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11 de janeiro de 2017
Avaliar cientistas
Publicado no Expresso de 5 de Março de 2016 -
O EXPRESSO noticia que se vai proceder a uma nova avaliação dos centros de investigação científica.
A ciência realizada exprime-se em escritos, os “papers”, na gíria internacional. Mesmo quando o resultado da investigação é algo material, uma variedade nova de trigo, uma nova máquina industrial ou um novo medicamento, há normalmente o paper que o descreve. Se um paper é publicado numa revista prestigiada – e há* medida do impacto de cada uma – é porque o trabalho tem valor. Como nos papers são citados os trabalhos de que cada um é continuação ou com ele está relacionado, o número de citações é outra medida do valor da ciência produzida, mesmo em revistas de pouco impacto.
Se estamos perante vários papers, em revistas de bom impacto e com elevado número de citações, sabemos que estamos perante boa ciência. Se tudo isto é escasso, é porque a ciência é pouca. Isto aplica-se a uma instituição, a um departamento ou a um cientista. E não necessitamos que venha um senhor estrangeiro dizer se a ciência é boa ou má.
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Miguel Mota, Oeiras
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A negro o que foi cortado pelo Expresso e substituído por (...)
*Substituído no Expresso por à
As cheias e a erosão dos solos
Publicado no "Linhas de Elvas" de 25 de Fevereiro de 2016 -
O solo agrícola é algo muito precioso. É ele que está na base da agricultura, seja um pequeno canteiro de alfaces ou uma floresta. Leva dezenas ou centenas ou milhares de anos a formar, mas pode ser destruído em pouco tempo. Há que tudo fazer para o conservar e melhorar.
A área agrícola tem vindo a sofrer reduções muito grandes, com o incremento das áreas ocupadas pelas construções para habitação, indústria, estradas, caminhos de ferro e aeroportos. As recentes cheias, que assolaram várias regiões do país, vieram lembrar outro mal, que é a degradação do solo agrícola em consequência da erosão a que tem estado sujeito.
Aquelas imensas quantidades de água da cor de chocolate arrastam para o mar muitas toneladas da parte mais preciosa do solo de onde foi arrancada.
A melhor forma de combate, para evitar ou reduzir os males das cheias, é actuar sobre toda a bacia de recepção, a área onde cai a água que se vai acumular nas zonas mais baixas, a caminho para um rio ou o mar. Esse combate visa que toda ou parte da água caída nessa área se infiltre no solo. Nas zonas montanhosas, é normalmente possível com a arborização, de forma a conseguir reter a água. Também são úteis, para reter a água e reduzir a sua velocidade, as pastagens de montanha, quando é possível instala-las. Note-se que estas ações têm interesse económico, além da sua importância para evitar ou atenuar as cheias. E a água que se infiltra vai aumentar os aquíferos, um outro ponto importante. As lavouras segundo as curvas de nível são outra forma de evitar o escorrimento superficial.
Por várias vezes lembrei – e outros também o fizeram – que é muito importante a arborização da serra do Algarve, uma faixa de cerca de 100 km de comprimento e 20 km de largura, que vai da serra de Monchique até perto da fronteira com Espanha. Quase toda descarnada, apenas com alguns pontos arborizados é, em grande, parte pouco ou nada produtiva e incapaz de reter a água. Disso muito se ressentem os aquíferos da zona baixa, uma faixa de cerca de 20 km de largura. Monchique, a única parte bem arborizada, é uma boa indicação do que pode ser o resultado da arborização.
Quando, apesar do que se fizer, ainda muita água corre em ribeiras, especialmente com grande inclinação, há processos de correcção torrencial, para atenuar a velocidade da água. No século XX Portugal teve um especialista nessa técnica, o Engenheiro Silvicultor Mário Galo, que deu um bom contributo para a correcção torrencial, através de pequenas barragens de lajes.
Naturalmente, quando a precipitação é muito intensa em curtos períodos ou é muito prolongada, como já tivemos este ano de 2016, mesmo com as melhores técnicas é impossível evitar muitos males.
Preferir produtos portugueses
Publicado no "Linhas de Elvas" de 11 de Fevereiro de 2016 -
Preferir produtos portugueses foi um slogan durante algum tempo na outra ditadura. Por diversas razões, penso que devemos repetir esta frase, especialmente quando temos o país inundado por produtos estrangeiros.
Justifica-se a compra de produtos estrangeiros quando não existem portugueses ou são muito melhores ou mais baratos. Nalguns casos – e isto aplica-se aos produtos agrícolas – é um problema de comercialização. Não há meio de os agricultores perceberem que têm de ser eles a comandar a comercialização dos seus produtos, como faz qualquer fabricante de automóveis ou frigoríficos. Em vez disso, perguntam “Quanto é que me dão?”
A única forma que conheço de resolver esse problema é a associação em cooperativas, se possível de grandes dimensões. A realização que deve servir de modelo foi o Complexo Agro-Industrial do Cachão, que comercializava os produtos com o nome de “Nordeste” e que o 25 de Abril destruiu, existindo agora uma pequena amostra.
Portugal tem excelentes condições para a produção de uva de mesa e alguns raros produtores exportam quantidades apreciáveis. Mas a maioria das uvas que vemos nos supermercados são importadas.
Portugal tem uma grande variedade de queijos de boa qualidade. Mas também há vários estrangeiros. Os portugueses devem pensar que, quando compram um queijo estrangeiro, estão a pagar o ordenado dos trabalhadores do país de onde provém, aumentando o respectivo PIB. Se comprarem um queijo português, dão trabalho a portugueses e aumentam o nosso PIB. Aumentar o PIB é muito importante. Vários índices económicos e financeiros, como o défice ou a dívida, são expressos em percentagem do PIB. Aumentando o PIB, baixamos esses valores.
Estes e muitos outros casos, que se repetem milhares de vezes, fazem grande diferença na economia e nas finanças do país.
Mais um caso de utilização do biogás
Publicado no "Linhas de Elvas" de 28 de Janeiro de 2016 -
Ao longo de algumas décadas, tenho tentado chamar a atenção para o biogás, uma forma de energia renovável que Portugal tem negligenciado. Não sou especialista da matéria mas, alguns casos de que tenho notícia levam-me a pensar que poderia ser extensivamente usado em Portugal, no aproveitamento de estrume, lixos e esgotos.
Lixos e esgotos custam a Portugal muitos milhões de euros, para os armazenar em aterros ou lançar para o mar, depois de passarem por uma ETAR que não é barata. Através da decomposição anaeróbica (na ausência de ar) destes detritos, resulta um gás, metano, composto por um átomo de carbono e quatro de hidrogénio, que pode ser usado para produzir calor, ou em geradores de electricidade ou em motores de explosão usados em veículos. O que temos é muito pouco. Além dos estrumes e dos lixos urbanos, o problema da poluição nas zonas de criação de porcos talvez encontre no biogás uma boa solução.
Nos cálculos do custo da produção do biogás, haverá que se contar sempre com o que se poupa nos custos de eliminar essa “poluição”.
