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11 de janeiro de 2017

A ciência em Portugal no século XX

Publicado no "Linhas de Elvas" de 26 de Novembro de 2015 - O facto de se apresentar o que se fez em tempos recentes sobre a política científica, sugerindo que o que havia anteriormente seria quase nada, leva-me a escrever algo sobre a ciência em Portugal no século XX. Será certamente muito pouco – nem um artigo de jornal permite obra exaustiva – mas penso que pode mostrar que a situação – que não era boa, como hoje ainda não é – não era a nulidade que alguns pretendem insinuar. Convém lembrar a investigação científica portuguesa que foi destruída nestes últimos quarenta anos, em obediência à lei – que parece que ninguém quer ver, mas é bastante evidente – que manda extinguir todas as instituições científicas públicas que não sejam das universidades.
(A não ser quando é possível roubá-las para dar a uma universidade, como já sucedeu). Ao que agora se fez de bom, há que descontar o muito que se destruiu. Na falta de uma Bibliografia Científica Portuguesa, tentarei listar alguns casos de que tive conhecimento, uma pequena amostra que, espero, seja suficiente para mostrar que, nos três primeiros quartéis do século XX, a ciência em Portugal, não era o deserto que se tenta fazer crer e tinha alguma repercussão no estrangeiro. Na investigação médica contavam-se alguns casos com repercussão no estrangeiro, principalmente em França, ao tempo um país de boa ciência. Lembro que o único Prémio Nobel da ciência que existe em Portugal é desse tempo. Em 1936, com o ministro da Agricultura Rafael Duque, deu-se um grande passo em frente para a ciência em Portugal. Pelo Decreto-lei nº 27.207 foi criada a Estação Agronómica Nacional, destruída nestes últimos trinta anos. Não se tratou de uma simples alteração do nome da antiga Estação Agrária Central de Lisboa, como erradamente está escrito em publicação recente, mas da fundação de um instituto de investigação, em tudo comparável aos seus congéneres estrangeiros. No mesmo Decreto é criada a carreira de investigador científico, paralela à carreira do professorado universitário. Modelarmente delineada pelo Professor António Câmara, que deixou a sua cátedra no Instituto Superior de Agronomia para assumir a direção, em breve a Estação Agronómica dava ao país mais dinheiro do que o que nela foi investido. A solução do grave problema da maromba, uma doença das vinhas do Douro, é um bom exemplo. A prova da excelência do modelo criado é que ele foi adoptado por todos os institutos posteriormente fundados, o primeiro dos quais, dez anos depois, foi o Laboratório Nacional de Engenharia Civil. É natural que a produção de artigos científicos – hoje o principal factor de avaliação das universidades – não fosse tão abundante, até porque alguns desses trabalhos demoram anos. Muito está publicado em português. Mas a sua repercussão na economia foi muito grande. Portugal tem hoje muito menos dessa tão necessária investigação e a economia e as finanças estão como se sabe. Em 1973 o PIB crescia a 7%. Em 1945, a Genética tinha quatro grupos activos, liderados por Abílio Fernandes e José Serra na Universidade de Coimbra, António Câmara, na Estação Agronómica Nacional, em Sacavém, mais tarde Oeiras, e Flávio Resende na Universidade de Lisboa. Esses grupos cresceram em número de investigadores e na década de 1950, pela sua produção científica, eram talvez o melhor da ciência portuguesa. Como exemplo, direi que em 1947, quando me encontrava no Departamento de Genética da Estação Agronómica, a elaborar a tese então necessária para se ser engenheiro agrónomo, dois cientistas desse Departamento publicaram na conceituada revista “Nature” um artigo que teve grande repercussão e originou mais investigação, principalmente na Suécia e nos Estados Unidos. A partir da década de 1950, a Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas, produzia regularmente novas e mais produtivas variedades de cereais e forragens que deram à agricultura um valor muitas vezes superior ao que o estado nela investiu. E se esses organismos produziam ciência de directa aplicação é porque também dispunham de laboratórios de genética, fitopatologia, química, estatística, microscopia electrónica e outros. De tudo isto, após a destruição, restam migalhas, num organismo designado INIAV. Basta ver os nomes dos seus componentes, antigas estações e departamentos, para se perceber que quem o delineou não tinha a mínima noção do que é a investigação agronómica.

4 de maio de 2015

O número de doutoramentos

Publicado no Público de 17 de Agosto de 2014 Governos das últimas décadas, principalmente os do PS, apregoaram como, nos últimos tempos, aumentou muito o número de doutorados em Portugal. A afirmação está correcta mas exige algum esclarecimento para que quem está longe destes assuntos não fique com a ideia de que Portugal não tinha, no antigamente, gente qualificada ao nível de doutoramento. Durante muitos anos, o doutoramento não estava no percurso normal de algumas carreiras. Nos grandes laboratórios de investigação, iniciados em 1936, com a criação da Estação Agronómica Nacional (EAN), a progressão na carreira (paralela da carreira docente universitária) era feita por concursos.
(Não estou a defender ou a atacar os sistemas então vigentes. Estou apenas a constatar factos. Aliás, concordo com o sistema actual). Por estas razões, existiam, nessas instituições, pessoas de muito alto nível científico, bem para além do nível do doutoramento. Mesmo nas universidades, as admissões e progressão na carreira eram frequentemente feitas por convite ou por concursos, documentais ou de provas públicas. Muitos professores catedráticos e até reitores nunca tinham feito o doutoramento, embora tivessem nível muito superior ao de um recém-doutorado. O Eng.º Manuel Rocha, fundador e primeiro Director do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), nunca fez o doutoramento. Recebeu mais tarde, merecidamente, o grau de Doutor Honoris Causa. Faleceu recentemente um professor catedrático do Instituto Superior Técnico, o Eng.º J. Delgado Domingos, que nunca fez o doutoramento, o que não o impediu de ser uma figura importante na ciência. Em Espanha, o curso de engenheiro agrónomo era semelhante ao que havia em Portugal e exigia, após os cinco anos de cadeiras, uma tese de investigação original que levava, em média, três anos a completar. Quando a Espanha mudou esse sistema para um como o proposto pela Declaração de Bolonha, entregou o diploma de Doutor em Agronomia a todos os engenheiros agrónomos que tinham completado o curso com média igual ou superior a 14 valores. (As notas, em Agronomia, tal como em Portugal, eram muito apertadas). Um professor catedrático de Agronomia de Espanha, Mateo Box, que esteve em Portugal como arguente num concurso, disse-me que ele tinha sido um desses casos. Quando foram criados, em Portugal, os mestrados (que eu sempre considerei um erro), o ministério convidou, através do Instituto Britânico, alguns professores da Universidade de Reading para virem “ensinar” a fazer esse grau. Vieram ver, não só as escolas de ensino superior, mas também as instituições de investigação científica onde se poderiam fazer teses de mestrado. Os de engenharia civil, além do Técnico, foram ver o LNEC. Dois de agronomia foram à EAN. O Prof. Watkin Williams foi ao Departamento de Genética, então da minha responsabilidade. O outro, cujo nome não recordo, foi ao Departamento de Pedologia.
Durante a conversa, o Prof. Williams perguntou-me como era a tese que lhe tinham dito ser exigida até há pouco tempo para se ser engenheiro agrónomo. Disse-lhe que um pequeno número de teses, normalmente com uma classificação modesta, seriam aceites em Inglaterra como teses de mestrado. A grande maioria seria certamente aceite como teses de doutoramento. Convidei esses dois professores para jantar e, em minha casa, durante a conversa, o Prof. Williams, que sabe espanhol, disse: "Estive na biblioteca da Estação Agronómica a ver teses e tudo o que vi eram boas teses de PhD” (doutoramento). Ouvi mais alguns comentários de estrangeiros no mesmo sentido. Repito: Apenas pretendi que, ao referir-se o grande aumento do número de doutoramentos – que, aliás, também se verificou noutros países – não fique a ideia errada de que o nível de conhecimentos em Portugal seria muito mais baixo do que na realidade era.

