 de Abril de 1974.

Esse relato não diz nada de novo a quem viveu esse período e sabia que o sistema então vigente não era democrático. É verdade que os cidadãos podiam candidatar-se – algo essencial para que um sistema seja democrático – mas depois alteravam os resultados para que fosse eleita apenas a lista elaborada pelo ditador.

AB não o declara mas, como nada mais diz, especialmente em comparação com o sistema agora vigente, é de admitir que se considera em democracia e que tem, em Portugal, eleições livres. Santa ingenuidade!

Para começar, se quiser candidatar-se... NÃO PODE! E quando vai, pelo voto, delegar um poder que, em democracia, totalmente lhe pertence, não pode escolher livremente em quem delega esse poder. Apenas pode escolher uma de meia dúzia de listas, cada uma feita tão ditatorialmente, como no tempo de Salazar, por um salazarzinho chefe de partido. Como já escrevi algures, é claro que, depois dessa espantosa limitação, não há qualquer inconveniente em "conceder" toda a liberdade de escolha - meter o papelinho na urna - dando uma aparência de "eleições livres".

Acresce que, depois da eleição, há uma constante dança de cadeiras, com saída de deputados e entrada de deputados de forma que o pobre cidadão nem sabe, em qualquer momento, quem está nessa Assembleia, presumivelmente a representá-lo. Portugal só terá democracia quando alterar a sua não plebescitada Constituição nos moldes que já descrevi numa revista universitária (“INUAF Studia”, Ano 2, Nº 4, Pág. 135-147, 2002).

Por estas razões, quando tenho de votar, sinto a mesma frustração do antigamente, por estar limitado a escolher o “menos pior” dos péssimos “menus” que me são apresentados.

Miguel Mota Oeiras

VOTAR EM LIBERDADE

Publicado no “Correio da Manhã” de 8-9-2000:


O artigo de Botelho da Silva (CM de 3-9-2000) levanta parte dum magno problema relativo ao sistema político que nos rege e que, como nalguns outros países, se chama, impropriamente, DEMOCRACIA.

De acordo com o significado da palavra (do grego “demos”, povo e “kratos”, poder), é o sistema político em que o povo é soberano, isto é, é nele que reside o poder. É o sistema totalmente oposto ao que vigorou em muitos países durante muitos séculos, o “absolutismo”, em que um rei ou imperador tinha poderes totais sobre os seus súbditos.

A “democracia” existiu na Grécia no século V AC mas, além de outras limitações, até era compatível com a existência de escravos!

Já no século XX, porque a palavra “democracia” tinha muitos simpatizantes, alguns espertos utilizavam-na no nome de países onde vigoravam ditaduras mais ou menos ferozes. Sabemos o que eram as “Repúblicas Democráticas de…” .

Numa democracia, portanto, o poder reside no povo. Mas, porque não é viável, salvo para pequenos grupos ou para alguns raros problemas de grande importância nacional, a chamada “democracia directa”, em que todos exprimem a sua opinião, o povo escolhe alguns dos seus elementos e neles delega, para um certo período de tempo, o poder de legislar e governar. Para isso usa-se, naturalmente, o voto.

A democracia assenta nalguns pressupostos. Assim, além de a cada cidadão caber um voto, os votos têm todos o mesmo valor. Quando há que decidir entre várias hipóteses ou pessoas, faz-se uma votação e adopta-se ou elege-se a que recebe mais votos.

Nalguns casos – mas nem sempre – se há mais de dois candidatos e nenhum deles tem a chamada “maioria absoluta” – ou seja, pelo menos 50% dos votos mais um – a votação faz-se em duas voltas, sendo a segunda apenas entre os dois mais votados na primeira. É o sistema que vigora em Portugal na eleição para o Presidente da República, mas nem em todos os casos é assim. Se o mesmo sistema vigorasse em Portugal, o Dr. Mário Soares não teria sido eleito Presidente, pois o Prof. Freitas do Amaral teve, na primeira volta, muito mais votos que qualquer dos outros candidatos.

Os partidos políticos começaram, no mundo, por ser uma espécie de clubes onde se juntavam os cidadãos com as mesmas ideias políticas, o que tem toda a lógica. Mas, nalguns casos, começaram a arrogar-se direitos de poder, de tal forma que os cidadãos, nos países onde isso tem acontecido, passaram a ver limitados, em grau maior ou menor, os seus direitos de escolher livremente em quem delegam um poder que, em democracia, lhes pertence totalmente.

O caso extremo – mas que não é o único – encontra-se em Portugal. De acordo com a Constituição de 1976 – que não foi plebiscitada, o que lhe tira muita validade – os círculos eleitorais coincidem com os distritos, o que faz com que haja círculos muito grandes, com muitos deputados (dos distritos com muitos eleitores, como Lisboa, que elege 49 ??? deputados) e círculos pequenos, com poucos eleitores, como Beja e Portalegre, que só elegem três ???? deputados cada um.

Isso é muito “confortável” (embora antidemocrático) porque não só os cabeças de lista mas também um certo número dos candidatos que se lhe seguem, dos grandes partidos, têm à partida assegurada a sua eleição, algo inconcebível em democracia. Dá muito jeito, especialmente aos “crónicos” desses partidos que, assim, não correm o risco de não serem eleitos. A menos que o chefe do partido, que detém o poder ditatorial de decidir quem é ou não é candidato e em que posição na lista , resolva que ele não será candidato ou que ficará em posição presumivelmente “não elegível”. Até já sucedeu o oposto, a eleição dum deputado do PS por Coimbra, que as bases locais do partido não queriam mas que o chefe, ditatorialmente, impôs.

É evidente a aberração do sistema – que considero, como já escrevi, uma verdadeira burla – pois se apregoam os nomes sonantes do topo da lista, quando um voto “neles” só vai influenciar um obscuro nome lá muito para baixo, na lista. E o caricato – e a burla – do sistema é bem evidente nalguns casos, como já sucedeu no Porto, em que a Rosa Mota foi incluída numa lista de candidatos mas, como ela própria afirmou, em lugar não elegível, pois não se sentia com qualidades para exercer o cargo de deputada. O seu nome sonante de grande campeã mundial apenas servia de “chamariz” para alguns ingénuos votarem nessa lista, julgando que estavam a votar na Rosa Mota, assim como se usa um engodo para caçar patos!

Para cúmulo da aberração do sistema, nenhum cidadão se pode candidatar a deputado ou autarca. Esse “privilégio” pertence aos órgãos de poder ditatorial que são os partidos, com absurdos poderes que esta Constituição lhes dá, roubando-os aos cidadãos.

Que fique bem claro que não sou contra a existência de partidos políticos. Sou contra o facto de lhes atribuírem poderes que são pertença dos cidadãos, individualmente. O que penso do assunto defini-o num artigo que publiquei no “Expresso” há mais de vinte anos (“Partidofobia e partidocratite”, em 27/10/79) e que termina assim:

“Partidos políticos como congregações de homens com o mesmo credo político, sim! Partidos como órgãos de poder paralelo, não! E partidos como órgãos de poder ditatorial, três vezes não!

É completamente irrelevante que seja livre o acto de votar (meter o papelinho na urna) quando antes se limitou drástica e ditatorialmente em quem os cidadãos podem votar.

Só teremos DEMOCRACIA – isto é, um sistema em que os cidadãos escolhem em total liberdade quem os governa – quando tivermos apenas círculos uninominais, constituídos por um conjunto de freguesias adjacentes (ou partes de freguesias, se algumas tiverem mais eleitores do que os de cada círculo) que, para os números actuais devem ser de cerca de 40.000 eleitores, e total liberdade de candidatura dos cidadãos.

Aos partidos políticos deveria ser vedada a apresentação de candidatos, que serão apresentados por um certo número de eleitores. Os partidos limitar-se-ão a apoiar os candidatos que entenderem,

Afinal, é o sistema que vigora em Portugal… mas apenas para a eleição do Presidente da República!

Quando o Dr. Carvalhas, em princípios de Setembro, declarou que irão anunciar “o candidato do partido” para Presidente da República estava a confessar que não conhece a Constituição portuguesa. Nenhum partido pode “apresentar candidato”. Apenas pode dizer o nome que o seu partido apoiará se um número “mínimo de 7.500 e um máximo de 15.000 cidadãos eleitores” o propuser (Artigo 124º da Constituição). Convém não esquecer as regras…

Com círculos uninominais e liberdade de os cidadãos – e só os cidadãos - se candidatarem, não há “eleitos à partida”, nem os tais “lugares elegíveis”, algo que acontece nas ditaduras. E os cidadãos ficariam a saber quem estava na Assembleia da República por mandato seu, quer tenham ou não votado nele/nela.