No artigo “Energias renováveis negligenciadas”, no Linhas de Elvas de 8-4-2010, referi que os autocarros de transporte público, na cidade sueca de Helsinborg, utilizavam o biogás “produzido numa grande unidade. O líquido sobrante é levado para os campos por pipeline e utilizado pela agricultura, como um óptimo fertilizante.”
Recebo agora a notícia de os esgotos da cidade de Grand Junction, no estado americano do Colorado, serem usados da mesma forma, para produção de biogás, o combustível que alimenta a frota de autocarros e vários camiões.
Na Europa, é na Alemanha que o biogás está mais utilizado e esse país clama que as suas instalações para o produzir são as melhores.
Em Fevereiro de 2009 foi criada a Associação Europeia do Biogás (European Biogas Association, EBA, em inglês), com sede em Bruxelas. Portugal não é sócio.
Leguminosas
Publicado no "Linhas de Elvas" de 15 de Janeiro de 2016 -
A FAO declarou 2016 o Ano internacional das leguminosas. O objectivo é aumentar o cultivo e o consumo das plantas deste grupo, com vantagem para a melhoria do solo agrícola onde são cultivadas, e da saúde das pessoas e animais que as consomem.
As leguminosas são das plantas com maior teor de proteínas, variadíssimos compostos químicos formados por um grande número de aminoácidos. Estes são apenas 20 mas, tal como peças de Leggo, é possível formar com eles variadíssimas proteínas.
Os animais não são capazes de fabricar aminoácidos, que são apenas sintetizados pelas plantas. Como são essenciais à vida, os animais têm de comer plantas ou animais que comeram plantas para os adquirirem.
O valor das leguminosas para a melhoria dos solos resulta de viverem em simbiose – uma associação com beneficio para ambos – com bactérias capazes de captarem o azoto do ar e sintetizarem compostos azotados, algo que o homem é capaz de fazer, mas com elevado consumo de electricidade, para produzir os nitratos, adubos muito usados na agricultura.
A bactéria, de seu nome científico Rhizobium leguminosarum, forma pequenos nódulos nas raízes, fáceis de ver quando se arranca uma faveira, um trevo ou qualquer outra leguminosa. Vive à custa da planta. Mas cede-lhe grande parte dos compostos azotados que fabrica a partir do azoto do ar pelo que, ao contrário das gramíneas, como o trigo, não necessitam de adubos azotados. E os resíduos que deixam no solo, tornam este mais fértil que antes dessa cultura.
Como quaisquer outros seres vivos, também as bactérias apresentam variabilidade genética e algumas são mais eficientes que outras na captação do azoto do ar. A investigação agronómica selecionou estirpes mais eficientes do que as que geralmente existem no solo e hoje não se justifica a cultura de leguminosas sem inocular as sementes com uma estirpe apropriada do Rhizobium. Nos artigos sobre “O azoto”, que publiquei no Linhas de Elvas em 2010, relatei os ensaios realizados na década de 1950, na Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas, pelo Prof. Villax, ensaios que acompanhei e fotografei. Como se pode ver nas fotografias, é espetacular a diferença de desenvolvimento entre os talhões das plantas inoculadas e das não inoculadas.
Quando me encontrava a trabalhar na tese então necessária, descansava um tanto desse trabalho escrevendo um pequeno livrinho, que editei em 1954, intitulado “Uma guerra entre as plantas”. Embora também entrem humanos, as principais personagens são plantas de duas famílias, a das Gramíneas e a das Leguminosas, que travam entre elas uma guerra surda. O chefe das Gramíneas é o Senhor Trigo, que mostra um certo desdém pelas Leguminosas. Estas, sentindo-se diminuídas, enviam uma delegação aos engenheiros agrónomos da Estação de investigação para saber como podem melhorar a sua situação. Quando lhes são referidas as verrugas nas raízes, confessam-se envergonhadas por esse “defeito”. É-lhes explicado que, ao contrário, devem orgulhar-se de tão valiosa qualidade.
Ao fim de alguns ensaios e demonstrações em que entram membros das Gramíneas e das Leguminosas, compreendem que não há razão para se guerrearem mas antes para colaborarem. O que era uma guerra entre as duas famílias termina com um final feliz, num almoço de confraternização.
A pesar de tudo isto, que já é tão antigo, creio que a agricultura portuguesa ainda semeia muitas leguminosas sem inoculação.
Trocar o bio pelo eco
Publicado no "Linhas de Elvas" de 10 de Dezembro de 2015 -
Todos os seres que a agricultura usa, nomeadamente animais e plantas, são seres biológicos. Por essa razão, dizer que há batatas ou ovelhas “biológicas” e outras que o não são é, no mínimo, ridículo, por mostrar ignorância. No entanto, essa ridícula designação está a ser usada por alguns países, entre os quais Portugal e a França.
A Inglaterra e os Estados Unidos usam uma designação igualmente errada. Chamam a essa agricultura “orgânica”, como se houvesse batatas ou ovelhas inorgânicas. Apenas critico, pelas razões indicadas, os nomes usados para designar esse tipo de agricultura
Há países que chamam a essa agricultura “ecológica”, nome que me parece aceitável, por se aproximar do processo ecológico natural.
O nome biológico é frequentemente abreviado para “bio”. A minha proposta é que se inicie em todos os países uma intensa campanha para trocar o nome “bio” pelo nome “eco”, para designar os produtos “ecológicos”.
A ciência em Portugal no século XX
Publicado no "Linhas de Elvas" de 26 de Novembro de 2015 -
O facto de se apresentar o que se fez em tempos recentes sobre a política científica, sugerindo que o que havia anteriormente seria quase nada, leva-me a escrever algo sobre a ciência em Portugal no século XX. Será certamente muito pouco – nem um artigo de jornal permite obra exaustiva – mas penso que pode mostrar que a situação – que não era boa, como hoje ainda não é – não era a nulidade que alguns pretendem insinuar.
Convém lembrar a investigação científica portuguesa que foi destruída nestes últimos quarenta anos, em obediência à lei – que parece que ninguém quer ver, mas é bastante evidente – que manda extinguir todas as instituições científicas públicas que não sejam das universidades.
(A não ser quando é possível roubá-las para dar a uma universidade, como já sucedeu). Ao que agora se fez de bom, há que descontar o muito que se destruiu.
Na falta de uma Bibliografia Científica Portuguesa, tentarei listar alguns casos de que tive conhecimento, uma pequena amostra que, espero, seja suficiente para mostrar que, nos três primeiros quartéis do século XX, a ciência em Portugal, não era o deserto que se tenta fazer crer e tinha alguma repercussão no estrangeiro.
Na investigação médica contavam-se alguns casos com repercussão no estrangeiro, principalmente em França, ao tempo um país de boa ciência. Lembro que o único Prémio Nobel da ciência que existe em Portugal é desse tempo.