A saga das avaliações

Publicado no Público de 28 de Julho de 2014 Com este título, "A saga das avaliações", publiquei em 2005 um artigo em que descrevi o que se tinha passado com duas avaliações, com um intervalo de dez anos, feitas à mesma instituição de investigação científica. A questão das avaliações voltou agora, agravada e, como as outras, com intuitos que diríamos inconfessáveis. Do artigo citado, transcrevo:
 “Em 1986, com um governo PSD, foi mandado avaliar um desses laboratórios. O relatório foi arrasador e identificou uma série de males, praticamente todos da responsabilidade do mais alto nível, nomeadamente o governo. Nada foi corrigido e vários males agravados. Dez anos depois, em 1996, com um governo PS, foi o mesmo laboratório avaliado e da comissão avaliadora faziam parte alguns elementos da anterior, um deles estrangeiro. O relatório foi novamente arrasador, encontrando agravados muitos dos males elementares já anteriormente denunciados, da responsabilidade do governo, assim colocando em muito má posição os governantes responsáveis. E com isto se gastou dinheiro, que não deve ter sido pouco e que bem podia ser usado para colmatar as deficiências que tanto entravam o trabalho. * Qualquer avaliação, para ser correcta, não pode ignorar os meios de trabalho (normalmente verbas...) postos à disposição dos investigadores. Já em tempos propus a criação de um “coeficiente” de forma que, ao avaliar uma instituição, um departamento ou um investigador, se entre em linha de conta com o dinheiro de que ele pôde dispor. É óbvio que, se ao longo de cinco, dez ou vinte anos pôde dispor de abundantes meios de trabalho, tem obrigação de ter produzido muito mais do que aqueles que viveram com imensas limitações. Claro que ter cientistas, que já deram provas de serem capazes de produzir boa ciência, a trabalhar em condições de penúria é um dos mais elementares erros de gestão de ciência. E esses casos abundam no nosso Pais. São erros tão primários que é ridículo mandar “avaliar” e, particularmente, por estrangeiros. Provavelmente irão para os seus países dizer quão primitivos são os governantes que precisam de pedir a estrangeiros para lá irem avaliar esses casos, que eles não são capazes de detectar e corrigir. E digo os dirigentes porque, nos seus contactos com os cientistas portugueses, eles bem se aperceberam que, a par de uns quantos incapazes, por vezes em posições de mando, encontraram cientistas perfeitamente qualificados que só não produziam mais ciência pelas deficientes condições em que eram obrigados a trabalhar.” No caso mais recente, os maus objectivos parecem ser descaradamente evidentes. Se, em 1986 e 1996 se procurou saber o que estava mal, agora tudo indica que apenas se desejou saber "se estava mal " para, esquecendo as suas obrigações e responsabilidades, apresentar isso como um excelente – na realidade, falso – motivo para lhe reduzir mais as já diminutas verbas, em muitos casos a causa da baixa produção de ciência. Lembro que, quando algum organismo estatal não funciona bem, o ministro da pasta (agora é costume dizer "da tutela") é responsável e cabe-lhe a tarefa de o pôr a funcionar bem, pois essa é a sua função. Também é responsável o primeiro-ministro, como chefe de todo o governo. O que qualquer cidadão pode concluir do que se passou é que o governo não manda fazer estas avaliações para corrigir o que está mal, mas apenas para ter um pretexto para cortar mais em serviços públicos – e certamente não nas reais "gorduras" do estado, como já neste jornal assinalei – não cumprindo as funções que são a razão da sua existência. Um governo que ignora que, sem investigação científica, um país está condenado a estagnar, é um governo que não serve.

Os politécnicos

Publicado no "Linhas de Elvas" de 17 de Julho de 2014 A notícia “Politécnicos essenciais para formar jovens profissionalmente” (LE de 10-7-2014) leva-me a elaborar alguns comentários. Começo por dizer que considero um grave erro tudo o que tem sido feito, especialmente nos últimos dez anos, em matéria de redução do financiamento estatal a todo o ensino público. Sei que o dinheiro “gasto” na educação é um investimento com alta rentabilidade. Sabem isso os países do Norte da Europa e por isso são ricos. E os juros desse investimento são tão mais altos quanto melhor for a qualidade do ensino. Em 1994 publiquei, num artigo no “Publico”, as linhas gerais do que considerava necessário fazer para corrigir os graves erros (na minha opinião) da legislação de 1980 sobre o ensino superior. Em 1995, num artigo no “Linhas de Elvas”, desenvolvi o que deveria ser feito e até sugeri que, considerando as diferenças de níveis dos graus académicos nos países da Europa, Portugal propusesse uma uniformização de níveis como ali indicava. Nada foi feito e foi-me dito pelo ministro de então que não era possível realizar essa alteração. Em 1999 veio a Declaração de Bolonha (podia ter sido de Évora…) dizer, com pequenas diferenças, o que eu tinha proposto em relação aos graus académicos. Além do “enxerto” de um 4º grau académico no ensino superior (o mestrado), também considerei erro a criação dos Institutos Politécnicos. Os politécnicos foram criados para formar bacharéis (os actuais bacharelatos têm o nome de licenciatura). Mas tenho ouvido muitas declarações que considero erradas, como os politécnicos terem ensino “prático” ou “profissionalizante” e as universidades ensino “teórico”. É claro que na formação de bacharéis não se pode dispensar algum fundamento teórico e os que saem das universidades também vão exercer uma profissão. Ou alguém pensa que um médico faz operações à apendicite teóricas e um engenheiro constrói pontes igualmente teóricas? Logo na minha proposta de 1994 defendia que os politécnicos fossem integrados nas universidades que estivessem mais próximas ou com que tivessem mais afinidade, constituindo polos dessas universidades. Por exemplo, deixariam de existir os Institutos Politécnicos de Beja ou de Portalegre, sendo tudo Universidade de Évora. Em qualquer lugar da universidade em que houvesse infraestruturas suficientes e corpo docente adequado se fariam os três graus que tínhamos antigamente, como eu sugeri e como a Declaração de Bolonha mandou. Eu sei que alguns presidentes e professores dos politécnicos não gostam desta ideia, pensando que perdem independência. Parece-me exactamente o contrário, pois participariam nas decisões importantes da Universidade. E acabava a ideia, que tenho visto expressa, de que o ensino nos politécnicos é um ensino de segunda categoria. Os docentes do politécnico com qualificações idênticas às de um título docente da universidade transitariam automaticamente para essa categoria. Os que tivessem qualificações intermédias mantinham o seu título até fazerem concurso para o título superior da universidade. Na minha proposta com os três níveis, considerei a eliminação do nome de mestre (que não tem tradição no ensino superior português), ficando bacharel (3 anos), licenciado (5+1 ano para tese de licenciatura) e mais 2 anos para o doutoramento. Bolonha quer 3+2+2=7 anos. Aceito. Os que mandam nesta área entenderam por bem eliminar o nome de bacharel. Não pode esquecer-se que a licenciatura pós-Bolonha é, internacionalmente, um bacharelato.