O equilíbrio de forças na Assembleia da República resultaria do agrupamento dos deputados pelos partidos que os apoiassem (fossem filiados ou não) e mesmo de grupos de autênticos independentes.

Não deveria haver essa figura caricata (para quem tinha sido eleito) de “suspensão do mandato”, salvo para exercício de cargo no governo (ministro, secretário ou subsecretário de Estado).

No caso dum deputado abandonar o lugar – o que deveria ser caso raro e não a anedótica dança de cadeiras” actual – seria feita nova eleição no círculo respectivo. No caso de abandono do lugar para ocupar cargo no governo, o novo eleito, embora com todas as prerrogativas, seria considerado interino, até ao regresso do titular, se ele o desejasse.

Quando isto se fizer, teremos então DEMOCRACIA e não a actual partidocracia ou, como costumo dizer, na sequência dos outros “ismos”, o PARTIDISMO, que tem todas as características duma ditadura.

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado

Uma intervenção no Forum TSF

Publicado no “Jornal de Oeiras” em 26-4-2005:

O programa Fórum da TSF Rádio, nas manhãs de 2ª a 6ª feira, dá uma oportunidade para os cidadãos expressarem livremente as suas opiniões e é, por esse facto, da maior utilidade. Trata normalmente um assunto que esteja a ser notícia no momento, dos mais variados temas, da politica ao futebol, da educação à saúde, etc. Não sendo uma sondagem nem uma eleição, permite ouvir, em microfone aberto, as opiniões – por vezes bem díspares – de vários cidadãos.

No dia 4 de Janeiro de 2005 o tema eram as próximas eleições e a formação das “listas” pelos partidos. Tal como em ocasiões anteriores, pareceu-me que era uma oportunidade para chamar a atenção dos portugueses para algo que considero muito importante. Não compreendo a passividade dos portugueses que, depois de tanto se queixarem – com razão – que antes havia um ditador que não lhes deixava escolher livremente os candidatos a deputados, agora consideram “democrático” que quatro ou cinco ditadores lhes imponham “listas” como antigamente e se contentem com a “imensa liberdade” de escolherem uma delas. Por esse facto e na sequência dos muitos artigos em que tenho chamado – sem qualquer resultado... – a atenção para o problema, fiz a intervenção que adiante se transcreve na íntegra. Acrescento apenas que nesse mesmo dia enviei por e-mail, ao Fórum TSF, o texto da “Proposta de Alterações à Constituição da República Portuguesa”.

“Eu gostava que os portugueses percebessem que numa democracia, em que, por definição, o poder reside no povo, a primeira liberdade que o cidadão tem de ter é a de decidir em quem delega esse poder quando tem de votar. Só em ditadura é que um senhor ou meia dúzia de senhores dizem quem é que pode ser eleito.

O que a TSF disse há pouco em relação a Paulo Pedroso é a confissão da ditadura partidocrática que nos rege. O próprio PS de Setúbal declarou que não queria Paulo Pedroso. Mas, como a TSF disse, a decisão final é de Sócrates. Sócrates é que decide se aquele senhor pode ou não pode ser eleito. Não são os eleitores que decidem; é o chefe do partido.

Aliás, isto mesmo já sucedeu aqui há uns anos, talvez se lembrem, e dentro do mesmo partido. (Isto passa-se com o PS como se passa com qualquer dos outros. Não estou aqui a dizer que este é mau e os outros são bons. De maneira nenhuma). O PS de Coimbra, se se lembram, declarou que não queria o crónico Manuel Alegre para ser eleito por ali. Mas o Secretário-Geral do PS não quis saber disso e decidiu que sim. E foi eleito.

Esta situação só muda com uma alteração da Constituição. Essa alteração é fácil de fazer. Claro que não pelos políticos que estão, que a não querem fazer, obviamente. Mas é uma alteração simples. Eu publiquei, em 2002, numa revista universitária (”INUAF Studia”, Ano 2, Nº 4, Pag. 135-147, 2002) uma “Proposta de Alterações à Constituição da República Portuguesa” que daria ao povo o poder de decidir quem é que vai ser eleito.

A única eleição democrática em Portugal é para o Presidente da República, em que os partidos apoiam quem quiserem, mas não apresentam candidatos. São os eleitores que apresentam candidatos. E esse é o sistema que teria que haver para isto ser chamado democracia.

E, já agora, para acabar, gostava de lhes falar num ponto. É o que se apregoa dos “cabeças de lista” e que vão estar “em confronto” uns com os outros. Não vão nada estar em confronto uns com os outros, porque eles vão todos ser eleitos. Quando se vota naquela lista não se está a votar naquele senhor. Esse voto só vai influenciar o 3º, o 5º ou o 10º que, na maior parte dos casos, não se sabe sequer quem é.

Isto acabará no dia em que tivermos círculos uninominais, as candidaturas a serem apresentadas pelos eleitores do círculo e os partidos a apoiarem quem entenderem que querem.”

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética

“Isto que um dia terá de ser aceite”

Publicado no “Linhas de Elvas” de 24 de Agosto de 2001:

“Isto que um dia terá de ser aceite para todos os níveis de candidaturas a cargos electivos – incluindo as eleições legislativas, e sobretudo em caso de introdução de círculos uninominais - …” escreveu José Queirós no “Público! de 28-6-2001.

Lentamente – demasiado lentamente! – alguns portugueses lá se vão dando conta da monstruosidade do sistema político que nos rege e da Constituição – não plebiscitada! – que o impõe. Muito timidamente – demasiado timidamente! – lá vão fazendo algumas críticas e dando algumas pequenas sugestões sobre o que é necessário mudar para haver em Portugal DEMOCRACIA.

O sistema que no rege é uma partidocracia fanática ou “partidismo”. Neste sistema, os verdadeiros órgãos de poder são os partidos que, além de funcionarem como agências de emprego, se sobrepõem aos órgãos eleitos. Não seria assim se em Portugal houvesse eleições livres e os portugueses pudessem escolher, em liberdade, quem os vai representar no órgão legislativo máximo – a Assembleia da República – e no executivo que dela emana, o governo.

Antes do 25 de Abril os portugueses queixavam-se, com razão, que não podiam escolher em liberdade quem os governava. Havia um sistema que lhes impedia essa escolha, que devia ser livre e não dependente dos desejos de outrem.

Alguns senhores fizeram uma revolução, pretensamente para acabar com tais limitações e dar aos portugueses a liberdade de escolherem aqueles em quem delegam um poder que, em DEMOCRACIA, inteiramente lhes pertence. Mas o que aconteceu foi a implantação duma PARTIDOCRACIA - ou partidismo - um sistema em que alguns detêm o poder, que se expressa muito simplesmente pelo “direito” de elaborarem a “lista” de pessoas em quem os cidadãos têm “licença” de votar!

Depois de tais limitações, já não há inconveniente em dar “liberdade” de voto, ou seja, o acto de meter o papelinho na urna. E dizem-lhes que eles escolheram “em liberdade”! E eles acreditam!

“Isto que um dia terá de ser aceite…” conforme escreveu José Queirós é o que há 25 anos devia estar em vigor se em Portugal tivesse sido implantada a democracia. Tenho-o denunciado em numerosos escritos (dos últimos vejam-se 1, 2, 3 e 4) e, se algo me espanta é como tantos e tão ilustres politólogos se não apercebem da enormidade do sistema político que nos rege. Não sei como não vêem como é pequena a diferença entre o sistema da ditadura com, para efeitos práticos, uma “lista única” e termos agora, para “escolher”, quatro ou cinco “listas”, feitas de forma igualmente ditatorial pelos chefes dos partidos.

Como tenho escrito repetidamente, só teremos DEMOCRACIA quando a eleição dos deputados for feita por círculos uninominais (como José Queirós refere), com total liberdade de candidaturas e em que os partidos se limitem a apoiar os candidatos que entenderem. É o sistema, aliás, que existe em Portugal… mas apenas para a eleição do Presidente da República.

Referências:

1 – Carta aberta ao Dr. Emídio Rangel. Linhas de Elvas de 21-5-99

2 - Votar em liberdade. Correio da Manhã de 8-9-2000

3 - A suspensão do mandato. Correio da Manhã de 23-12-2000

4 - Conceito de democracia. Público de 8-4-2001

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado

UM COMPONENTE DO DÉFICE EXTERNO

Publicado no "Correio da Manhã" de 22-10-2001

Avelino Crespo analisou, no CM de 15-10-2001 o problema do défice externo português, que é o maior da UE e que, entre 1991-95 e 1998-2000, medido em percentagem do PIB, mais do que duplicou.

Mesmo sem olhar as estatísticas é possível apontar um importante componente desse défice, injustificado e relativamente fácil de anular.

É evidente a quem visite qualquer super ou hipermercado a enorme quantidade de produtos agrícolas importados que, portanto, nada contribuem para o investimento, não sendo reprodutivos.