Em 1936, com o ministro da Agricultura Rafael Duque, deu-se um grande passo em frente para a ciência em Portugal. Pelo Decreto-lei nº 27.207 foi criada a Estação Agronómica Nacional, destruída nestes últimos trinta anos. Não se tratou de uma simples alteração do nome da antiga Estação Agrária Central de Lisboa, como erradamente está escrito em publicação recente, mas da fundação de um instituto de investigação, em tudo comparável aos seus congéneres estrangeiros. No mesmo Decreto é criada a carreira de investigador científico, paralela à carreira do professorado universitário. Modelarmente delineada pelo Professor António Câmara, que deixou a sua cátedra no Instituto Superior de Agronomia para assumir a direção, em breve a Estação Agronómica dava ao país mais dinheiro do que o que nela foi investido. A solução do grave problema da maromba, uma doença das vinhas do Douro, é um bom exemplo.
A prova da excelência do modelo criado é que ele foi adoptado por todos os institutos posteriormente fundados, o primeiro dos quais, dez anos depois, foi o Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
É natural que a produção de artigos científicos – hoje o principal factor de avaliação das universidades – não fosse tão abundante, até porque alguns desses trabalhos demoram anos. Muito está publicado em português. Mas a sua repercussão na economia foi muito grande. Portugal tem hoje muito menos dessa tão necessária investigação e a economia e as finanças estão como se sabe. Em 1973 o PIB crescia a 7%.
Em 1945, a Genética tinha quatro grupos activos, liderados por Abílio Fernandes e José Serra na Universidade de Coimbra, António Câmara, na Estação Agronómica Nacional, em Sacavém, mais tarde Oeiras, e Flávio Resende na Universidade de Lisboa. Esses grupos cresceram em número de investigadores e na década de 1950, pela sua produção científica, eram talvez o melhor da ciência portuguesa. Como exemplo, direi que em 1947, quando me encontrava no Departamento de Genética da Estação Agronómica, a elaborar a tese então necessária para se ser engenheiro agrónomo, dois cientistas desse Departamento publicaram na conceituada revista “Nature” um artigo que teve grande repercussão e originou mais investigação, principalmente na Suécia e nos Estados Unidos.
A partir da década de 1950, a Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas, produzia regularmente novas e mais produtivas variedades de cereais e forragens que deram à agricultura um valor muitas vezes superior ao que o estado nela investiu. E se esses organismos produziam ciência de directa aplicação é porque também dispunham de laboratórios de genética, fitopatologia, química, estatística, microscopia electrónica e outros.
De tudo isto, após a destruição, restam migalhas, num organismo designado INIAV. Basta ver os nomes dos seus componentes, antigas estações e departamentos, para se perceber que quem o delineou não tinha a mínima noção do que é a investigação agronómica.
“Agricultura convencional”
Publicado no "Linhas de Elvas" de 16 de Julho de 2015 -
Tenho visto recentemente referências a “agricultura convencional”, como algo oposto a agricultura moderna. Na minha opinião, isso pressupõe que a agricultura estaria parada no tempo e sem qualquer alteração, o que não é verdade. A agricultura sempre foi alterando técnicas, criando novas máquinas, melhores fertilizações, etc. Varia bastante a intensidade e amplitude dessas modificações, conforme os países têm melhores ou piores governos.
Não há espaço, num artigo, para fazer uma panorâmica, ainda que bastante sintética, da evolução verificada. Mas, mesmo nas últimas décadas em que os governos de Portugal andaram deliberadamente a destruir a agricultura – apenas favorecendo os importadores de produtos agrícolas – com o máximo de destruição durante o governo PS de Sócrates, alguns raros casos conseguiram progredir. Produtores de pera Rocha, por exemplo, remando contra a maré, conseguiram algum progresso.
A partir de 2011, com a ministra Assunção Cristas, o panorama alterou-se radicalmente. Não só foi travada a destruição em curso como alguns casos de interesse, como o estímulo aos jovens agricultores, puseram o sector a crescer mais do que o resto da economia. Enquanto anteriormente era clamor geral que a agricultura portuguesa não tinha qualquer futuro, era para acabar ou até já nem existia, agora todos lhe fazem os maiores elogios.
Infelizmente, a ministra não fez o que eu gostaria, que indiquei em escritos e que considero essencial para haver uma agricultura muito melhor. Como se sabe, trata-se de ampliar a investigação agronómica e organizar convenientemente a extensão rural. Na série de artigos “A nova equipa na Agricultura”, publicados no Linhas de Elvas de 7-7 a 15-9-2011, mostrei o que seria necessário fazer e que resultados se conseguiriam. Se tivesse sido feito, neste final de legislatura, quatro anos passados, já teriam sido colhidos resultados que aumentariam ainda mais o crescimento da agricultura. Não vale a pena clamar que é preciso inovação e manter a fonte dessa inovação no nível em que está, uma pequena fracção do que existia antes da criminosa destruição efectuada.
O excelente Instituto Nacional de Investigação Agronómica (INRA) do Ministério da Agricultura de França, em face do previsto aquecimento global, já orientou o seu trabalho de melhoramento de cereais para a criação de variedades mais resistentes à secura. E são exemplos como este que Portugal devia seguir.
São estas as razões que me levam a não compreender o que é “agricultura convencional”.
Os cereais no Alentejo - 3
Publicado no "Linhas de Elvas" de 4 de Junho de 2015 -
Para concluir a série de artigos sobre o que considero importante para, eventualmente, permitir cultivar economicamente trigo no Alentejo – e não só no Alentejo, mas principalmente nesta província – (Linhas de Elvas de 21-5 e de 4-6-2015), tratarei hoje do problema das rotações das culturas, ou seja, a sequência de espécies vegetais a cultivar no mesmo terreno ao longo de um certo número de anos.
Antigamente, depois de ter sido criada a Federação Nacional dos Produtores de Trigo (FNPT), a única cultura de que o agricultor sabia que teria toda a sua produção vendida e a preço conhecido era o trigo. Por essa razão, particularmente no Alentejo, era dada grande ênfase a essa cultura. As rotações eram geralmente pobres. Não eram raros os casos em que, a uma cultura de trigo, apenas com fertilização mineral, se seguiam um ou mais anos de pousio, só algumas vezes revestido com uma forragem, para voltar a fazer trigo. Nalguns casos, entre o trigo e o pousio, ainda se fazia um ano de aveia, para aproveitar os restos da fertilização. Este sistema, durante algumas décadas, reduziu grandemente o nível de fertilidade de muitos solos. Havia algumas honrosas excepções, mas não eram muitas.
Como o trigo é uma esgotante, eu acredito que, rotações das culturas em que entrem mais abundantemente plantas melhoradoras, como as leguminosas, possam elevar o nível de fertilidade do solo de forma a aumentar significativamente a produção de trigo. Há bons exemplos a demonstrá-lo. No III Congresso Internacional de Lupinus (o género a que pertencem os tremoços), um agrónomo americano descreveu ensaios com Lupinus angustifolius, o tremoço de folha estreita, que existe espontâneo em Portugal. Dos seus resultados concluiu que “aquela cultura seria económica, mesmo deitando fora a colheita”. A razão é que a melhoria da fertilidade do solo causava um bom aumento na cultura que se seguia.