A Ciência em Portugal há mais de 500 anos

Publicado no Público de 12 de Junho de 2014 O Público de 22-5-2014 publicou uma entrevista com o Professor Walter Alvarez, da Universidade de Berkeley, nos Estado Unidos, a propósito de uma conferência que iria proferir no Porto. Em estudo que realizou, em colaboração com o Prof. Henrique Leitão, da Universidade de Lisboa, mostra que foram os portugueses os pais da ciência moderna, antes dos conhecidos Nicolau Copérnico e Galileu Galilei. Na Grécia antiga, Pitágoras e Euclides são nomes bem conhecidos. Mas a esse período de grandeza seguiu-se uma Idade Média de grande estagnação, em que a pseudociência dos alquimistas nada fez progredir o conhecimento humano. Em 1965, publiquei no “Jornal do Comércio” (ao tempo o mais antigo diário português, infelizmente já desaparecido), o artigo “A Investigação Científica em Portugal há 500 anos” (transcrito no livro “Problemas de Investigação Científica. Problemas da Agricultura”, editado em 1969). Desse artigo permito-me respigar: “O infante D. Henrique estabeleceu aquilo que, em linguagem de hoje, chamaríamos uma organização de investigação científica do mais alto nível e de grande amplitude. A “Escola de Sagres” era um verdadeiro instituto de investigação científica, com as características que ainda hoje devem existir num instituto digno desse nome. Recolheu-se o conhecimento que havia do mundo e do que outros, particularmente os italianos, faziam em matéria de navegação, tal como hoje reunimos e consultamos a bibliografia científica. Inventaram-se técnicas e instrumentos de navegação. Fez-se do Mundo a descobrir uma exploração sistemática e não o que muitos podem julgar ser um conjunto de viagens à aventura. .......................... A cinco séculos da Idade de Ouro da investigação científica, Portugal foi pioneiro nos métodos de trabalho nesse sector e ocupou a posição que hoje ocupam os Estados Unidos”. Uma das características dos portugueses é não serem capazes de reconhecer os feitos dos seus concidadãos. Isso é particularmente grave nos casos de descobertas de importância internacional, pois afectam negativamente a imagem do nosso país no contexto das nações. Como consequência, aparecem divulgados pelo mundo feitos de estrangeiros, alguns bem inferiores aos de portugueses, enquanto estes são ignorados. Até acontece, como na entrevista citada, que são estrangeiros que vêm chamar a atenção para algo que a maioria dos portugueses ignora. A propósito ainda desse feito raro que foram os descobrimentos, sucedeu um caso semelhante. O Dr. Werner von Braun foi o pai dos foguetões americanos depois de, na Alemanha, o seu país natal, ter construído as bombas voadoras V2, que alguns prejuízos e mortes causaram, já perto do fim da II Guerra Mundial. Visitou Portugal em 1965 e, numa entrevista aos jornalistas, lembrou o paralelismo entre o trabalho dos portugueses da época dos Descobrimentos e a exploração do espaço dos americanos. (Ouvi algumas pessoas, a propósito dessas declarações, perguntarem: “ele estava a fazer troça de nós, não estava?”). Acontece que, em alguns artigos, eu tinha referido exactamente esse paralelismo, o que motivou outro artigo, “von Braun, os voos espaciais e os descobrimentos”. Quando, nos Estados Unidos, me convidaram a fazer uma palestra num almoço dos Kiwanis (um grupo semelhante aos Rotários) falei sobre “The Portuguese Space Program in the XV century” (“O Programa Espacial Português no século XV”). Usando um mapa com as principais viagens portuguesas desse tempo, aproveitei a ocasião para elucidar os presentes de muito que desconheciam e, até, sobre Cristóvão Colombo. Um outro caso, quiçá mais grave, de negligência portuguesa, é o que se passa com o que considero o feito maior dos portugueses no século XX: a I Travessia Aérea do Atlântico Sul”, por Sacadura Cabral e Gago Coutinho, em 1922. O mundo desconhece-a, mas sabe bem quem foi e o que fez Charles Lindbergh, em 1927, com a sua travessia do Atlântico Norte. É, sem, dúvida, um feito importante, mas muito inferior ao da Travessia dos portugueses, quase totalmente desconhecida do Mundo. A nossa foi cinco anos antes da do americano. Nessa altura, a evolução dos aviões era vertiginosa e comparável à dos computadores nos tempos actuais. Os portugueses, dois geógrafos ilustres demonstraram, com aparelhos por eles inventados (o sextante Gago Coutinho e o corrector de rumos), a possibilidade de navegar pelo ar com a mesma precisão com que se navegava no mar. Essa espantosa precisão (já testada num voo à Madeira, em 1921) teve a sua maior demonstração na etapa de Cabo Verde aos Penedos de S. Pedro (já terras brasileiras), umas ilhotas cuja maior tem uns 200 metros de comprimento, atingidos ao fim de 11 horas de voo sobre o mar. Não perdoo aos responsáveis pela Expo 98 o facto de terem desperdiçado a maior possibilidade de demonstrar ao mundo esse feito enorme dos portugueses. Apesar de o tema da Expo ser os Oceanos, ignoraram totalmente a Travessia! Na Expo devia ter havido um pavilhão a ela destinado, com painéis elucidativos, o hidroavião Santa Cruz (que está no Museu da Marinha), passagem de filmes da época, palestras por pessoas com competência para darem excelentes descrições desse feito, reedições de livros sobre a Travessia (não esquecendo esse magnífico N.º 254, de Dezembro de 1959, da “Revista do Ar”), edição de outros, escritos para o efeito, em duas ou três línguas estrangeiras, etc. Nada foi feito e desperdiçou-se (por incompetência dos responsáveis) a oportunidade, que talvez não volte a repetir-se, de mostrar aos muitos milhares de estrangeiros – e aos portugueses – um feito notável. Esse pavilhão seria, talvez, a maior atracção da Expo e surpreenderia muitos visitantes.