Se, para alguns produtos agrícolas, como o trigo, se espalhou a ideia (contestável, mas que não dá para analisar aqui) de que não podemos competir com a Europa Central e do Norte, para muitos outros, nomeadamente frutas e hortaliças, não há qualquer desculpa válida. Os muitos milhões de contos gastos nessa importação têm, além do agravamento do défice externo, grandes repercussões na nossa economia, com grandes prejuízos para os agricultores e para a população em geral. O único grupo que beneficia desse injustificado mal são alguns intermediários importadores que assim ganham alguns milhões de contos, que não ganhariam se o País tivesse a agricultura que devia ter. Infelizmente, em face de alguns factos evidentes e pelo que se conclui de vários estudos e comentários, os nossos economistas parece não saberem que a agricultura é uma parte - e muito importante, não só por ser das actividades que criam riqueza de base, como pelas outras actividades que gera, a montante e a jusante - da economia.

A destruição da agricultura portuguesa, que tem estado a ser levada a efeito pelo Ministério da Agricultura nas últimas décadas e por várias cores políticas, agravou enormemente uma situação que já não era brilhante. Da parte dos agricultores e, principalmente, das suas grandes organizações, verifica-se uma apatia e uma indiferença que muito ajudam a essa destruição. E, se todo o País perde, são os agricultores os mais directamente prejudicados.

Porque não se tem feito aquilo que há décadas venho indicando e que não é intrinsecamente difícil, chegamos a 2001 com a triste situação actual. Que desculpa é possível apresentar para que a nossa agricultura não produza, nas quantidades, qualidade e preço competitivo, batatas, cebolas, alhos, cenouras, alfaces, rabanetes, tomates, pimentos, beringelas, peras, maçãs, melões, melancias, uvas, etc. etc., de forma a tornar praticamente impossível virem cá vender esses produtos, às vezes de terras bem distantes. O que considero o cúmulo é encontrar nos nossos mercados rabanetes vindos da Holanda! Como já escrevi algures:

"Que se passa com a agricultura portuguesa, que tanto se queixa - e, nalguns casos, com razão - das dificuldades com certas culturas, para se deixar bater nos mercados nacionais na venda de rabanetes?

Como é possível cultivar rabanetes na Holanda (com os tais salários altos), pagar um transporte (certamente caro) de mais de 2.000 km e vir vendê-los em Portugal? Como é possível que a agricultura portuguesa não abasteça o mercado nacional de rabanetes bons e baratos de tal forma que o País não tenha que pagar os bons salários dos agricultores holandeses e os bons salários e os muitos outros elevados encargos do transporte de mais de 2.000 km, para comer rabanetes?

Que é que está errado na agricultura portuguesa? É a produção que não "descobriu" que há um mercado português para rabanetes? Os holandeses parece que o descobriram... É a organização da comercialização dos produtos agrícolas portugueses?"

Todos esses produtos agrícolas importados, que aqui devíamos produzir melhor e mais barato, não só agravam em muitos milhões de contos o défice externo, como têm reflexos gravosos no PIB, no desemprego, na inflação e, duma maneira geral, no poder de compra dos portugueses.

Como não vislumbro no horizonte qualquer sinal de mudança, a conclusão é que o mal vai continuar e, provavelmente, agravar-se.

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado

Treinar pessoal

Publicado no “Linhas de Elvas” de 1-9-2005

e no “Jornal de Oeiras” de 18-10-2005:

Num programa de televisão ouvi um senhor, julgo que convidado da estação, declarar que o Ministério da Agricultura tem funcionários a mais, nomeadamente nos de baixas qualificações.

Se o Ministério da Agricultura tem um excesso de funcionários pouco qualificados, o que tem a fazer – e isto aplica-se também a qualquer outro sector da administração – é qualificá-los, treinando-os nas muitas tarefas que devia fazer e não faz ou faz muito mal, com as consequências que estão à vista em qualquer supermercado, perante as quantidades astronómicas de produtos importados que aqui devíamos produzir melhor e mais barato. Foi isso mesmo que fiz toda a vida, exactamente no Ministério da Agricultura, sempre que tal se tornou necessário.

Começo por pedir desculpa aos leitores por usar como exemplo o meu caso pessoal para o que vou dizer. Mas esse é o caso que conheço melhor e onde posso apresentar casos concretos. Outros haverá, certamente, embora muito menos do que deveria haver, como o provam as palavras da pessoa atrás citada.

Quando iniciei funções oficiais, como Chefe do Laboratório de Citogenética da Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas, comecei por ser chefe de mim mesmo, pois não tinha mais nenhum pessoal no Laboratório. Algum tempo depois tive a trabalhar comigo dois auxiliares, que não sei se tinham, sequer, o 5º ano do liceu mas que certamente não sabiam nada de Genética, nem o que era um cromossoma. Algum tempo depois eram excelentes preparadores e, entre as tarefas que executavam, faziam excelentes preparações para microscopia óptica para observação dos cromossomas e conheciam bem todos os estados da mitose e da meiose.

Uns seis anos mais tarde, voltei para o Departamento de Genética da Estação Agronómica Nacional, então em Sacavém, onde tinha trabalhado durante três anos – sem ordenado – para a elaboração da minha tese, então necessária para se ser Engenheiro Agrónomo e ali permaneci até à aposentação. Mesmo antes de assumir a chefia desse Departamento, cargo que exerci durante muitos anos, várias vezes tive de treinar pessoal nas técnicas necessárias ao trabalho, tanto no laboratório como nos campos de ensaio. Alguns desses auxiliares, incluindo até um que nem sabia ler nem escrever, se transformaram em excelentes condutores de máquinas agrícolas, desde simples moto-cultivadores até mais sofisticados semeadores e debulhadoras para ensaios. Quando assumi, em acumulação – mas sem aumento de vencimento – as funções de Director do Laboratório de Microscopia Electrónica da mesma Estação, o auxiliar que foi contratado tinha acabado o serviço militar e não tinha a mínima noção do que eram aqueles aparelhos. Algum tempo depois já era, como continua hoje a ser, um categorizado técnico de microscopia electrónica.

É isto que devia ser a normalidade, no Ministério da Agricultura e em todos os outros. Pelos vistos, há quem não o saiba e prefira passar o tempo a falar de “funcionários a mais” – embora nunca dizendo quais são os que estão “a mais” e o que estão a fazer – num Pais em que há tanta coisa que o Estado devia fazer e não faz.

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética

A “SUSPENSÃO DO MANDATO”

Publicado no "Correio da Manhã" de 23 de Dezembro de 2000:

Entre os monumentais erros desta nossa pseudo democracia – que não satisfaz os requisitos necessários para que um sistema político se possa legitimamente considerar como tal – encontra-se a “suspensão do mandato”.

O caso do deputado autarca Daniel Campelo fez precipitar um novo “estatuto do deputado” que pretende limitar um pouco aquela “dança de cadeiras”, em que os deputados saltitam de e para a Assembleia da República com tal frequência que nunca sabemos quem, na verdade, nos está a “representar” no órgão legislativo. Foi bom que esse problema viesse à baila e o assunto tivesse sido discutido, para ver se chegamos a um sistema sério, donde desapareça essa figura da “suspensão do mandato”.

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Há alguns programas de rádio e de televisão em que os cidadãos podem intervir directamente, pelo telefone, expondo a sua opinião. São de grande utilidade para darem voz à chamada “opinião pública”, por vezes muito ignorada. Em dois desses programas e apenas com um dia de intervalo, tive ocasião, recentemente, de expor o que penso da “suspensão do mandato” e mais alguns aspectos que julgo relevantes, para levarmos o nosso País a ser uma democracia. Se algo me espanta é a apatia dos portugueses que, depois de se queixarem – com razão – de quem lhes limitava a sua liberdade de escolha de quem, em seu nome, vai legislar e governar – algo necessário em qualquer sistema democrático – aceitam, sem exigir correcção, as enormes limitações que lhes põem a essa mesma liberdade.

O que penso do assunto expressei-o – mais uma vez! – nas duas intervenções que adiante se transcrevem.

- Intervenção no “Fórum TSF Rádio” em 30 de Novembro de 2000:

Eu vou muito mais longe, porque considero que nenhum deputado devia poder “suspender o mandato”. Talvez, eventualmente, para cargos de membros do governo e, mesmo nesse caso, tenho dúvidas.

Se um deputado, ou não toma posse ou abandona a Assembleia, porque decide escolher outro cargo, seja por eleição, seja por qualquer outro motivo, como agora acabou de ser dito, entendo que deveria ser feita nova eleição no seu círculo.