Em Portugal têm sido feitos vários estudos de rotações. Todos são valiosas contribuições mas ainda é necessário fazer muito e penso que falta, para o sequeiro alentejano, um ensaio de grande amplitude e com variadas composições, que dê uma informação precisa e economicamente quantificada, para poder ser usada em larga escala. Em Elvas, na Estação de Melhoramento de Plantas, na década de 1950, alguns ensaios mostraram a espectacular diferença que se conseguia com o incremento da cultura de algumas espécies forrageiras que, além de permitirem um grande aumento do número de ovelhas por hectare, aumentavam o nível de fertilidade do solo.
Há algumas décadas, fiz uma tentativa para a realização de um ensaio em larga escala, de grandes dimensões e com uma equipa multidisciplinar. Cada talhão do ensaio teria 100 metros de comprimento e uma largura que desse, com folga, para uma ceifeira ou ceifeira debulhadora, para as culturas serem mecanizadas. Com talhões desta dimensão e o número de repetições que o estatístico considerasse adequado, o erro experimental seria mínimo. Isto exige um campo com 150 metros de largura e 300 a 400 metros de comprimento, que não é difícil encontrar no Alentejo. Abordei a Fundação Eugénio de Almeida que, pela voz do seu então Administrador Delegado, dispensava a área necessária. Tudo o mais teria de ser do Projecto.
Contactei vários colegas, da Universidade de Évora e de outras instituições como a Estação Agronómica Nacional e a Estação de Melhoramento de Plantas, alguns dos quais estavam interessados em fazer parte da equipa. Essa equipa incluiria especialistas de cultura de cereais e forragens, química do solo, fitopatologia, nematologia, estatística, economia e mais alguns que se considerassem necessários. As rotações, a delinear em pormenor, começariam com uma bianual, trigo-forragem. Depois, uma série de combinações, a terminar com uma de cinco anos em que os primeiros quatro anos seriam de forragem seguidos de um de trigo. O campo seria acompanhado pelos diversos especialistas ao longo do ano, para recolha dos dados que considerassem necessários.
Ao fim deste ciclo de cinco anos já deveria haver informação muito valiosa mas, naturalmente, deveria ser continuado por outros cinco anos, para confirmação e ampliação dos dados. O objectivo era determinar o valor económico de cada rotação pois, como já vimos, uma cultura pode não dar lucro, mas deixar o solo mais rico, a beneficiar a cultura seguinte.
Abordei várias entidades para obter financiamento para o projecto, mas nenhuma se mostrou receptiva. Os resultados deste tipo de investigação, generalizados a muitos milhares de hectares, produzem retorno de várias vezes o valor neles investido. Ou seja, rendem juros que os nossos economistas não sabem que existem, mas são reais.
Calculando por baixo e considerando uma rotação que dê anualmente mais 100 € por hectare do que a que o agricultor usa actualmente – acredito que se consegue muito mais – e que é aplicável a uns 50.000 hectares, o PIB seria aumentado em 5 milhões de euros todos os anos.
Os cereais no Alentejo - 2
Publicado no "Linhas de Elvas" de 4 de Junho de 2015 -
Continuando a explicação, iniciada no Linhas de Elvas de 21-5-2015, das razões porque considero importantes a drenagem dos solos e as rotações das culturas, para aumentar a produção de trigo em condições económicas no Alentejo, tratarei hoje da drenagem. Baseio-me nas observações do Eng.º agrónomo Sardinha de Oliveira, em relação à meteorologia, e nalguns casos posteriores que as confirmam.
O Eng.º Sardinha de Oliveira mostrou que, nos anos de inverno chuvoso, a produção de trigo era baixa, por muitas terras ficarem alagadas e as raízes não poderem crescer em profundidade. Como no Alentejo se passa muito rapidamente de um inverno frio e chuvoso para um verão quente e seco, as raízes superficiais não dão defesa contra a seca. Se o inverno foi pouco chuvoso e o campo não ficou saturado de água, as raízes não sofreram asfixia, cresceram em profundidade e, chegado o tempo quente, puderam aproveitar a água que ainda se conservava nas camadas inferiores do solo. Alguns anos de seca levaram pessoas experientes a declarar que, nas searas, se iria colher gelha. Os resultados, não sendo os de um ano bom, foram muito melhores do que muitos esperavam.
Do artigo “A drenagem das terras e a produção de cereais” ("Linhas de Elvas" de 27 de Maio de 1994), transcrevo:
“No ano agrícola 1988-1989, que se seguiu a anos de inverno chuvoso, as condições meteorológicas nesse período crítico invernal foram muito favoráveis e, num artigo (Drenagem e Rotações. Dois temas de grande importância para a agricultura do Alentejo. DIAgrícola, Suplemento do “Jornal de O DIA”, Nº 14, de 20 de Junho de 1989) escrito em princípios de Maio de 1989, previa que fosse ‘um ano bom de trigo – talvez mesmo um ano excepcionalmente bom.’.
Algumas chuvas no período primaveril vieram ajudar. As minhas previsões confirmaram-se e a produção de trigo em Portugal, foi, nesse ano, cerca de 50% superior à média do decénio, o que vem reforçar a ideia da grande importância da drenagem dos solos, como chamei a atenção noutro artigo no mesmo jornal.”
Também tratei de drenagem e rotações no artigo "Que fazer com 900 mil hectares de sequeiro no Alentejo" ("Correio Agrícola" nº 164, Outubro de 2002), em resposta ao artigo "Que fazer com 900 mil hectares de sequeiro no Alentejo?", no jornal "Público" de 14-6-2002.
Destes factos podemos concluir que a solução é conseguir que nunca a água se acumule de forma a saturar o solo, ou seja, instalar um bom sistema de drenagem, pelo processo mais adequado ao local. Quando isso se generalizar, desaparecem os anos maus causados por um inverno muito chuvoso.
Os cereais no Alentejo - 1
Publicado no "Linhas de Elvas" de 21 de Maio de 2015 -
O programa “Olhos nos olhos”, na TV, em 6 de Abril de 2015, teve como convidado o ex-ministro da Agricultura Capoulas Santos, que fez uma equilibrada apreciação da agricultura portuguesa, focando o desenvolvimento dado nos últimos anos e salientando a grande importância do Alqueva.
Referiu a recente diminuição do défice comercial agrícola, pois agora exportamos mais e importamos menos produtos agrícolas. Lembrou que a importação de cereais pesa muito no défice, pois a nossa produção de trigo, foi diminuída.
O Dr. Medina Carreira perguntou “e não tem solução?” Na sua resposta, o Dr. Capoulas Santos não indicou qualquer forma de reduzir o défice em cereais, mas disse que a ideia será compensar esse défice com as exportações de produtos que mais facilmente podemos produzir, como vinho, azeite, hortícolas e frutas.