9 de março de 2014

Portugal e Bolonha

Publicado no Público de 1 de Março de 2014 “... tal como aconteceu com o Processo de Bolonha, que encurtou muitas licenciaturas”, lê-se na legenda da figura, no escrito de Samuel Silva sobre os cursos mais curtos (“Público” de 8 de Fevereiro de 2014). No texto lê-se: “O Processo de Bolonha já tinha feito o mesmo com as licenciaturas – que passaram de cinco para três anos”. Essa ideia, que foi muito apregoada, não é exacta. Terei de voltar atrás uns vinte anos. Depois de ter conversado com diversas entidades sobre o que considerei um grave erro da legislação de 1980 – que introduziu os mestrados – sem conseguir qualquer resultado, expus em 1994, no “Público” (2 de Julho) as linhas gerais do que considerava necessário para a correcção. Entendia que todo o ensino superior devia ser padronizado em três níveis: Bacharel (3 anos); Licenciado (5 anos de cadeiras + 1 ano para tese de licenciatura); Doutoramento (após a licenciatura, normalmente 2 anos, ou o que fosse necessário). Os Mestrados seriam extintos, terminando apenas os que estivessem em curso. No ano seguinte, 1995, a propósito da criação da Escola Superior Agrária de Elvas, publiquei no “Linhas de Elvas” (5 de Maio) uma pormenorização do sistema que propunha. Como, na União Europeia, as discrepâncias eram grandes, sugeri que Portugal propusesse uma padronização de níveis semelhante. (Se a sugestão tivesse tido eco, a Declaração teria sido de Coimbra, de Évora ou de qualquer outra das nossas cidades universitárias). Em 1999, a Declaração de Bolonha – que Portugal assinou – veio dizer, com muito mais pormenores, quase exactamente o que eu tinha proposto cinco anos antes. A diferença é que eu propunha 3+3+2 anos de escolaridade e Bolonha propõe 3+2+2. Não considero tão bom, mas aceito. Bolonha não obrigou nenhum país a usar determinados nomes. Cada um deu-lhes os que entendeu. Eu tinha proposto o desaparecimento dos mestrados. O nome de mestre não tem tradição no ensino superior português. Na nossa língua, mestre, é o suprassumo dos doutores, ou o mestre carpinteiro, o mestre sapateiro, etc. Nos ofícios, desde a Idade Média, havia o aprendiz, o oficial e o mestre. Temos ainda a antiga figura simpática do mestre escola.

28 de janeiro de 2014

Politécnicos

Publicado no Linhas de Elvas de 26 de Setembro de 2013 Depois de algumas conversas infrutíferas com entidades responsáveis do sector, publiquei em 1994 um artigo em que apresentei as linhas gerais das alterações que propunha para o ensino superior, para corrigir o que eu considerava errado na legislação de 1980. Esses erros, na minha opinião, tinham sido, principalmente, o “enxerto” dum quarto grau académico, o mestrado, entre a licenciatura e o doutoramento e a criação dos Institutos Politécnicos. Estes eram destinados, inicialmente, a formarem bacharéis – presumo que algo como os “Junior Colleges” dos Estados Unidos – um grau superior mas de limitado nível, para o desempenho de tarefas não muito exigentes. Por essa razão, a carreira dos seus docentes é também menos exigente que a carreira docente universitária (CDU). Mas em breve começaram a dar licenciaturas – com o mesmo valor das das universidades – a colaborar em mestrados e pretendiam dar doutoramentos. Os pontos essenciais da minha proposta eram a extinção dos mestrados, a padronização de todos os cursos superiores em 3 anos para o bacharelato, 5 anos de cadeiras e um ano para tese de licenciatura, para completar este grau, e 2 anos (ou o que fosse necessário) para o doutoramento. Propunha a extinção dos politécnicos como escolas separadas e a sua integração nas universidades mais próximas ou com que tivessem mais afinidades, constituindo polos dessas universidades. Em qualquer parte das universidades, na sede ou nos polos, em que houvesse infraestruturas e pessoal docente qualificado, se fariam todos os graus, bacharel, licenciado e doutor. Os docentes dos politécnicos que tivessem qualificações idênticas às de qualquer nível da CDU, passariam para ela. Os que tivessem qualificações entre duas categorias da CDU, manteriam a sua posição até fazerem provas para passar para o grau mais alto. No ano seguinte (1995) publiquei no Linhas de Elvas um outro escrito em que pormenorizei um pouco mais o esquema e sugeri que o governo, considerando as discrepâncias existentes na Europa sobre graus do ensino superior, propusesse uma uniformização de graus segundo o esquema apresentado. Tudo foi ignorado. Em 1998 reuniram-se na Sorbonne os Ministros da Educação da França, da Alemanha, da Inglaterra e da Itália, visando uma certa uniformização dos diplomas europeus, tendo produzido uma Declaração. No ano seguinte (1999) reuniram-se em Bolonha os Ministros da Educação de 29 países europeus (entre os quais o de Portugal e incluindo, portanto, alguns não membros da União Europeia) e produziram uma Declaração em que continuavam e aprofundavam os temas da Declaração da Sorbonne. O esquema aprovado na Declaração de Bolonha difere do que eu propus apenas num ponto. Em vez de 3+3+2 anos, indica 3+2+2 anos. Não me parece tão bom, mas aceito. Apesar de ter assinado a Declaração de Bolonha, Portugal tardou muito a implementá-la (e ainda não está totalmente) e resolveu suprimir o título de bacharel e designar os três níveis de licenciado, mestre e doutor. É claro que a licenciatura pós-Bolonha é internacionalmente um bacharelato (não comparável com as anteriores) e o mestrado é hoje equivalente às antigas licenciaturas, pelo menos em relação às que exigiam 5 ou mais anos de estudos superiores. Anunciou-se que os politécnicos queriam passar a chamar-se Universidades de Ciências Aplicadas. Não concordo. Sou da opinião, creio que de Pasteur, que dizia que não há ciência pura e ciência aplicada, mas sim ciência e aplicações da ciência. Essa designação é provavelmente derivada da ideia, que considero errada, embora a veja apresentada por muitas pessoas, de que o ensino é essencialmente prático nos politécnicos e essencialmente teórico nas universidades. Sei que este tema é muito polémico, mas o simples facto duma licenciatura ter exactamente o mesmo valor, quer seja duma universidade ou dum politécnico, parece-me suficiente para a destruir. Mas se passasse a haver universidades “de ciências aplicadas” isso sugeria que as outras são só teóricas. Um médico faria operações à apendicite teóricas, um engenheiro civil construiria estradas e casas teóricas, etc. Parece-me a minha proposta mais válida e acabava o estigma do politécnico ser considerado um ensino de segunda categoria. Quando um polo (antigo politécnico) tiver desenvolvimento suficiente para constituir uma nova universidade digna desse nome, ela será criada, separando-se aquela de que era uma parte.