E, evidentemente, só teremos democracia com círculos uninominais. Porque o que temos é o que eu costumo designar por PARTIDISMO, porque o poder não reside nos cidadãos, mas nos partidos. O cidadão está limitadíssimo na escolha de quem o representa. É o chefe do partido que diz em quem é que ele tem licença de votar, que é qualquer coisa absurda.

Aliás, o Dr. Carlos Magno, há poucos minutos, acabou de referir esse sistema; não o disse taxativamente, mas é isso mesmo.

Portanto, quando alguém abandona a Assembleia, faz-se nova eleição no seu círculo. Se o candidato preferiu outro cargo, os cidadãos escolhem outro deputado. Nessas condições, saberíamos quem é que está na Assembleia a representar-nos, quem é que, realmente, responde perante os cidadãos.

Há pessoas que estão aí a atacar os círculos uninominais porque dá muito jeito, especialmente nos círculos grandes, ter a certeza absoluta – que é uma coisa que, em democracia, não pode existir – de que uns quantos senhores do topo da lista vão ser eleitos. Repare, isto era uma mudança importantíssima a fazer na nossa Constituição.

- Intervenção no programa “Parlamento”, na RTP 2, em 2 de Dezembro de 2000 (sobre o estatuto dos deputados autarcas):

“Eu devo dizer que as pessoas não se podem esquecer que, numa democracia, o cargo de deputado é extremamente importante e de grande responsabilidade, porque os deputados vão legislar em nome dos cidadãos que os elegeram e que delegaram neles o seu poder. Em DEMOCRACIA, repare-se.

Nessas condições, eu não concebo, sequer, a figura da “suspensão do mandato”. O senhor que pretende suspender o mandato”, não suspende, “abandona”.

Se, por qualquer razão, não toma posse ou abandona a Assembleia, isso implica – talvez com a excepção de ir para cargo no governo, uma situação especial, mas mais nada – uma nova eleição.

Porque também não concebo, não pode haver democracia sem círculos uninominais e a total liberdade de a pessoa se candidatar e de escolher.

O que temos em Portugal, como sabemos, é PARTIDISMO, que é um sistema em que os donos do poder não são os cidadãos, são os partidos. O chefe do partido é que decide em quem os cidadãos têm licença de votar, algo como sucedia no fascismo. No partidismo é muito semelhante.

Por essa razão teremos de ter círculos uninominais, total liberdade de candidatura e de escolha dos cidadãos para deputado e não suspensão de mandato.”

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado

15 de Março de 2008

Subir o IVA?

Publicado no “Expresso” de 30-6-2007

Nos países democráticos e onde se considera importante a justiça social – isto é, onde se deseja que não sejam muito afastados os extremos de nível de vida dos cidadãos – a ênfase é posta nos impostos directos. Nesses países considera-se que quem tem mais proventos deve pagar proporcionalmente mais do que os que têm menos. Por isso a tributação incide muito mais nos impostos directos, já que só nesses se consegue essa diferenciação.

Daniel Bessa (“Expresso Economia” de 23-6-2007) sugere um aumento do IVA e descida do IRS e do IRC, isto é, exactamente no sentido oposto, assim conseguindo que os ricos continuem a ficar cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

Será isso que os portugueses querem? *

MIGUEL MOTA, Oeiras

* Suprimido pelo jornal e substituído por “(...)”

PIB, Défice, Inflação e Produtividade

Publicado no "Diário Económico" de 24 de Janeiro de 2000:

Há um conjunto de valores ou índices que fazem parte "obrigatória" das análises dos economistas de todo o mundo: PIB, inflação, taxas de juro, preço do petróleo, desemprego, défice orçamental, balanças comercial e de pagamentos, dívida pública, etc. etc.

Mas há um outro factor de que só raramente se fala e cuja importância me parece ser fundamental e que, portanto, devia ser mais considerado. Até porque é um dos campos em que é possível conseguir grandes melhorias. Refiro-me à "Produtividade", ou seja, à relação entre os factores de produção e o produto obtido. Num artigo já antigo (no "Expresso", há mais de vinte anos) considerei a "Produtividade: a grande reserva estratégica nacional".

De facto, como disse no início desse artigo, "um dos mais graves males do nosso país é a muito baixa produtividade", em quase todos os sectores. E indiquei alguns aspectos gerais e exemplos de pormenor do que é importante fazer para levar o país a dar um enorme salto em frente, com benefício para todos.

Não tenho conhecimentos que me permitam dizer o que se pode fazer para aumentar a produtividade no sector da indústria. Mas em relação à agricultura sei que há um enorme potencial que, ao longo dos anos, tem sido desperdiçado, o que levou esse importante sector da economia portuguesa ao estado em que se encontra. Os resultados duma acção deficiente, ao longo de vários anos, são graves repercussões, não só na agricultura, mas noutros sectores de actividade, nomeadamente a indústria e o comércio, a montante e a jusante. E influencia, também, alguns dos índices acima referidos, com acção sobre o PIB (através do PAB, o Produto Agrícola Bruto, e não só), da balança comercial (com a quantidade enorme de produtos agrícolas que importamos - que não deviam ser necessários - e dos que não exportamos), no desemprego e até na inflação.

Em relação ao desemprego, se uma agricultura eficiente produz mais com menos pessoas, também é capaz de encontrar novas actividades agrícolas actualmente não praticadas, normalmente com grande especialização, como sejam culturas mais sofisticadas ou a transformação de alguns produtos.

Mas onde o desenvolvimento da agricultura cria mais empregos é nas actividades industriais e comerciais que lhe estão associadas, a montante e a jusante. Em 1986, num artigo intitulado "A posição da agricultura nas exportações portuguesas" ("Vida Rural" nº 225), comentei uma análise económica das 200 maiores empresas exportadoras portuguesas publicada no "Diário de Notícias", que concluía pelo "pouco peso da agricultura nas exportações". Mostrei, ali, que algumas das principais dessas 200 maiores empresas exportadoras da indústria eram de produtos cuja matéria prima provinha da agricultura que assim, indirectamente, "pesa", realmente, nas exportações portuguesas.

Num segundo artigo, ainda em 1986, intitulado "Como a indústria depende da agricultura" ("Vida Rural" nº 240), comentei uma outra analise económica (do "Semanário" de 30-8-86) intitulada "As maiores empresas industriais. Sector por sector. 1985", que incluía 2.000 empresas. Citando o meu artigo anterior, comecei por esclarecer que:

"É óbvio que nesse artigo em nada quero diminuir a importância da indústria. Apenas pretendi chamar a atenção para a ideia tão generalizada - e que o Suplemento do "Diário de Notícias", embora sem essa intenção, alimentava - de que a agricultura é uma pobre actividade, secundária e de pouco interesse".

Muitas das 2.000 empresas listadas distribuíam-se pelas seguintes rubricas: Alimentação, Bebidas e tabaco, Texteis, Couro, pele e calçado, Madeira e mobiliário, Cortiça e Pasta de papel. Isto é, tudo empresas industriais (e só eram consideradas na lista "as maiores") que dependiam da agricultura para lhes fornecer a matéria prima. É claro que pode importar do estrangeiro essa matéria prima, mas nesse caso o país terá de encontrar divisas para a pagar e ficará mais dependente dos outros países.

Não cabe no âmbito deste artigo pormenorizar o que há a fazer para aumentar a produtividade da nossa agricultura. Aliás, tenho-o exposto em dezenas de escritos, não só em publicações especializadas como noutras para o grande público. Direi apenas que, enquanto o Ministério da Agricultura não tiver em bom funcionamento um amplo e eficiente serviço de Investigação Agronómica e um bom serviço de Extensão Agrícola, podemos ter a certeza de não ter uma agricultura eficiente e produtiva.** O que se tem feito nesse sector, nas últimas décadas, tem sido uma degradação do pouco que já houve, o que fez o País perder alguns milhares de milhões de contos.

*

O aumento de produtividade que Portugal pode conseguir não se limita à agricultura, mas deve atingir todos os sectores. Um dos mais importantes é constituído pelos múltiplos sectores da administração pública, onde a ineficiência - com raras e honrosas excepções - é a norma generalizada.

São numerosos os casos que admitem melhoria e que, multiplicados muitos deles por milhares de vezes cada um, formam um quantitativo total impressionante. Um exemplo muito simples e muito generalizado pode dar uma ideia das melhorias possíveis.

O baixo treino de dactilografia dos milhares de pessoas que "escreviam à máquina" é agora agravado com o advento dos computadores. Não são raros os casos de pessoal que, dispondo de sofisticados e caros computadores, apenas os utiliza para escrever... e só com dois dedos e extrema lentidão! A realização de cursos para treinar esse pessoal causará muito bons ganhos de produtividade.

Estas as razões porque me atrevo a sugerir aos economistas que incluam a "Produtividade", sistematicamente, nas suas análises e ajudem a detectar e a assinalar todos os casos em que algumas modificações, muitas vezes simples, podem causar grande melhoria nesse importante factor da economia.