O problema do défice do trigo, é grave, não só pelo custo das importações mas porque é um bem essencial. Se ficarmos sem a importação, por motivo de guerra, por exemplo, as privações serão muito grandes. Lembro sempre que os povos são mais facilmente derrotados pela fome do que pelos canhões. Na Idade Média, a menos custosa forma de conquistar uma cidade era cercá-la e esperar que a comida acabasse.
Admito que, mesmo no sequeiro alentejano, possa vir a ser viável a cultura do trigo. Para além de novas e melhores variedades, que a investigação agronómica portuguesa produzia com regularidade, antes da destruição a que foi submetida e de que ainda não recuperou, considero particularmente importante duas práticas agrícolas bem conhecidas: a drenagem dos solos e as rotações das culturas. Sobre esses dois temas tenho publicado muitos artigos, vários deles neste jornal, o mais recente “A drenagem” (24 de Abril de 2013), mas também noutras revistas e jornais para agricultores.
Correndo o risco de me repetir, irei desenvolver mais os dois temas porque a resposta do ex-ministro Capoulas Santos à pergunta do Dr. Medina Carreira sugere não acreditar nessa possibilidade. O leitor pode pensar que sou eu que estou errado, que esses dois temas não têm a importância que lhes atribuo, e poderá concluir que o Alentejo terá mesmo que deixar de cultivar trigo ou, como actualmente, em área muito limitada, longe da produção necessária e obrigando a avultadas importações. Isso seria extremamente grave para o país, pelas razões indicadas, o que torna importante envidar todos os esforços para que tal não aconteça ou sejam reduzidas as quantidades a importar.
Os elementos em que me baseio são suficientemente evidentes para manter a minha opinião. Para os transmitir aos leitores será necessário um desenvolvimento, que apresentarei em próximos artigos. Mas vi recentemente que, no último meio século, enquanto Portugal reduziu a sua produção de trigo, a Espanha triplicou-a.
Uma sessão sobre a PAC
Publicado no "Linhas de Elvas" de 23 de Abril de 2015 -
Durante a sua visita a Portugal, o Comissário para a Agricultura da União Europeia, Phil Hogan, realizou algumas visitas e participou em várias reuniões. Uma dessas reuniões realizou-se no auditório da ex-Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, em 9-4-2015. O tema foi discutir a PAC (Política Agrícola Comum) 2014-2020. Presidiu a ministra da Agricultura e do Mar Assunção Cristas e teve a participação de numerosos técnicos e agricultores, alguns deles dirigentes de organizações da agricultura, como o Presidente da CAP, João Machado.
Abriu a sessão a ministra Assunção Cristas, que fez um relato do que foi a viragem da situação da agricultura portuguesa.
Permita-se-me um parêntesis para lembrar como, ao longo de vários anos e em diversos escritos, denunciei a deliberada destruição da agricultura que vinha sendo feita por governos PS e PSD. O máximo de intensidade de destruição foi atingido no governo PS de Sócrates. E por toda a parte e de muita gente, mesmo de quem nada sabia do assunto, se lia nos jornais e se ouviam clamores de que a agricultura não tinha qualquer futuro em Portugal e até que já nem havia agricultura! Sempre combati esses clamores, que sabia profundamente errados, pois conheço as potencialidades da agricultura portuguesa, apesar de variadas dificuldades. Com a actual ministra, a situação passou a ser totalmente diferente e cedo se viu esse facto. Poucos meses depois da posse, num Prós e Contras, na TV, mostrou uma enorme determinação de fazer muito melhor, além de uma dose de informação, para mim agradavelmente surpreendente, numa pessoa jovem e vinda de um sector muito diferente. E, desde então, todos cantam loas à agricultura, como a grande esperança no futuro.
Reatando o fio da meada, agradou-me o discurso da ministra. Descrevendo o aumento das exportações agrícolas, vários pontos acima da média nacional (devido à grande debilidade dos outros sectores da economia e a vitalidade deste), mostrou como foi reduzido o défice comercial agrícola, apenas nestes quatro anos. (Lembro o meu artigo intitulado “De 3 mil milhões de défice para 3 mil milhões de superavit”, no Linhas de Elvas de 5-1-2012). Também não se coibiu de dizer que discordava de alguns pontos da actual PAC.
Seguiu-se o discurso do Comissário Phil Hogan, que foi agradável e, pelo menos, a mostrar-se sincero. O debate que se seguiu foi moderado pelo secretário de estado da Agricultura José Diogo Albuquerque. Variadas pessoas da assistência, incluindo dirigentes de associações agrícolas e de sectores como a cortiça, a produção de porcos e outros, puseram questões, a que o Comissário respondeu..
Pareceu-me uma reunião útil e fiquei com a impressão de que este Comissário da Agricultura é algo melhor que os anteriores, que considerei francamente maus, em resultado da forma como acturam. E lembro que a PAC foi iniciada, com grande êxito, pelo primeiro Comissário, para colmatar a deficiência de 50% de produtos alimentares, do conjunto dos seis países fundadores. Esse Comissário foi Sicco Mansholt, um agrónomo holandês de alto nível, que depois foi Presidente da Comissão. Os calamitosos erros da PAC vieram mais tarde, antes mesmo de Portugal aderir à então CEE.
Armando Sevinate Pinto
Publicado no "Linhas de Elvas" de 9 de Abril de 2015 -
Como foi amplamente noticiado na comunicação social, faleceu no dia 29 de março o Engenheiro Agrónomo Armando Sevinate Pinto. Era um especialista de alto nível em Economia Agrícola, que exerceu elevadas funções no Ministério da Agricultura português, na Comissão Europeia e foi ministro da Agricultura no governo de Durão Barroso. Grande apaixonado pela terra, foi valiosa a sua contribuição para várias instituições.
Estive com ele por duas vezes no seu gabinete em Bruxelas, quando ele era Director do FEOGA (Fundo Europeu de Orientação e Garantia Agrícola), sendo responsável pela distribuição de muitos milhões de contos. Os temas que fui tratar eram principalmente os relativos às escassas verbas que a então CEE dedicava à investigação agronómica, o que eu considerava um erro.
Nem sempre concordei com o Sevinate Pinto. Por exemplo, num jantar na Ordem dos Engenheiros, em que participou quando era ministro, critiquei, no debate, a fusão do Instituto Nacional de Investigação Agrária com o Instituto Nacional de Investigação das Pescas, que só têm afinidade, como com muitas outras, serem dedicadas à investigação científica. E perguntei-lhe o que é que ganhava, apenas economizar um Presidente? A resposta, esfarrapada, foi que era para agilizar.
Neste caso acredito que a imposição viesse de cima. Há muito estava em vigor, como continua, uma “lei” não escrita, que manda destruir todos os organismos de investigação científica públicos que não sejam das universidades. É uma “lei” bastante evidente mas parece que nem os mais directamente afectados querem ver. Ao abrigo dessa “lei”, usam o conhecido método de não extinguir duma só vez, aquilo que se quer fazer desaparecer. Se o fizessem, isso poderia dar violenta reacção que talvez comprometesse o objectivo. Começa-se por cercear meios para fazer o sector definhar. Depois, vão-se juntando parcelas, para que cada entidade vá ficando mais pequena. Nas instituições de investigação científica começa-se por juntar departamentos; depois juntam-se instituições, mesmo que sejam de campos bem diferentes. Quando tudo já está muito reduzido, a sua extinção já não causa grandes protestos.