8 de agosto de 2013

Não, senhores reitores, ainda não são

Publicado no Público de 20 de Novembro de 2012 Não está em causa a enorme importância das universidades para o futuro do país. Qualquer mal que as afecte, seja por erros internos – como, infelizmente há – seja por limitações impostas do exterior, prejudicam o país em muitos aspectos, especialmente o cultural e económico. Nunca serão demasiados todos os esforços que se façam para que os seus diplomados e a sua investigação tenham o mais alto nível. Como Professor Catedrático jubilado certamente que defendo acerrimamente esses dizeres e, quando estava na actividade oficial tudo fiz, dentro do que estava ao meu alcance, no sentido de atingir esse objectivo. Após algumas reuniões preparatórias, os reitores das universidades públicas portuguesas apresentaram em 9 de Novembro de 2012 uma “Declaração conjunta” a propósito do que Portugal perde com os inadmissíveis cortes que os seus orçamentos têm sofrido e do que está previsto cortar, no orçamento para 2013. Concordo com muito do que ali se diz. Mas não posso deixar passar sem correcção uma frase do ponto três dessa Declaração. Ali se diz que “As universidades constituem a única base sólida em que assenta o sistema científico e tecnológico nacional”. Tenho de dizer aos Senhores Reitores que não é verdade. Ainda não são a única base sólida em que assenta o sistema científico e tecnológico nacional. Como há muito venho denunciando, tem estado em vigor uma lei, não escrita mas rigorosamente seguida, que manda destruir toda a investigação que não seja das universidades. Em obediência a essa criminosa “lei”, já muito se destruiu, com ela causando perdas astronómicas tanto à ciência como à economia de Portugal. A ela se deve uma parte – outra parte é de outros criminosos actos, de gestão danosa – do estado em que estamos e do escasso ou nulo crescimento económico, que culminou na recessão actual. Em 1936, com a criação da Estação Agronómica Nacional (EAN), iniciou-se uma nova era na investigação científica em Portugal. Foi a primeira instituição de boa dimensão e em moldes modernos criado no nosso país devotada a essa actividade e para ela foi, ao mesmo tempo, criada a carreira de investigador científico, paralela da carreira docente universitária. Em breve a sua produção científica era notada, nacional e internacionalmente. Dez anos depois e decalcado dela, foi criada, em sector diferente, outra grande instituição de investigação científica, o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC). Outros se seguiram, sempre com o mesmo modelo. Em 1942 foi criado outro, de âmbito especificamente mais limitado, a Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas (EMP). Os resultados económicos que estas três instituições deram ao país foram muitas vezes superiores ao capital nelas investido, que assim rendeu uns juros que os nossos economistas não sabem que existem, mas são reais. Conheço bem os dois relativos à investigação agronómica e alguma coisa o LNEC. Em consequência da “lei” acima referida, começaram há anos a ser destruídas as instituições de investigação públicas fora das universidades. Não declaradamente, mas de forma evidente, cerceando meios de trabalho, não renovando o pessoal que foi sendo cada vez mais escasso e chegando ao descaramento de cortar a assinatura de quase todas ou mesmo todas as revistas científicas (Ao tempo ainda não havia a internet). Ao mesmo tempo, pelo menos nalguns casos, eram colocados na sua Direcção pessoas que, pelos seus actos, bem mostraram que estavam ali para destruir a instituição. Os “erros” cometidos eram de tal calibre que é difícil considerar que fossem apenas por ignorância. Nos de investigação agronómica a destruição foi mais intensa porque foi conjugada com uma bem evidente destruição da agricultura portuguesa, que atingiu o máximo de ferocidade com o governo Sócrates, que chegou ao cúmulo de devolver a Bruxelas centenas de milhões de euros. Só a actual ministra da Agricultura travou essa destruição. O que resta destas anteriormente excelentes instituições é uma pálida sombra do que foram. Mas, porque ainda há uns restos dessa excelência, é que me permito dizer aos Senhores Reitores que ainda não são as universidades a única base sólida em que assenta o sistema científico e tecnológico nacional. Veremos o que o futuro nos reserva.

A licenciatura pós Bolonha

Publicado no Linhas de Elvas de 19 de Julho de 2012 Em 1994, depois de infrutíferas conversas com algumas entidades, publiquei no "Público" um artigo em que expunha a alteração que me parecia necessário fazer para corrigir a infeliz legislação de 1980 sobre o ensino superior. Essa legislação "enxertou" no nosso ensino superior mais um grau, o mestrado, e criou o ensino superior politécnico, para dar o grau de bacharel. No meu artigo propunha a extinção do mestrado e que todos os cursos superiores adoptassem o seguinte esquema: Grau de bacharel, 3 anos de cadeiras. Nos bacharelatos profissionais (um exemplo seriam os engenheiros técnicos) seria necessário um estágio de um ano. Grau de licenciado, 5 anos de cadeiras e uma tese de licenciatura, que devia ser possível fazer num ano. Total 6 anos. Grau de doutor, após a licenciatura, com ou sem mais cadeiras (assunto a debater), uma tese de doutoramento, a fazer em dois ou mais anos. (Mais pormenores, que não cabem neste artigo, podem ser encontrados no artigo que publiquei no "Ingenium", a revista da Ordem dos Engenheiros, em 2002). Não seriam criados mais politécnicos e os existentes deixavam de ser escolas independentes e passariam a ser pólos da universidade mais próxima ou com que tivessem mais afinidade. No ano seguinte, 1995, a propósito da criação da Escola Superior Agrária de Elvas, num artigo no "Linhas de Elvas", repeti e ampliei o que tinha publicado no ano anterior e até sugeri que, dada a variedade de sistemas existentes, Portugal propusesse à Europa um esquema deste género, para haver equivalência entre os países europeus. Nada sucedeu, nem mesmo quando, depois de lhe ter enviado os meus escritos, falei pessoalmente com o Ministro da Educação, que me disse que o que eu propunha não se podia fazer. Em 1999, após umas reunião de quatro países, na Sorbonne, no ano anterior, reuniram-se em Bolonha os ministros da Educação de 29 países (entre os quais o de Portugal) e produziram uma Declaração destinada a uniformizar os níveis dos graus do ensino superior, precisamente para haver equivalência entre todos. A Declaração de Bolonha veio dizer essencialmente o mesmo que eu tinha proposto cinco anos antes, embora, naturalmente, com mais pormenor. Uma diferença é que propõe um esquema de 3+2+2 anos enquanto eu preferia 3+3+2 anos. Apesar de ter assinado o documento, e já vão 13anos, Portugal levou muito tempo a implementá-lo e ainda não está totalmente. Entretanto, apareceram as mais disparatadas opiniões, entre elas a dizer que Bolonha tinha encurtado as licenciaturas, o que não é verdade, pois Bolonha apenas definiu três níveis que, aliás era o que havia em Portugal antes do erro dos mestrados e era o geral em muitos países, nomeadamente nos Estados Unidos e na Grã Bretanha. Cada país dá-lhes o nome que entender. Eu tinha proposto a supressão do mestrado, nome, aliás, sem qualquer tradição no ensino em Portugal, ficando os três níveis bacharel, licenciado e doutor. As luminárias que têm pontificado em Portugal resolvera suprimir o nome de bacharel e os cursos ficaram a chamar-se licenciado (3 anos), mestre (5 anos) e doutor (7 anos ou mais). Daqui resulta o facto da licenciatura pós Bolonha ser um bacharelato e assim considerado internacionalmente, não podendo confundir-se com as licenciaturas antigas, pelo menos as que exigiam cinco ou mais anos de estudos universitários. Os organismos que exigiam, para determinados cargos, uma licenciatura (pré-Bolonha), devem agora, a quem fez o curso segundo Bolonha, passar a exigir o mestrado. Também convém dizer que nos países mais coerentes - e lembro novamente os Estados Unidos e a Grã Bretanha, entre outros - só se chama "doutor" a quem é doutorado. O que se passa em Portugal é outro indicativo de subdesenvolvimento. Creio que foi o Dr. José Leite de Vasconcelos que, para haver distinção entre o doutorado e o licenciado, iniciou o sistema, que tem sido muito usado, de escrever Doutor (por extenso) para o doutorado e Dr. (abreviatura) para o licenciado. Eu costumava dizer, nessa ordem de ideias, que poderíamos usar dr. (com d pequeno) para o bacharel, o que pode ser agora aplicado aos licenciados pós-Bolonha.