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado

**Destacado pelo jornal, em chamada por baixo do título

E se fizessem crescer o PIB?

Publicado no “Jornal de Oeiras” de 21-2-2006

Como é do conhecimento geral, uma série de índices de natureza económica e financeira são apresentados, não com os seus valores absolutos, mas em percentagem do PIB, o Produto Interno Bruto. Os valores dos “critérios de Maastricht”, definidos como limites máximos aceitáveis para os países poderem entrar no euro, a moeda única europeia, foram expressos em percentagem do PIB. É compreensível esse critério pois um país que todos os anos cria muita riqueza tem maior capacidade para suportar um qualquer défice do que um que produz muito pouco. O ritmo a que o nível económico dum pais se desenvolve é normalmente apresentado em percentagem do aumento do PIB em relação ao valor deste no ano anterior.

O PIB per capita (o total produzido pelo país num ano dividido pelo número de habitantes) é em Portugal muito baixo. Na Europa dos 15 só a Grécia costumava ter um PIB per capita inferior ao de Portugal. Com a entrada dos novos dez países, alguns deles bem pobres, como consequência de anos de dominação comunista, já não estamos tão perto do último lugar, mas temos mais de 15 países com PIB per capita superior ao nosso.

Quando, essencialmente por incompetência dos governos que temos tido, o défice orçamental ultrapassou os 3% do PIB permitidos para a entrada no euro, os nossos governantes só têm sabido fazer duas coisas: aumentar os impostos (algo que em campanha eleitoral – e até depois, na Assembleia da República – garantiam que não iriam fazer!) e cortar nas despesas do estado, isto é, cortando nos serviços que prestam aos cidadãos, ou nos vencimentos dos funcionários. Fazer subir o PIB parece estar fora das suas possibilidades, como se alguém quisesse alterar o valor da gravidade ou do diâmetro da terra.

O baixo valor do PIB português não é consequência de condições naturais adversas, que não podemos alterar, mas apenas da inépcia dos homens, principalmente os governantes. Em numerosos escritos chamei já a atenção para uma série de acções – algumas para mim bem evidentes – que alterariam drasticamente o mau panorama actual.

A agricultura, a indústria e as pescas são as actividades económicas que criam riqueza de base, da qual todas as outras dependem. Não me pronuncio sobre a indústria e as pescas embora, como já tenho escrito, não possa deixar de achar estranho que tenhamos abatido barcos em troca de magros subsídios, não tenhamos construído outros e compremos peixe aos espanhóis, que têm uma Zona Económica Exclusiva bem menor do que a nossa. E não posso deixar de achar estranho o que se passou com a Sorefame, os Cabos de Ávila, as em tempos excelentes Oficinas Gerais de Material Aeronáutico e algumas outras empresas industriais.

Mas em relação à agricultura, uma das matérias em que tenho obrigação de ter alguma competência, tenho várias dezenas de anos e centenas de escritos a indicar o que se deve fazer, aliás evidente a quem se debruce a sério sobre os problemas e que os responsáveis não só não têm querido fazer, como nela têm causado enormes destruições. Essas acções de destruição têm, nas últimas duas décadas, atingido níveis inconcebíveis, bem piores do que a famigerada Reforma Agrária, da qual, aliás, já o País recuperou.

Se os governos são os principais responsáveis pelos males que têm causado, não posso deixar de lembrar que isso tem sido possível graças a uma enorme passividade não só dos agricultores (e das suas grandes organizações) como de toda a população, já que todos, com excepção dos importadores de produtos agrícolas, sofrem na sua economia os resultados de tal acção. Quando os portugueses vão ao supermercado comprar, vindos do estrangeiro, produtos que aqui devíamos produzir melhor e mais barato, tais como batatas, cebolas, cenouras, alhos, alfaces, tomates, pimentos, feijão verde, melões, melancias, laranjas, limões, ameixas, pêssegos, nêsperas, maçãs, peras, uvas, morangos, etc. etc. etc., isso afecta negativamente o PIB, a inflação, o desemprego e as balanças comercial e de pagamentos. Se, com uma agricultura eficiente, aqui produzíssemos todos esses produtos, além de ajudar aqueles factores referidos, teríamos ainda benéficos reflexos na indústria e no comércio, a montante e a jusante. Os únicos “prejudicados” seriam os importadores daqueles produtos agrícolas, que hoje ganham milhões à custa da economia nacional.

Termino com uma citação: “É fácil decretar novos impostos para engrossar os delgados rendimentos do tesouro, mas é mais honroso elevar receitas, desenvolvendo e patrocinando indústrias, para que, diminuindo as percentagens, se aumentem os recursos da nação”. Esta frase não é de nenhum dos nossos brilhantes economistas actuais. É da autoria de João Marques de Carvalho, numa “Memória viti-vinícola do concelho da Chamusca”, no “Relatório Geral”, Volume II, do “Congresso Vitícola Nacional de 1895”, publicado em Lisboa, na Imprensa Nacional, em 1897. Como se vê, Portugal não tem progredido mesmo nada.

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética

Sobre esquerda e direita

Publicado no Linhas de Elvas de 31-3-2005

e no “Jornal de Oeiras” de 30 de Agosto de 2005:

Nenhum partido ou nenhuma pessoa “é” de esquerda ou de direita simplesmente porque se declara como tal, assim como ninguém é pintor ou escultor porque se arroga esse título. São as ideias que defende, se não está no poder, ou as acções que pratica, se está no poder, que definem a sua posição no espectro que vai da extrema esquerda à extrema direita. Todos os sistemas políticos actuais têm alguns componentes de direita e alguns componentes de esquerda. Um qualquer sistema político situar-se-á, nessa linha, para a direita do centro se predominarem as acções ou situações de direita e para a esquerda desse centro se predominarem as acções ou situações de esquerda. O centro, como um ponto imaterial nessa linha, não tem espaço físico.

Como é sabido, esses termos “esquerda” e “direita” nasceram na Assembleia Nacional, em Paris, em 1789, no tempo da Revolução Francesa. Em termos modernos, podemos dizer que são acções de esquerda as nacionalizações, a redução do leque salarial (na extrema esquerda os salários seriam todos iguais), saúde, educação e protecção na velhice como encargos do estado, predomínio do trabalho sobre o capital (na extrema esquerda não pode haver capital privado), impostos altamente progressivos, em que quem tem mais paga proporcionalmente mais e quem tem muito mais paga proporcionalmente muito mais, etc. etc. etc. Por oposição, são de direita as privatizações, um grande leque salarial (desde salários de miséria a salários muito altos), saúde, educação e protecção na velhice como negócios privados, predomínio do capital sobre o trabalho, impostos pouco progressivos ou, até, todos a pagarem a mesma percentagem, etc. etc. etc.

Como alternativa aos sistemas dos extremos, com o capitalismo puro na direita e o socialismo na esquerda, ambos a provarem serem socialmente muito maus, nasceu a “social democracia” que, sem destruir a empresa privada, introduziu medidas sociais anteriormente pouco utilizadas. O país que com mais êxito aplicou esse sistema foi a Suécia, principalmente no tempo do Primeiro Ministro Tage Erlander. Mantendo a propriedade privada (isto é, negando o socialismo) adoptou um sistema fiscal progressivo e aplicou muitas das acções de natureza social. Atingiu o PIB per capita mais alto do mundo e manteve a sua população com um invejável nível de vida. Quando Otelo disse ao Primeiro Ministro Olof Palme que em Portugal tinham acabado com os ricos ele respondeu-lhe que, na Suécia, tinham acabado com os pobres.

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O Partido Socialista “era” um partido de esquerda após o 25 de Abril, quando andava de braço dado com o Partido Comunista a fazer nacionalizações e actos do género e Mário Soares, na rua, de punho erguido, berrava “Partido Socialista, um partido marxista!”

Mas algum tempo depois o discurso já não era o mesmo e não tardou a abandonar o socialismo, antes mesmo de Mário Soares declarar expressamente que tinha “metido o socialismo na gaveta”. (Para ser coerente, a partir dessa data o partido deveria ter mudado de nome. Mas todos sabemos que os nomes dos partidos pouco ou nada significam).

Durante os seis anos do governo PS de Guterres, quase todas as acções se situavam para a direita do centro. Fizeram-se privatizações, alargou-se em vários casos o leque salarial, etc. O único resquício de esquerda foi o Rendimento Mínimo Garantido (mínimo era; garantido não...) que deixou muitas dúvidas se essa era a melhor forma de atingir os objectivos desejados, em vista dos seus elevadíssimos custos, particularmente em burocracia.