Há uma alternativa à destruição. É roubar a instituição ao ministério em que se encontra e entrega-la a uma universidade. Que eu saiba, isso já foi feito, pelo menos, a duas instituições e preparavam-se, recentemente, para o fazer a outra. Numa conferência na Universidade de Évora, há uns anos, declarei que, como Professor Catedrático, me sinto insultado por essa prova de mediocridade e inveja.
Em Portugal, para a investigação científica, este processo está em marcha há pelo menos três décadas e o que o país já perdeu com tal destruição, só em termos económicos, é algo fabuloso. A investigação científica, convém lembrar, é a fonte principal da agora muito badalada “inovação”.
A última vez em que estive com Sevinate Pinto foi há pouco mais de dois anos, em Serpa, em casa dum colega de curso, também grande especialista de Economia Agrícola. Para comemorar o seu aniversário, convidou para um almoço numerosos amigos, entre os quais colegas, alguns da sua especialidade, um deles igualmente antigo ministro da Agricultura, Fernando Gomes da Silva. Calhou-me ficar na mesma mesa que o Sevinate, o que permitiu uma mais longa troca de impressões sobre os problemas da agricultura.
O desaparecimento de tão ilustre agrónomo é certamente uma perda para a agricultura portuguesa.
A responsabilidade do chefe
Publicado no "Linhas de Elvas" de 26 de Março de 2015 -
Em qualquer organização, civil ou militar, em que haja uma hierarquia, cada sector tem, normalmente, um chefe. Está na moda, recentemente, fazer distinção entre “chefe” (mau) e “líder” (bom). Dá-me vontade de rir, pois um chefe é sempre um líder. O que há é bons chefes e maus chefes.
A um chefe são dados alguns poderes, sem o que o sistema não funcionaria. Mas também são dadas responsabilidades. Por definição, tudo o que se passa no sector a cargo de um chefe, é da sua responsabilidade, seja bom ou seja mau. A não ser que haja interferência de um escalão superior – do chefe do chefe – caso em que cessa a responsabilidade do chefe do sector, pois passa a ser transferida para o escalão superior que fez a intervenção.
Ocorreram recentemente vários casos em que os chefes, normalmente de grandes sectores, tentaram desculpar-se de erros, atribuindo-os a alguns subordinados, e alegando que não tinham tido conhecimento. Tivessem ou não tivessem tido conhecimento, e sem ilibar do erro quem o cometeu, a responsabilidade do chefe continuava a existir. Até demonstrava que o chefe não tinha suficiente controlo do que se passava no sector a seu cargo.
Se é um facto que na natureza humana há, com maior ou menor gravidade, falhas e erros, há que os evitar. Se ocorrem alguns de muito más consequências, é natural que haja lugar a punições. Alguns dos poderes do chefe referem normalmente o grau de punições que podem aplicar.
Durante os muitos anos em que exerci o cargo de Chefe do Departamento de Genética da Estação Agronómica Nacional, algumas vezes chamei a atenção de funcionários do Departamento, dizendo para tentarem não cometer erros porque “os vossos erros são também erros meus”.
4 de maio de 2015
A vespa asiática
Publicado no "Linhas de Elvas" de 2 de Outubro de 2014
A juntar à lista de pragas e doenças que afligem as abelhas e causam prejuízos aos agricultores, apareceu agora uma vespa, de nome científico Vespa velutina nigritorax, também chamada vespa asiática que, além de agravar as condições económicas da agricultura, é também capaz de atacar pessoas.
Tenho informação de que o ministério da Agricultura está a tratar do assunto. Mas vi notícias de que, no Norte do país, onde o ataque tem causado prejuízos nos apiários, o combate à praga está a ser feito por outros ministérios, nomeadamente os do Ambiente e da Administração Interna.
Não posso deixar de lembrar que a Estação Agronómica Nacional, antes da destruição levada a cabo por vários governos, possuía um Departamento de Entomologia, com bons investigadores, que certamente estaria indicado para o combate à nova praga, como fez em vários casos em que teve de actuar. Menos de dez anos depois da criação da Estação (pelo Decreto-lei 27.207, de 16 de Novembro de 1936), o Departamento de Entomologia, de que era Chefe o Eng.º Agrónomo Alexandre José Duarte, dirigiu, em 1944-1945, o combate a uma praga do gafanhoto Dociostaurus maroccanus, que estava a causar prejuízos à agricultura.
Portugal está cada vez mais vulnerável e com menos capacidade para se defender de ataques à sua agricultura, como este que agora surgiu. É extraordinária a incapacidade dos nossos governantes, particularmente nos últimos quarenta anos, para compreenderem que o dinheiro “gasto” com os laboratórios de investigação do estado independentes das universidades é um fabuloso investimento. Não conseguem perceber que o eficiente combate a uma praga ou doença custa muito menos que o prejuízo que elas causam. E um combate eficiente só é possível com bons investigadores ou com pessoas ensinadas ou dirigidas por eles. Há muitos bons exemplos a demonstrá-lo.
Associações de agricultores
Publicado no "Linhas de Elvas" de 21 de Agosto de 2014
No mesmo número da revista “Empresas & Negócios” de que comentei a notícia sobre o melhoramento genético do arroz (LE de 31-7-2014), é referida uma entrevista com a ministra Assunção Cristas, que exortou os jovens a agregarem-se em associações ou cooperativas de agricultores. É realmente importante esse conselho e há dezenas de anos que escrevo que a única forma de os agricultores, individualmente, deixarem de ser explorados pelos comerciantes é a associação em cooperativas, para terem dimensão, já que a maior parte da produção agrícola vem de pequenos ou médios empresários.
Mais de uma vez citei o caso do Cachão, a cooperativa agrícola do Nordeste Transmontano. Uma cooperativa daquela dimensão exige um gestor de grande capacidade, algo muito escasso em Portugal. Mas já não será tão difícil, pelo menos para iniciar, fazer uma cooperativa de menores dimensões.
Não cabe ao Ministério da Agricultura organizar essas cooperativas. Mas é tarefa dum serviço de extensão rural – que o ministério devia ter – sugerir e ensinar como se organizam e como devem funcionar, pois nem sempre da parte dos agricultores há a iniciativa e os conhecimentos necessários para que elas se concretizem. Algumas das actuais podem servir de modelo e se, em outras, há deficiências de funcionamento, há que chamar a atenção e sugerir as modificações necessárias para maior eficiência. Não deve ser esquecida a produção de publicações e vídeos sobre o tema, para serem distribuídas em larga escala, algo que o ministério em tempos fez bastante bem.
Há poucos dias vimos na televisão a notícia dos protestos de produtores de batata, que não conseguiam escoar os seus produtos. Não sabiam a solução para o seu problema. Ela certamente não nasce desses protestos.