16 de março de 2012

A nova universidade

Publicado no Linhas de Elvas de 15 de Março de 2012

Há muito tempo que penso que a Universidade Clássica e a Universidade Técnica de Lisboa se deviam fundir numa única. E a razão é porque não há qualquer sobreposição de escolas, pois as que existem numa não existem na outra. Era escusado ter sido criada, depois da implantação da república, a Universidade Técnica de Lisboa. Bastava criar, na Universidade de Lisboa (Clássica), os institutos que não possuía e, obviamente, deviam ser criados.
Esse passo está agora a ser dado e só tenho que dar as minhas felicitações aos que decidiram pôr a ideia em marcha.
Vejo nos jornais que essa fusão dará "dimensão". Esse facto não me parece ser importante e a razão porque apoio a fusão é por motivo de complementaridade - a nova universidade será mais completa que qualquer das actuais duas - e não para ser maior. A qualidade duma universidade mede-se pela excelência do seu ensino e da sua investigação e não pelo número de alunos. Basta dizer que qualquer das actuais duas tem maior dimensão (em número de alunos) do que as inglesas de Cambridge ou Oxford, cujo alto nível é bem conhecido.
Não sei se tencionam dar à nova universidade um nome novo. Apesar de me ter formado na Universidade Técnica, não me incomoda nada que o nome, após a fusão, continue a ser apenas Universidade de Lisboa.
Do que tenho pena é que, como aliás já sucede com as actuais duas universidades, a nova continue com escolas dispersas por toda a cidade de Lisboa. É muito grande a vantagem duma universidade ser estabelecida num "campus", com boa proximidade entre os seus diversos edifícios. O intercâmbio que tal proximidade permite é uma das vantagens duma universidade - e daí o seu nome. Mas há outros benefícios e um deles é poder reunir num grande departamento matérias que são comuns a vários cursos, em vez dum mini-departamento em cada escola. Alguns exemplos são a Matemática, parte do elenco de muitos cursos ou a Genética, necessária à Agronomia, à Medicina, às Ciências, à Medicina Veterinária e a alguns outros cursos.
Pode ser que, dentro de algumas décadas, isto venha a ser compreendido e a Universidade de Lisboa se instale numa boa área, certamente na periferia da cidade.

18 de junho de 2011

Licenciaturas antes e depois de Bolonha

Publicado no Linhas de Elvas de 12 de Maio de 2011

Não é exacto que, com Bolonha, as licenciaturas tenham sido reduzidas para três anos, como algumas pessoa continuam a afirmar. A última que vi foi no Expresso de 30 de Abril de 2011. A Declaração de Bolonha, assinada em 1999, apenas definiu três ciclos do ensino superior, o primeiro com três anos, o segundo com dois e o terceiro com dois, mas nada indicou dos nomes a usar e cada país atribuiu-lhes o nome que entendeu. Quem tem poder em Portugal decidiu dar-lhes os nomes de "licenciado", mestre e doutor.
Em 1994 eu tinha proposto algo semelhante (eu preferia 3+3+2) para corrigir o que sempre considerei errado na legislação portuguesa de 1980. Propus a supressão do mestrado e que os três ciclos tivessem os antigos nomes de bacharel, licenciado e doutor, aliás comparáveis aos bachelor, master e doctor dos países anglo-saxónicos. Esse esquema e a sugestão, em 1995, de propor à Europa uma uniformização de níveis como eu tinha indicado, não foram aceites, embora em 1999 Portugal assinasse a Declaração de Bolonha. (Se a minha proposta tivesse sido aceite a Declaração, em vez de ser de Bolonha, teria sido de Coimbra, de Évora ou de qualquer outra das nossas cidades universitárias).
É óbvio que as licenciaturas pós Bolonha não são comparáveis às anteriores de 5 ou mais anos e são, internacionalmente, bacharelatos. É a quem tem um bachelor que se manda fazer um master. Se a licenciatura é, em Portugal, o grau que precede o mestrado, os estrangeiros - e os portugueses - têm toda a razão em a considerar um bacharelato. E têm toda a razão as Ordens profissionais, que exigiam cursos de pelo menos cinco anos, ao não aceitarem como membros pessoas com uma escolaridade de três anos, simplesmente porque alguém resolveu atribuir a esses diplomas o nome que anteriormente pertencia a um nível mais elevado.

2 de julho de 2010

A licenciatura

Publicado no Linhas de Elvas de 1 de Julho de 2010

Há mais de meio século, a licenciatura era um grau académico concedido em diferentes faculdades a níveis de escolaridade universitária bastante diferentes. Situada a meio dos três graus tradicionais - bacharel, licenciado e doutor - nalgumas Faculdades era obtido ao fim de quatro anos de cadeiras. Nas Faculdades de Medicina o mesmo título de licenciado era obtido ao fim de seis anos de cadeiras e mais um para uma tese de licenciatura, esta posteriormente suprimida. Não me parece que fosse correcto usar o mesmo título para diferentes níveis de escolaridade.

A infeliz legislação de 1980, que pretendeu "modernizar" o ensino superior, apenas agravou os desequilíbrios anteriores. Aos tradicionais títulos de bacharel, licenciado e doutor, acrescentou mais um, de mestre, entre a licenciatura (qualquer que ela fosse) e o doutoramento. Para além desse "enxerto" do mestrado, nada se alterou nos cursos que existiam.

Em 1999, foi assinada por 29 países, entre os quais Portugal (depois de ter recusado praticamente o mesmo que eu que eu vinha propondo desde 19941, 2), a Declaração de Bolonha, propondo um esquema de três ciclos para os estudos universitários, com a duração de 3+2+2 anos. (Eu preferia 3+3+2). A Declaração de Bolonha não impõe nomes para os títulos obtidos ao fim de cada um desses ciclos e cada país é livre para as denominações. Eu tinha proposto a supressão do mestrado, ficando os três níveis com as designações de bacharel, licenciado e doutor, aliás correspondendo ao que existia antes de 1980 e é aproximadamente idêntico ao que nos Estados Unidos e na Inglaterra se designa por "bachelor", "master" e "doctor". Os que mandam no sistema preferiram suprimir o nome de bacharel, ficando os três níveis com as designações de licenciado, mestre e doutor.

Alguns escreveram que "Bolonha encurtou as licenciaturas", o que não é verdade. O que há que considerar - e assim é considerado internacionalmente - é que a licenciatura portuguesa pós Bolonha é apenas um bacharelato, não comparável, portanto, com as do antigamente, pelo menos aquelas que já exigiam, pelo menos, cinco anos de estudos universitários. De acordo com a Declaração de Bolonha e as designações portuguesas, o segundo ciclo, ocupando cinco anos de estudos, será o mestrado.

1 - Mota, Miguel - Achegas para o novo estatuto da carreira docente universitária. Público de 2 de Julho de 1994

2 - Mota, Miguel - A propósito da Escola Superior Agrária de Elvas, o Ensino Superior Agrícola. Linhas de Elvas de 5 de Maio de 1995

25 de setembro de 2009

Bolonha não "reduziu" coisa nenhuma

Publicado no Global Notícias de 25-9-2009

Um erro que tem sido generalizado e que o Global Notícias comete (22-9-2009) é dizer que Bolonha "reduziu as licenciaturas para três anos".
Bolonha, que veio dizer em 1999 essencialmente o que eu tinha proposto cinco anos antes e o governo não aceitou, definiu três níveis no ensino superior. Cada país dá a esses níveis o nome que entender. Eu tinha proposto que desaparecesse o nome mestrado e ficassemos com bacharel, licenciado e doutor, como existia antes da infeliz legislação de 1980, que eu pretendia corrigir. Preferiram suprimir o nome bacharel e passar a chamar ao primeiro ciclo licenciatura. É óbvio que a licenciatura portuguesa pós-Bolonha é - e assim é considerada internacionalmente - um bacharelato.