Assim, é fácil concluir que o espaço politico do PS é o mesmo que o do PSD, ou seja, no centro direita. É essa a razão das alternâncias que temos visto em sucessivas eleições. Sem poderem escolher livremente os seus legisladores e governantes, como seria se o sistema fosse democracia, sujeitos como estão à ditadura partidocrática em que meia dúzia de senhores têm o “direito” de dizer aos cidadãos em quem é que eles têm licença de votar, nada mais resta aos portugueses senão “castigar”, mandando-o embora, o partido que estiver no governo e não for capaz de desenvolver satisfatoriamente o País. Se Cavaco Silva tivesse no seu segundo mandato continuado a boa marcha do primeiro e não tivesse consentido os monstruosos erros de destruição da agricultura, o PS não teria ganho as eleições de 1995. Se Guterres, que beneficiou do que restava do governo PSD e que lhe deu um segundo mandato (embora este ficasse a meio...), tivesse sido capaz de desenvolver a nossa economia (incluindo a agricultura, que ele mostrou não saber que é parte da economia), não teria necessidade de fugir e o PS continuaria a governar. Se o PSD tivesse sido capaz de fazer esse desenvolvimento a partir de 2002, não teria dado ao Presidente da República o pretexto para dissolver a Assembleia da República e ainda estaria a governar.

Temos agora um novo governo e tudo vai depender do que for capaz de fazer. Oxalá consiga levar a cabo aquilo que é necessário e o País dê o tão necessário salto em frente. Pelo menos para muitos casos, temos diagnósticos feitos e indicada a terapêutica, que não se tem querido aplicar. Se o não fizer, o mais certo é que não chegue ao fim da legislatura. E os portugueses continuarão a sofrer.

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética.

(Parte do que aqui se diz foi também dito por Vicente Jorge Silva, no “Diário de Notícias”, alguns dias depois da publicação no “Linhas de Elvas”)

Produtividade, a grande reserva estratégica nacional

Publicado no “Linhas de Elvas” de 21-12-2001:

Com este título, "Produtividade, a grande reserva estratégica nacional" publiquei no "Expresso" de 4 de Agosto de 1979 (já lá vão mais de vinte anos!) um artigo em que chamava a atenção para o facto de ser com o aumento da produtividade - em todos os sectores - que Portugal se poderia tornar um país rico ou, pelo menos, muito mais rico do que era.

Eram escassas, nessa altura, as referências a essa palavra mágica, "produtividade". Em tempos recentes e em crescendo, ela vem aparecendo referida como importante, especialmente pelos autores que tratam de aspectos económicos. Alguns apresentam, mesmo, números globais do que é a (baixa) produtividade portuguesa, em comparação com a dos seus parceiros na União Europeia, embora também já visse números a dizerem que não é tão má com alguns apregoam.

Acontece, porém, que em todos os escritos que tenho lido a produtividade aparece referida no vago, sem concretização do que há a mudar. Algo como se o médico dissesse ao doente que tomasse "qualquer coisa que lhe fizesse bem", sem receitar, concretamente, a terapêutica a aplicar.

A produtividade dum país é o somatório da produtividade dos seus variadíssimos sectores. O que se torna importante é apontar todos os casos que vão sendo identificados e indicar o que há a fazer para o aumento da produtividade. No referido artigo de 1979 apontei alguns casos como o da investigação científica. Também referi o caso "de alguns que, anulando o que outros produziram ou impedindo-os de produzirem, podemos considerar de produtividade negativa".

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Há já muitos anos, porque a então Secretária de Estado da Reforma Administrativa andava ocupadíssima com uma reforma dos serviços, tive uma conversa com o Director-Geral do sector, a quem levei uma longa lista de casos concretos, com indicação da forma de os melhorar. Ouviu-me simpaticamente e, até, para uma das minhas sugestões (a maneira simples de economizar trabalho num processo administrativo que se repete, no Estado, muitos milhares de vezes por ano) me disse que estava prevista para o início do ano seguinte. (Só o foi passados mais de dois anos!). Tanto quanto sei, nenhuma das outras sugestões foi concretizada.

Em 1990, um artigo meu, "Desburocratização: um caso pontual à consideração do Senhor Ministro das Finanças" foi premiado com uma Menção Honrosa num concurso dessa mesma Secretaria de Estado. Porque nele se sugeria o que havia a fazer para simplificar, sem qualquer custo adicional, um prejudicial processo administrativo da responsabilidade do Ministério das Finanças, enviei-o a três sucessivos ministros dessa pasta. Nem sequer acusaram a recepção, o que não seria importante se tivessem posto em prática o que eu sugeria, o que não sucedeu. (Provavelmente, os ministros nem tiveram conhecimento. Num dos três casos, cujo ministro me conhecia, não acredito que tivesse conhecimento e nada me dissesse. Mas esse é um problema dos ministros, que escolhem os seus colaboradores e que são responsáveis por tudo o que, de bom e de mau, se passa nos seus ministérios, incluindo os seus gabinetes).

Nos sectores em que tenho obrigação de ter alguma competência, a investigação científica, o ensino (especialmente o superior) e a agricultura, são numerosos os casos concretos que tenho apontado, geralmente sem qualquer êxito.

Depois de conversas com várias entidades responsáveis, resolvi apresentar, em escritos de jornal (o primeiro em 1994, no "Público", seguido de outro, em 1995, no "Linhas de Elvas") o que considero devia ser feito para corrigir o monumental erro cometido há pouco mais de vinte anos com uma drástica alteração do esquema do ensino superior. Tudo foi soberanamente ignorado... até que a reunião, em Bolonha, em 1999, dos ministros da Educação da União Europeia, veio recomendar precisamente o que eu vinha propondo, publicamente desde 1994. No artigo "Um novo esquema para o Ensino Superior" ("Correio da Manhã" de 23-6-2001) transcrevi do artigo do LE que "Portugal deveria propor, para a Europa, a adopção do sistema aqui esquematizado" e escrevi: "Em vez de ir a reboque da União Europeia, Portugal poderia ter tomado a iniciativa e a Declaração, em vez de ser de Bolonha, poderia ter sido de Coimbra, de Évora ou de qualquer outra das nossas cidades universitárias".

Numa comunicação apresentada em 1999 a um Seminário Internacional sobre Desenvolvimento Rural (que está publicada na "Vida Rural" desse mesmo ano) indiquei (mais uma vez...) o que há a fazer para Portugal ter uma agricultura bem melhor do que a que tem e dando à nossa economia uma contribuição bem maior do que a que dá actualmente. Nas "referências bibliográficas" desse trabalho listei 60 artigos publicados ao longo de 40 anos, em diferentes jornais e revistas, alguns para o grande público (como o CM, o DN e o Expresso), onde aponto o que há a fazer. Tem sido o clássico "bradar no deserto"!

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A responsabilidade principal desta baixa produtividade não é dos trabalhadores mais modestos, embora a falta de preparação de muitos deles alguma coisa contribua para esse mal. A responsabilidade maior é dos chefes, a diferentes níveis (tanto maior quanto mais alto se encontram na cadeia hierárquica), como bem se prova quando os mesmos trabalhadores vão para o estrangeiro e a sua produtividade sobe espectacularmente, seja em trabalhos de mecânico, seja na investigação científica. Mesmo a falta de preparação é, em grande parte, da responsabilidade dos chefes, pois nos próprios serviços - sejam do Estado, sejam de privados - é possível fazer muito mais formação, como alguns raros casos bem demonstram.

Se a responsabilidade directa cabe aos que têm por função desempenhar determinados cargos, a responsabilidade última cabe aos chefes máximos (em tudo o que é do Estado, aos ministros e ao Primeiro Ministro) e é necessário que toda a população reaja em massa e deles exija que funcionem bem. Infelizmente, o apático povo português não percebe isso e aceita carneiralmente todas as incompetências - e outras coisas bem piores..- dos que nele mandam e mantêm o País neste estado. Quando se fala na acção que os cidadãos devem executar, a resposta que se ouve é: "Que é que eu posso fazer? Eu não posso fazer nada!".

A menos que os cidadãos acordem, o País vai continuar na cauda da Europa, a grande distância da média, para já não falar na distância que nos separa dos melhores, grupo em que eu considero que devíamos estar incluídos.

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado

Referendo?

Publicado no “Jornal de Oeiras” em 28-6-2005

Ainda não tive oportunidade de ler o texto completo – absurdamente extenso – do tratado proposto para a União Europeia, a que alguns chamam “constituição” e que, de facto, tem características desses diplomas. Contudo, chega-me informação de alguns casos que, a serem assim, constituem suficiente motivo para que os cidadãos lhe digam um NÃO rotundo.