O número de doutoramentos
Publicado no Público de 17 de Agosto de 2014
Governos das últimas décadas, principalmente os do PS, apregoaram como, nos últimos tempos, aumentou muito o número de doutorados em Portugal. A afirmação está correcta mas exige algum esclarecimento para que quem está longe destes assuntos não fique com a ideia de que Portugal não tinha, no antigamente, gente qualificada ao nível de doutoramento.
Durante muitos anos, o doutoramento não estava no percurso normal de algumas carreiras. Nos grandes laboratórios de investigação, iniciados em 1936, com a criação da Estação Agronómica Nacional (EAN), a progressão na carreira (paralela da carreira docente universitária) era feita por concursos.
(Não estou a defender ou a atacar os sistemas então vigentes. Estou apenas a constatar factos. Aliás, concordo com o sistema actual). Por estas razões, existiam, nessas instituições, pessoas de muito alto nível científico, bem para além do nível do doutoramento.
Mesmo nas universidades, as admissões e progressão na carreira eram frequentemente feitas por convite ou por concursos, documentais ou de provas públicas. Muitos professores catedráticos e até reitores nunca tinham feito o doutoramento, embora tivessem nível muito superior ao de um recém-doutorado. O Eng.º Manuel Rocha, fundador e primeiro Director do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), nunca fez o doutoramento. Recebeu mais tarde, merecidamente, o grau de Doutor Honoris Causa. Faleceu recentemente um professor catedrático do Instituto Superior Técnico, o Eng.º J. Delgado Domingos, que nunca fez o doutoramento, o que não o impediu de ser uma figura importante na ciência.
Em Espanha, o curso de engenheiro agrónomo era semelhante ao que havia em Portugal e exigia, após os cinco anos de cadeiras, uma tese de investigação original que levava, em média, três anos a completar. Quando a Espanha mudou esse sistema para um como o proposto pela Declaração de Bolonha, entregou o diploma de Doutor em Agronomia a todos os engenheiros agrónomos que tinham completado o curso com média igual ou superior a 14 valores. (As notas, em Agronomia, tal como em Portugal, eram muito apertadas). Um professor catedrático de Agronomia de Espanha, Mateo Box, que esteve em Portugal como arguente num concurso, disse-me que ele tinha sido um desses casos.
Quando foram criados, em Portugal, os mestrados (que eu sempre considerei um erro), o ministério convidou, através do Instituto Britânico, alguns professores da Universidade de Reading para virem “ensinar” a fazer esse grau. Vieram ver, não só as escolas de ensino superior, mas também as instituições de investigação científica onde se poderiam fazer teses de mestrado. Os de engenharia civil, além do Técnico, foram ver o LNEC. Dois de agronomia foram à EAN. O Prof. Watkin Williams foi ao Departamento de Genética, então da minha responsabilidade. O outro, cujo nome não recordo, foi ao Departamento de Pedologia.
Durante a conversa, o Prof. Williams perguntou-me como era a tese que lhe tinham dito ser exigida até há pouco tempo para se ser engenheiro agrónomo. Disse-lhe que um pequeno número de teses, normalmente com uma classificação modesta, seriam aceites em Inglaterra como teses de mestrado. A grande maioria seria certamente aceite como teses de doutoramento.
Convidei esses dois professores para jantar e, em minha casa, durante a conversa, o Prof. Williams, que sabe espanhol, disse: "Estive na biblioteca da Estação Agronómica a ver teses e tudo o que vi eram boas teses de PhD” (doutoramento). Ouvi mais alguns comentários de estrangeiros no mesmo sentido.
Repito: Apenas pretendi que, ao referir-se o grande aumento do número de doutoramentos – que, aliás, também se verificou noutros países – não fique a ideia errada de que o nível de conhecimentos em Portugal seria muito mais baixo do que na realidade era.
Melhoramento genético do arroz
Publicado no "Linhas de Elvas" de 31 de Julho de 2014
A revista “Empresas e Negócios”, distribuída com o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias de 28-7-2014, é dedicada à agricultura, repetindo várias vezes a palavra “inovação”. A inovação não cai do céu. Resulta do trabalho de investigação e, na agricultura, é o objectivo da investigação agronómica. Na indústria pode importar-se a inovação, pagando patentes. Mas na agricultura a inovação estrangeira não pode ser usada sem se investigar antes se também resulta em Portugal e em que locais, pois as condições naturais – a que a agricultura está submetida – são muito variáveis.
Numa notícia informa-se que está em curso um “Programa Nacional de Melhoramento Genético do Arroz”. É boa notícia. Mas leva-me a recordar que, em tempos, existiu na Estação Agronómica Nacional um Departamento de Melhoramento de Plantas, com uma Secção de Melhoramento de Arroz. Os seus dois bons investigadores, os engenheiros agrónomos Manuel Viana e Silva e Augusto Simplício Duarte, infelizmente já falecidos, “fabricaram” novas e melhores variedade de arroz. Tudo isso foi destruído nas últimas décadas, como quase toda a investigação do Ministério da Agricultura, particularmente durante o governo PS de Sócrates. E assim se afundou Portugal.
O actual governo travou essa destruição e oxalá consiga reconstituir e ampliar o que já existiu, a nível estatal. É bom que haja investigação nos privados, mas eles só fazem a investigação que lhes dê directamente dinheiro e, normalmente, a curto prazo. A investigação do estado é um investimento que rende grandes juros. Nalguns casos, directamente, com aquilo que é vendável. Em muitos outros, os mais importantes em valor, indirectamente, através dos impostos cobrados por motivo de aumentos no PIB. Os nossos governos têm mostrado não o saber. Esperemos que a actual ministra da Agricultura saiba.
Os agricultores de Elvas conhecem o valor da investigação agronómica. Ao longo dos anos, cultivaram muitos milhares de hectares de variedades de trigos e forragens obtidas na sua Estação de Melhoramento de Plantas, criada em 1942 e hoje com outro nome. Talvez ainda haja quem se lembre das primeiras dessas variedades, lançadas na lavoura na década de 1950, o trigo Pirana e o Grão da Gramicha, que tiveram grande expansão no país graças à sua maior produtividade. Era excelente “inovação”, palavra que os nossos políticos “descobriram” recentemente, como algo novo.
O biogás continua esquecido
Publicado no "Linhas de Elvas" de 3 de Julho de 2014
Portugal tem continuado a ignorar uma forma de energia renovável que vários países estão a utilizar, o que sugere ser um combustível económico, com algumas vantagens: o chamado biogás, também conhecido por gás dos pântanos ou gás do estrume. É uma mistura de gazes em que predomina o metano, composto apenas por carbono e hidrogénio (fórmula CH4). É uma mistura combustível, que pode ser usada para queimar (produzindo calor) ou em motores de explosão, como geradores elétricos.