9 de abril de 2009

Desorientação no ensino superior

Publicado no “Linhas de Elvas” de 9 de Abril de 2009

 

 Se anteriormente já havia alguns defeitos no ensino superior em Portugal, como ter o mesmo título de “licenciado” para níveis de escolaridade muito diferentes, a partir de 1980 e continuando no presente, a acumulação de erros é um indicativo de enorme desorientação. Pretendi, a partir de 1994, ajudar a corrigir esse erros propondo alterações que não foram aceites(1, 2), embora em 1999 Portugal assinasse a Declaração de Bolonha, que determina essencialmente o que eu tinha proposto cinco anos antes(3). Mas a desorientação não parece desaparecer, como um caso recente vem demonstrar.

O jornal "Sol" de 17-1-2009, dá uma notícia intitulada "Primeiro MBA em Gestão chega à Madeira".

MBA significa "Master in Business Administration" o que, traduzido à letra quer dizer "Mestrado em Administração de Negócios", ou seja "Mestrado em Gestão". Não há, portanto, MBAs que não sejam "em Gestão", como dão a entender o título e o texto. E no texto diz-se depois que quem fizer este MBA (um mestrado) com aproveitamento pode prosseguir os estudos para um mestrado no mesmo tema. Das duas uma: ou o MBA é um mestrado (como o nome indica e deve ser) e o prosseguimento dos estudos será para um DBA ("Doctor in Business Administration", um doutoramento) ou o MBA da Madeira não é um MBA e então, realmente, justifica-se ir fazer um mestrado.

Enquanto em Portugal existirem anomalias deste género, não é possível alinhar com os da média europeia, para não falar dos da frente, grupo em que devíamos estar se no comando dos variados sectores estivesse gente competente.


(1) - Mota, M.  -  Achegas para o novo estatuto da carreira docente universitária.   Público  de 2 de Julho de 1994

(2) - --- A propósito da Escola Superior Agrária de Elvas, o Ensino Superior Agrícola.  Linhas de Elvas de 5 de Maio de 1995

(3) - ---- O ensino da engenharia e a Declaração de Bolonha.  Ingenium, Nº 65, Fevereiro 2002

3 de abril de 2009

Avaliação da ciência...

Publicado no “Diário de Notícias” de 3 de Abril de 2009


A avaliação dos Laboratórios de Investigação (DN 30-3-200) é muito simples: basta ver a investigação científica que produziram. Há que não esquecer relacionar a investigação produzida com o dinheiro neles investido. Um laboratório que recebe por ano 10 milhões de euros tem obrigação de produzir muito mais ciência do que um que só recebe 200 mil euros. E também convém lembrar que duas avaliações, com intervalo de dez anos, feitas a um grande instituto de investigação, com vasto curriculum e grande projecção internacional, foram arrasadoras para os governos (a primeira do PSD, a segunda do PS) como os responsáveis pelos males apontados. De nada serviram porque os males apontados pelos avaliadores (e um dos estrangeiros participou em ambas), não só não foram corrigidos como continuaram a ser agravados. Deve ser para isso que alguns querem “avaliações”.


Nota: a negro o que foi suprimido pelo jornal

16 de março de 2009

Biblioteca da Universidade de Évora

Conversas ao fim da tarde com o professor doutor Miguel Mota:

A palestra será subordinada ao título - 'Agricultura e Desenvolvimento Rural'.
A Biblioteca Geral informa que, no âmbito da iniciativa CONVERSAS AO FIM DA TARDE, a próxima palestra será proferida pelo senhor professor doutor Miguel Mota, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Évora, no dia 25 de Março de 2009, pelas 18 horas, na sala de Bellas Artes. A palestra será subordinada ao título - 'Agricultura e Desenvolvimento Rural'.

30 de agosto de 2008

Exames

Publicado no "Notícias Magazine" (“Diário de Notícias” e "Jornal de Notícias") de 29-6-2008

São muito judiciosas as considerações sobre os exames (NM 15-6-2008) e de grande utilidade para os alunos que seguirem as sugestões oferecidas. Penso que vale a pena fazer uns milhares de separatas desse artigo, para distribuir pelas escolas do país, desde a primária ao superior.
Um exame escolar é um acto que tem como objectivo avaliar o nível de conhecimentos dum aluno. Tal como usar um termómetro para medir a temperatura duma pessoa. Para muitos alunos que durante o ano estudaram pouco, pode ser grande preocupação. Mas creio que se está a empolar exageradamente o stress daquilo que deve ser um acto normal na vida do estudante.
Li num outro jornal que muitos professores só preparam os alunos para fazerem exames, o que era considerado perverso. Se o exame está bem elaborado, não há nada de errado nisso porque, se o aluno está "preparado para o exame" é porque sabe a matéria exigível. Também, às vezes, se acusam os exames de apenas medirem a matéria memorizada, sem considerarem a capacidade de raciocínio, tão importante para a vida do cidadão. Se, na aquisição de conhecimentos, a memória é inevitavelmente necessária (e deve ser desenvolvida através de treino), a capacidade de raciocínio é importante e deve ser avaliada. Um exame bem feito, embora tenha perguntas que apenas exigem conhecimentos memorizados, deve ter outras em que isso não basta e exigem raciocínio para encontrar a solução.
Todos estes considerandos devem ser tomados em conta pelos professores encarregados de elaborar exames (e estes nunca devem conter erros) e pelos alunos que vão ser examinados. O artigo no NM ajuda os alunos a enfrentarem essas provas com serenidade, não contribuindo para dar a ideia de que são um papão, inevitavelmente causador de stress. Se um aluno fica em pânico quando tem de fazer um exame, como vai enfrentar os problemas de maior gravidade que lhe vão surgir pela vida fora?