Por exemplo, o Artigo IV-443-3, salvo erro, exige a concordância da totalidade dos países membros para que, se o tratado estiver em vigor, se lhe fazer qualquer alteração. Esta regra parece ter toda a lógica. Mas se se exige unanimidade para aprovar qualquer alteração, não pode deixar de se exigir unanimidade para que o tratado seja aprovado. (Aliás, isso é óbvio, em face das bases em que a UE foi estabelecida). Como é que, logo que se verificou o “não” da França, não ficou imediatamente o assunto arrumado? Será que alguns pensam impô-lo mesmo que haja países membros que o não aprovam, embora achando bem que as alterações exijam unanimidade? Será essa a razão para que não haja uma divulgação muito ampla do texto completo? Há quem tenha interesse em que os cidadãos digam “sim” ou “não” sem saber a quê e apenas fiados no que lhes dizem alguns? São perguntas que não vejo os apáticos portugueses formularem e exigirem resposta antes de serem chamados a decidir. Mas depois, como tem sucedido, queixam-se amargamente de terem votado em algo que se virou contra eles! Considero essa falta de exigências em relação a actos políticos que grandemente os afectam – para bem ou para mal – um tristíssimo índice da capacidade dos portugueses. Se essa falta de exigência apenas existisse da parte de pessoas de escassa escolaridade, compreendia-se. Mas a partir dos que fizeram, pelo menos, o 12º ano, qual é a desculpa para essa falta de exigência?

Também alguns falam em grave crise e agitam o terrível papão do NÃO, chegando a tentar convencer as massas de que, nesse caso, a União Europeia acabaria. É uma espantosa desonestidade pois não só não existe crise como não há qualquer razão para fazer com que a UE desapareça. O que era no início uma associação de seis países, criada pelo Tratado de Roma para, em conjunto, obterem melhores resultados, foi sendo alargada a outros países e as ligações entre eles ampliadas por sucessivos tratados, nomeadamente de Maastricht e de Nice. Nessa ampliação se incluiu o espaço Shengen e a moeda única, o euro, a que nem todos os membros aderiram, continuando alguns a manterem as suas fronteiras com entraves e a sua antiga moeda. Algumas pessoas querem ir mais longe e transformar essa associação de países ainda com alguma soberania numa única nação federal (composta por diversos estados), à semelhança dos Estados Unidos da América do Norte ou do Brasil. Mas esquecem-se que na velha Europa se efectuou uma grande diferenciação entre países, o que torna a criação duma única nação algo muito perigoso, pois corre-se o risco – já evidenciado nalguns casos – de alguns desses países, particularmente dos de maiores dimensões, quererem exercer uma hegemonia que será um verdadeiro colonialismo.

Logo que a França disse NÃO o tratado morreu, pois é inconcebível que ele possa vigorar sem completa unanimidade. E para o provar lá está a clausula de não poder ser alterado sem unanimidade. Mas a União Europeia nada sofre com isso nem se pode falar em crise. Ela continuará como até aqui e funcionará na base dos seus anteriores tratados.

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética

Que vitória?

Publicado no “Linhas de Elvas” de 14-5-99:

A última projecção dá a vitória a Mário Soares” (sobre Leonor Beleza), disse o locutor da SIC, em 3-4-99, pelas 13,20 horas.

Persiste a imensa burla de se dizer aos portugueses que devem escolher “entre” Mário Soares e Leonor Beleza.

É uma burla porque o que vai estar em causa não é nem a eleição de Mário Soares, nem a de Leonor Beleza. E não está em causa porque já sabemos à partida que ambos vão ser eleitos, tal como vai ser eleita Ilda Figueiredo, a cabeça de lista do Partido Comunista Português. E, depois de eleitos, qualquer deles tem, no Parlamento Europeu, o mesmíssimo peso: um voto.

Não há maneira de os portugueses perceberem que, numa democracia, a delegação de poderes que os eleitores concedem ao votar numa eleição só pode ter legitimidade se as pessoas puderem escolher em quem votam e, naturalmente, poderem candidatar-se livremente.

Nada disso existe em Portugal, pelo que o nosso País não pode ser considerado uma democracia. O sistema que nos rege é uma forma de ditadura - com a agravante de se mascarar de “democracia” - em que o poder ditatorial é apanágio dos partidos, cujos chefes decidem ditatorialmente em quem nós podemos votar. E, em listas, em “blocos”, sem qualquer hipótese de querer o senhor A e rejeitar o senhor B.

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Se Mário Soares e Leonor Beleza concorressem, individualmente, ao mesmo círculo eleitoral - uninominal, evidentemente! - em que o que tivesse mais votos seria o eleito, então sim, poderia falar-se de vitória do que tivesse mais votos.

Não é isso que se vai passar. Neste arremedo de eleições que temos (numa eleição democrática, por definição, os eleitores escolhem, individualmente, as pessoas em quem delegam um poder que é seu), em que os eleitores são confrontados com “listas” (“take it or leave it”) cozinhadas ditatorialmente pelos chefes dos partidos, o que vai ser decidido é até onde, nessa lista, vão ser eleitos os que a compõem.

O que significa que, quem vota numa lista (onde, praticamente, só são “visíveis” os cabeças de lista e um ou outro dos que se lhe seguem) só vai influenciar a eleição dos ilustres desconhecidos que se encontram lá para diante nessa lista.

Tentar fazer crer o contrário, como se tem andado a fazer, é uma burla que é necessário denunciar e a que urge pôr cobro.

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Professor Catedrático, jubilado

Procurar erros onde eles não estão

Publicado na “Sintra Regional” Nº 7, Pag. 13-14. Dezembro de 2004:

Nos últimos anos da monarquia portuguesa, a “febre” republicana atribuía todas os males ao facto de ser aquele o sistema vigente em Portugal. Fez-se a revolução em 1910, acabou a monarquia e foi implantada a república.

A “febre”, então “euforia”, desatou a fazer mudanças, algumas só no nome, como no caso da moeda. Em vez dos execráveis “reis” passou a haver o “escudo” embora, muitas dezenas de anos depois, os portugueses continuassem a chamar ao escudo “mil reis”.

Uma ou outra alteração pode ter sido boa, mas o conjunto foi um desastre. Tão mal funcionaram os que legislavam e governavam que apenas dezasseis anos após a implantação da república o País estava em bancarrota. Nesses dezasseis anos o descalabro foi sempre em crescendo, com revoluções constantes, 8 Presidentes da República, numerosíssimos governos (alguns durando apenas escassos meses) e a moeda a degradar-se de tal forma que, no fim desse período, já nada valia internacionalmente. Aos que não sabem o que foi esse desgraçado período, agora por alguns exaltado como muito “democrático”, e especialmente aos jovens a quem ensinam uma história completamente distorcida, eu sugiro que leiam os jornais e a literatura da época, nela destacando os magníficos “Fantoches”, totalmente escritos pelo insuspeito Rocha Martins.

Esse tipo de cegueira, que atribui os males a causas erradas – como se sabe, há monarquias que funcionam bem e repúblicas que também funcionam bem – “inventa” razões para os males, quando a causa deles é muito diferente, e continua a verificar-se no presente. Um dos mais recentes casos – e dos mais absurdos – foi-nos dado pelo Dr. Miguel Cadilhe, ao dizer que os males de Portugal - indiscutivelmente existentes, que nos dão um tão baixo lugar na escala das nações e, o que é pior, a grande distancia dos da frente – são causados por... não se ter feito a regionalização!

Num Pais tão pequeno, já eivado de tanta burocracia excessiva, já com os seus serviços muito regionalizados, queriam implantar mais um escalão burocrático, entre o governo central e as câmaras municipais. (Se alguns cantam loas ao “poder local”, também se esquecem que muitos dos graves erros, por exemplo, das urbanizações, são da responsabilidade desse mesmo poder). É claro que para os políticos profissionais interessa que haja mais um bom número de lugares para ocupar.

Os males de Portugal são resultado de muitos erros cometidos antes e depois de 1974, que nada têm a ver com a “regionalização”. Tenho denunciado vários deles, particularmente nos sectores em que tenho obrigação de ter alguma competência, nomeadamente a agricultura, a educação e a investigação científica. Muitos desses erros são elementares e de nada tem servido indicar a solução, mesmo quando sectores ou organismos internacionais vêm, posteriormente, preconizar o que eu já tinha indicado. Um caso paradigmático passou-se com o ensino superior, como passo a relatar.

Por legislação de 1979 e 1980 ocorreram grandes – e muito graves – alterações no ensino superior em Portugal. Tive conversas com alguns responsáveis, a quem propus as alterações que considerava deviam ser feitas para corrigir os graves erros dessa legislação. Como nada acontecesse, publiquei em 1994, em artigo de jornal (1), o que propunha que se fizesse. No ano seguinte, num outro artigo (2), repeti e ampliei o que já indicara e sugeri que, dadas as diferenças existentes na Europa, Portugal propusesse a adopção dum sistema naqueles moldes:

Como na União Europeia existem grandes discrepâncias entre os diferentes países, considero que Portugal deveria propor para a Europa a adopção do sistema aqui esquematizado. No entanto, não pretendo que este esquema seja a última palavra e, naturalmente, apresento-o como base para discussão.