Obtém-se a partir da fermentação de detritos orgânicos, não só o estume, mas também lixos ou esgotos. Em vez de estes serem armazenados em aterros ou lançados ao mar, acções que têm custo elevado, podem ser utilizados na produção de energia. Além de evitar estes custos, reduz a importação de petróleo ou gás natural, pelo que, considerando todos os benefícios, pode ser económica a produção do biogás. O resíduo resultante é um bom fertilizante para a agricultura.
Tenho lembrado que, nas zonas de grandes criações de porcos, a produção do biogás talvez seja uma forma de resolver os graves problemas de poluição.
Em artigos vários, pelo menos um no Linhas de Elvas, tenho tentado chamar a atenção para o que penso ser um valor que a nossa pobre economia não tem aproveitado. Sei que já houve algumas instalações em funcionamento, uma no jardim botânico da ilha da Madeira, instalada quando foi seu Director o já falecido engenheiro agrónomo Rui Vieira. Não sei se, actualmente, há alguma em funcionamento.
Não seria caso para algum dos laboratórios de investigação do estado construir uma estação piloto, para estudar a sua viabilidade económica e, se esta fosse positiva, promover a sua generalização?
A Ciência em Portugal há mais de 500 anos
Publicado no Público de 12 de Junho de 2014
O Público de 22-5-2014 publicou uma entrevista com o Professor Walter Alvarez, da Universidade de Berkeley, nos Estado Unidos, a propósito de uma conferência que iria proferir no Porto. Em estudo que realizou, em colaboração com o Prof. Henrique Leitão, da Universidade de Lisboa, mostra que foram os portugueses os pais da ciência moderna, antes dos conhecidos Nicolau Copérnico e Galileu Galilei.
Na Grécia antiga, Pitágoras e Euclides são nomes bem conhecidos. Mas a esse período de grandeza seguiu-se uma Idade Média de grande estagnação, em que a pseudociência dos alquimistas nada fez progredir o conhecimento humano.
Em 1965, publiquei no “Jornal do Comércio” (ao tempo o mais antigo diário português, infelizmente já desaparecido), o artigo “A Investigação Científica em Portugal há 500 anos” (transcrito no livro “Problemas de Investigação Científica. Problemas da Agricultura”, editado em 1969). Desse artigo permito-me respigar:
“O infante D. Henrique estabeleceu aquilo que, em linguagem de hoje, chamaríamos uma organização de investigação científica do mais alto nível e de grande amplitude. A “Escola de Sagres” era um verdadeiro instituto de investigação científica, com as características que ainda hoje devem existir num instituto digno desse nome. Recolheu-se o conhecimento que havia do mundo e do que outros, particularmente os italianos, faziam em matéria de navegação, tal como hoje reunimos e consultamos a bibliografia científica. Inventaram-se técnicas e instrumentos de navegação. Fez-se do Mundo a descobrir uma exploração sistemática e não o que muitos podem julgar ser um conjunto de viagens à aventura.
..........................
A cinco séculos da Idade de Ouro da investigação científica, Portugal foi pioneiro nos métodos de trabalho nesse sector e ocupou a posição que hoje ocupam os Estados Unidos”.
Uma das características dos portugueses é não serem capazes de reconhecer os feitos dos seus concidadãos. Isso é particularmente grave nos casos de descobertas de importância internacional, pois afectam negativamente a imagem do nosso país no contexto das nações.
Como consequência, aparecem divulgados pelo mundo feitos de estrangeiros, alguns bem inferiores aos de portugueses, enquanto estes são ignorados. Até acontece, como na entrevista citada, que são estrangeiros que vêm chamar a atenção para algo que a maioria dos portugueses ignora.
A propósito ainda desse feito raro que foram os descobrimentos, sucedeu um caso semelhante. O Dr. Werner von Braun foi o pai dos foguetões americanos depois de, na Alemanha, o seu país natal, ter construído as bombas voadoras V2, que alguns prejuízos e mortes causaram, já perto do fim da II Guerra Mundial. Visitou Portugal em 1965 e, numa entrevista aos jornalistas, lembrou o paralelismo entre o trabalho dos portugueses da época dos Descobrimentos e a exploração do espaço dos americanos. (Ouvi algumas pessoas, a propósito dessas declarações, perguntarem: “ele estava a fazer troça de nós, não estava?”). Acontece que, em alguns artigos, eu tinha referido exactamente esse paralelismo, o que motivou outro artigo, “von Braun, os voos espaciais e os descobrimentos”.
Quando, nos Estados Unidos, me convidaram a fazer uma palestra num almoço dos Kiwanis (um grupo semelhante aos Rotários) falei sobre “The Portuguese Space Program in the XV century” (“O Programa Espacial Português no século XV”).
Usando um mapa com as principais viagens portuguesas desse tempo, aproveitei a ocasião para elucidar os presentes de muito que desconheciam e, até, sobre Cristóvão Colombo.
Um outro caso, quiçá mais grave, de negligência portuguesa, é o que se passa com o que considero o feito maior dos portugueses no século XX: a I Travessia Aérea do Atlântico Sul”, por Sacadura Cabral e Gago Coutinho, em 1922. O mundo desconhece-a, mas sabe bem quem foi e o que fez Charles Lindbergh, em 1927, com a sua travessia do Atlântico Norte. É, sem, dúvida, um feito importante, mas muito inferior ao da Travessia dos portugueses, quase totalmente desconhecida do Mundo. A nossa foi cinco anos antes da do americano. Nessa altura, a evolução dos aviões era vertiginosa e comparável à dos computadores nos tempos actuais. Os portugueses, dois geógrafos ilustres demonstraram, com aparelhos por eles inventados (o sextante Gago Coutinho e o corrector de rumos), a possibilidade de navegar pelo ar com a mesma precisão com que se navegava no mar. Essa espantosa precisão (já testada num voo à Madeira, em 1921) teve a sua maior demonstração na etapa de Cabo Verde aos Penedos de S. Pedro (já terras brasileiras), umas ilhotas cuja maior tem uns 200 metros de comprimento, atingidos ao fim de 11 horas de voo sobre o mar.
Não perdoo aos responsáveis pela Expo 98 o facto de terem desperdiçado a maior possibilidade de demonstrar ao mundo esse feito enorme dos portugueses. Apesar de o tema da Expo ser os Oceanos, ignoraram totalmente a Travessia! Na Expo devia ter havido um pavilhão a ela destinado, com painéis elucidativos, o hidroavião Santa Cruz (que está no Museu da Marinha), passagem de filmes da época, palestras por pessoas com competência para darem excelentes descrições desse feito, reedições de livros sobre a Travessia (não esquecendo esse magnífico N.º 254, de Dezembro de 1959, da “Revista do Ar”), edição de outros, escritos para o efeito, em duas ou três línguas estrangeiras, etc. Nada foi feito e desperdiçou-se (por incompetência dos responsáveis) a oportunidade, que talvez não volte a repetir-se, de mostrar aos muitos milhares de estrangeiros – e aos portugueses – um feito notável. Esse pavilhão seria, talvez, a maior atracção da Expo e surpreenderia muitos visitantes.
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