Melhorar os professores

Publicado no "Jornal de Sintra" de 23 de Maio de 2008

Avaliar os professores, como outros funcionários - qualquer que seja a função que exercem - é algo natural e conveniente. Julgo que essa era, antigamente, uma das funções dos inspectores do Ministério da Educação, que iam às escolas, assistiam a aulas e diziam de sua justiça. Os inspectores eram antigos professores que ascendiam a esse posto depois de vasta e demonstrada experiência de bom ensino.
São vários os factores que contribuem para o sucesso - ou insucesso - escolar mas creio que, de longe, o mais importante é a qualidade do ensino ministrado pelo professor. Da minha já remota mas ainda viva memória de aluno do liceu ficou bem marcada a diferença de aproveitamento, conseguindo-se os melhores resultados quando a disciplina era dada por um bom professor, não só muito sabedor da matéria mas sendo capaz de a expor de forma clara, compreensível e, por vezes, apaixonante. A matemática tem sido a disciplina mais tratada ultimamente e há boas razões para isso. Se todas as matérias exigem alguma memorização - e treinar a memória é algo também importante - talvez nenhuma exija tanto do raciocínio como a matemática. Por essa razão é também muito importante treinar o raciocínio. Mas um outro factor importante é o encadeado ou continuidade dos diferentes passos da matemática. Se, em determinado ponto, a matéria não ficou sabida ou ficou algo nebulosa, todos os passos seguintes ficam prejudicados e a aprendizagem sofre grandemente. Num exemplo simples, pode dizer-se que não é possível ensinar contas de multiplicar a quem não aprendeu as contas de somar. (Sem máquina de calcular, evidentemente...). Por estas razões, creio que se deve insistir principalmente em melhorar os professores. Sei que algo está a ser feito nesse sentido mas afigura-se-me que muito menos do que seria desejável e que julgo possível.
A avaliação poderá levar a alguma melhoria dos professores, por aumento do esforço próprio. No entanto, a grande melhoria no desempenho dos professores consegue-se através de cursos de actualização(1). Esses cursos, bastante curtos, deverão ter sessões de dois tipos. Um visará a actualização e sistematização dos conhecimentos no sector em que ensinam. Pode ser feita em sessões em grandes auditórios, para muitas pessoas, em lições teóricas proferidas por bons especialistas da matéria. O outro tipo de sessões deve apenas ter um número reduzido de participantes, para trabalhos práticos, quando necessário em laboratórios, e para debate sobre metodologias pedagógicas, com trocas de experiências pessoais e incluindo a disciplina na aula.
Para estes dois tipos de sessões podem dar boa colaboração as sociedades científicas dos sectores envolvidos. A Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais organizou, em tempos, uma série desses cursos que, mesmo sem qualquer remuneração ou créditos, encontrou grande apetência da parte dos professores do liceu e sempre cientistas disponíveis para proferir as lições. Alguns foram organizados no período em que exerci o cargo de Vice-Presidente dessa Sociedade e dei também aulas sobre a divisão celular, outros aspectos da citogenética, conservação dos recursos genéticos, microscopia electrónica, etc. Compreende-se o interesse dos professores porque o que aprendiam nesses cursos muito os ajudava, não só na mais fácil preparação das aulas, como na forma como ensinavam, o que dá sempre grande satisfação.
Quando fui eleito Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética, logo a Direcção incluiu no seu programa de actividades a realização de tais cursos. Pensando que, com a colaboração do Ministério da Educação, o trabalho poderia ser mais frutuoso, pedi uma audiência ao Ministro. Algum tempo depois o gabinete informou-me que eu seria recebido pela Secretária de Estado e a senhora que me apareceu - e que eu pensei que era a Secretária de Estado - era, afinal, uma assessora, a quem expus o assunto. Achou que tinha todo o interesse e que eu seria posteriormente contactado... o que nunca sucedeu! A Sociedade Portuguesa de Genética ainda conseguiu realizar alguns desses cursos mas em muito menor número do que se tivesse havido uma boa colaboração da parte do Ministério. Julgo que, a nível nacional e em todas as matérias, o que se faz nesse campo é muito escasso. É pena, pois estou perfeitamente convencido de que, realizando todos os anos muitos desses cursos, em todos os sectores do ensino, envolvendo milhares de professores, se conseguiriam progressos espectaculares na melhoria do ensino.

(1) Mota, M. - O problema da matemática. Uma sugestão. Público de 6-9-2002

Doze anos de escola

Publicado no “Linhas de Elvas” em 27-9-2007

Já em tempos escrevi sobre o assunto(1) mas como voltou a ser indicado para futuro próximo que a escolaridade obrigatória passará a ser de doze anos, justifica-se que volte a esse tema. Do escrito citado transcrevo: “A solução que já propus ("Ingenium" de Fevereiro de 2002) é incluir nas actuais escolas de ensino básico e secundário, a partir do 5º ano, o ensino de muitos ofícios de forma que, ao completar o actual 9º ano, ou o 12º ano, em vez de sair com alguma preparação académica mas "sem saber fazer nada", ele possa entrar no mercado de trabalho com preparação para exercer um ofício.”
Um governo que não é capaz de ter a funcionar decentemente nove anos de escola obrigatória, havendo alunos que chegam à universidade sem saber escrever correctamente português e dão mais erros do que era antigamente permitido no exame de instrução primária, que tem os elevados índices de insucesso e de abandono escolar que se conhecem, o que é que pretende se tornar doze anos obrigatórios? Ampliar o mau panorama actual? Fazer crer ao mundo que, porque na lei os doze anos são “obrigatórios”, o nível do país subiu muito?
Para muitas profissões, nove anos de escola chegam para um desempenho eficiente. E o país precisa mais de pessoal a esse nível do que de licenciados (leia-se “bacharéis”) de pouca qualidade e em sectores em que não conseguem emprego. Aquilo que há muito preconizo mas que, mesmo com algum incremento recente, ainda é uma fracção muito pequena do que o país necessita é o que acima transcrevi, incluir nas actuais escolas de ensino básico e secundário, a partir do 5º ano, o ensino de muitos ofícios. Na minha opinião deveria haver, como norma institucionalizada em todas as escolas, a partir do 5º ano, vários cursos profissionais, válidos como escolaridade obrigatória, em paralelo com a linha académica, como em vários escritos já propus. Os bons profissionais com esses cursos ou com os que quiserem ir até ao 12º ano na linha profissional, podem muita vezes ser bem melhor remunerados do que os tais licenciados (leia-se “bacharéis”) de fraca qualidade. Como indiquei, nenhum desses es
quemas impediria quem o desejasse, de prosseguir estudos, fazendo em mais um ano extra as disciplinas que tiveram de suprimir para dar lugar à aprendizagem específica da profissão.
É isto que se me afigura muito mais importante para o país e para os estudantes do que impor doze anos de escola onde muitos (os que não abandonarem...) irão estar a contragosto.

(1) Mota, M. - 12 anos de escola? Jornal de Oeiras de 24-5-2005

14 de abril de 2008

Ainda os mestrados

Publicado no "Jornal de Sintra" de 28 de Março de 2008

Continua em grande a confusão - inexplicável - causada pela Declaração de Bolonha para o ensino superior. Essa confusão é muito agravada quando misturada com os monstruosos erros da legislação portuguesa de 1980 e o aberrante "enxerto" dum quarto grau académico, o mestrado, entre a licenciatura e o doutoramento.
Leio na comunicação social que está a haver reacções contra a exigência de algumas Ordens, como a dos Engenheiros e a dos Advogados que, no sistema proposto por Bolonha, só aceitam, para o exercício da profissão, as pessoas com o mestrado integrado. E aparece esta frase bombástica: "Lá fora isso só existe para cursos como Medicina e Arquitectura".
É evidente que quem apresenta essas ideias não tem a mínima noção das proporções. No campo da saúde não está vedado o exercício da profissão a quem tem o primeiro grau (de acordo com Bolonha), noutros países designado de "bacharel" e em Portugal, por decisão de quem pontifica nesse sector, designado "licenciado". Claro que pode exercer a profissão - como enfermeiro, não como médico.
Na engenharia sucede exactamente o mesmo. É possível exercer a profissão com o primeiro ciclo, como engenheiro técnico. Para a exercer como engenheiro exige-se como mínimo o nível de mestrado o que, aliás, já é menos exigente do que eram antigamente os cursos de engenheiro ou de médico, como já referi(1).
O mestrado integrado tem toda a razão de ser porque a estrutura dos cursos é diferente. Assim como os primeiros anos de medicina não formam um enfermeiro, os primeiros anos do curso de engenheiro não dão a categoria de engenheiro técnico. A estrutura dos cursos é diferente porque, com o esquema de Bolonha (e como sucedia anteriormente), quem quer exercer a profissão ao nível do primeiro ciclo, tem menos preparação básica e menos disciplinas técnicas. É por isso que os cursos de engenharia ou de medicina (e, possivelmente, também outros) exigem o tal mestrado integrado para o exercício da profissão com os títulos de engenheiro ou de médico e as correspondentes responsabilidades.
(1) Mota, M. - Mestrados. Jornal de Sintra de 21 de Março de 2008