A sugestão foi totalmente ignorada.

Algum tempo depois tive ocasião de conversar pessoalmente com o ministro da pasta - a quem, aliás, já tinha enviado os dois artigos – e de chamar a atenção para o que eu considerava se devia fazer. Nada consegui, a sua posição era totalmente contrária e que isso seria “uma guerra perdida”. Deve, no entanto, ter mudado de ideias, pois foi esse mesmo ministro que, em 1999, assinou, por Portugal, a Declaração de Bolonha, que veio determinar aquilo que eu tinha proposto cinco anos antes! Só lamento que não tenha sido executada a minha sugestão de Portugal propor à Europa um tal sistema pois, como escrevi em 2001 (3), referindo o anterior:

“...’Portugal deveria propor, para a Europa, a adopção do sistema aqui esquematizado’. Em vez de ir a reboque da União Europeia, Portugal poderia ter tomado a iniciativa e a Declaração, em vez de ser de Bolonha, poderia ter sido de Coimbra, de Évora ou de qualquer outra das nossas cidades universitárias

Os males de Portugal começam na sua Constituição que, apesar de muito apregoar “democracia”, não deixa aos cidadãos a liberdade de escolherem a pessoa em quem delegam o poder que, numa democracia, os cidadãos possuem. A única eleição democrática que existe em Portugal é para o Presidente da República. As candidaturas são apresentadas por um grupo de cidadãos eleitores, limitando-se a acção dos partidos a apoiar o candidato que entenderem, mas que não pode ser apresentado por eles. Às pessoas que dizem que ninguém pode ser eleito se não tiver o apoio dum grande partido respondo que isso está nas mãos dos cidadãos: se houver um candidato geralmente reconhecido como sendo melhor que todos os outros mas que não é apoiado por nenhum grande partido, só não é eleito se os cidadãos não quiserem votar nele e, carneiralmente, forem votar noutro qualquer, só porque é apoiado por determinado partido. Nesse caso não se podem queixar. Mas podem queixar-se – e muitos se queixam, mas apenas em surdina – de não poderem escolher livremente os candidatos, ou mesmo candidatar-se a deputados para a Assembleia da República e ficarem limitados a escolher, como se disse, uma entre as quatro ou cinco “listas” – por ordem fixa! – feitas ditatorialmente pelos chefes dos partidos. Foi para corrigir essa anomalia que já publiquei (4) uma “Proposta de Alterações à Constituição da República Portuguesa”, que daria aos portugueses a liberdade inerente a uma democracia.

Voltando aos erros que têm sido cometidos e que são responsáveis pela nossa posição no mundo, eles têm abundado exactamente na economia, o sector do Dr. Miguel Cadilhe. Na agricultura, um importante sector da economia que os nossos economistas tentam minimizar e destruir, é verdadeiramente criminoso o que tem sido feito e que o Pais tem pago bem caro. Parece que não compreendem que os erros ali cometidos são o começo do hara-kiri que deitou abaixo o governo do PSD em 1995, o do PS em 2002 e é capaz de deitar abaixo o da actual coligação em 2006. Veja-se o que escrevi recentemente (5) sobre o futuro da agricultura, em dúzias e dúzias de artigos ao longo de algumas décadas e até numa carta publicada no TIME de 22-11-2004.

Era bom que os portugueses aprendessem com as lições do passado e tentassem ver onde estão os males, em vez de os atribuírem a causas fictícias.

1 - Mota, Miguel. 1994 – Achegas para o novo Estatuto da Carreira Docente Universitária. Publico de 2 de Julho de 1994

2 - -------------------- 1995 – A propósito da criação da Escola Superior Agrária de Elvas. O Ensino Superior Agrícola. Linhas de Elvas de 5 de Maio de 1995

3 - -------------------- 2001 - Um novo esquema para o Ensino Superior. Correio da Manhã de 26 de Junho de 2001

4 - ---------------- 2002 – Proposta de Alterações à Constituição da República Portuguesa. INUAF Studia, Instituto Universitário D. Afonso III, Ano 2, Nº 4. 2002

5 - -------------------- 2004 – O futuro da agricultura portuguesa. Linhas de Elvas de 11 de Novembro de 2004

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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética.

O povo que não queria ser “descolonizado”

Publicado no “Jornal do Centro” de 10-10-2003:

A propósito da polémica originada pelas honras militares prestadas na trasladação dos restos mortais do tenente coronel Maggiolo Gouveia, são escassos, na comunicação social, os relatos de muitos factos que ocorreram em 1974 e 1975. Porque os que têm muito mais completo conhecimento desses factos não parece querem relatá-los – assim contribuindo para que as mentiras vinguem e proliferem – fica aos que viveram essa época e entendem que não devem ficar no esquecimento alguns aspectos desse período negro da história de Portugal, a tarefa de contar, pelo menos, aquilo que era, então, do conhecimento geral.

Estava-se, em Portugal, em plena ditadura comunista de Vasco Gonçalves-PCP-MFA. (É possível que nem todos os elementos do MFA gostassem dessa ditadura, nem alinhassem com ela. Mas os que ali dominavam, talvez até sendo minoria, eram os oficiais comunistas, filiados ou não no partido). Os comunistas, como se sabe, nunca olharam a meios para atingir os seus fins. E foi assim que não tiveram quaisquer escrúpulos em esquecer todos os bons princípios do "Programa do MFA", apresentado na madrugada de 26 de Abril de 1974, onde taxativamente se declarava que nenhuma modificação importante seria feita sem consulta à população. (Hitler também dizia que "tratados são papéis"…). E foi assim que, abusivamente e com a ajuda de alguns pseudo democratas socialistas, resolveram reconhecer, como "legítimos representantes" de milhões de cidadãos portugueses do ultramar, os grupelhos terroristas, reconhecidamente armados e instigados por potências estrangeiras. E a eles entregar os destinos desses povos, sem qualquer consulta às populações, numa "escravização exemplar", criando ditaduras bem piores do que a que tinha existido em Portugal. Lembram-se das centenas de bons portugueses negros fuzilados na Guiné pelo governo de Luís Cabral? E foi assim que o 25 de Abril roubou a nacionalidade portuguesa a vários milhões de portugueses, sem lhes perguntar se era isso que eles queriam, numa acção vergonhosamente anti-democrática.

Mas o caso de Timor era muito diferente. Para os que não sabiam qual era a situação temos o patético testemunho do Dr. Almeida Santos, então Ministro do Ultramar (embora com o rótulo de Ministro da Cooperação Interterritorial…), após o 25 de Abril. No seu regresso duma visita a Timor, à chegada ao aeroporto, fez uma declaração em que disse ter recebido uma lição de portuguesismo, pois os timorenses eram patrioticamente portugueses. E acrescentou que "não era patrioteirismo barato, mas patriotismo autêntico". Rematou, num tanto agastado, dizendo qualquer coisa como " já que Timor não quer ser descolonizado…"

Quem viu e ouviu essa declaração na TV, só se admirou por o Dr. Almeida Santos ter ficado surpreendido com o que encontrou em Timor, pois sabia-se que essa era a realidade, como foi confirmado por alguns depoimentos posteriores. Como é que o Dr. Almeida Santos, um senhor tão politizado e ainda por cima vivendo em Moçambique, ou seja, bastante mais perto, não sabia que os timorenses eram portugueses e queriam continuar a sê-lo?

Mas os ditadores comunistas que dominavam Portugal – e estavam ao serviço do então poderoso império soviético – não podiam desprezar a possibilidade de ter um tumorzinho comunista instalado naquela zona, uma espécie de Cuba a funcionar ditatorialmente como ponto de apoio naquela região.

O minúsculo partido comunista timorense, a FRETILIN, sem qualquer implantação no território, foi por isso armado com armas entregues pelo exército português, às ordens dos ditadores de Lisboa, para ali tomar o poder. Não foram divulgados muitos pormenores em Lisboa, mas algumas notícias e alguns boatos circulavam na metrópole sobre o que se estava a passar. Soube-se, mesmo, que dois majores comunistas tinham ido de Lisboa a Timor, num avião Boeing 707, para organizar essa pretensa "independência", que não seria mais que uma escravidão a Moscovo.

Maggiolo Gouveia deve ter-se apercebido do que se estava a passar e, como bom português, tomou o caminho que lhe parecia mais de acordo com os sentimentos dos timorenses, que queriam continuar a ser portugueses.

Ao longo dos anos a Indonésia tinha feito algumas tentativas para anexar a parte portuguesa da ilha de Timor, mas desistira, perante o sentimento dos timorenses e já tinha aceite que essa área era parte