11 de janeiro de 2017
A ciência em Portugal no século XX
4 de maio de 2015
O número de doutoramentos
A saga das avaliações
Os politécnicos
A Ciência em Portugal há mais de 500 anos
9 de março de 2014
Portugal e Bolonha
28 de janeiro de 2014
Politécnicos
8 de agosto de 2013
Não, senhores reitores, ainda não são
A licenciatura pós Bolonha
16 de março de 2012
A nova universidade
Há muito tempo que penso que a Universidade Clássica e a Universidade Técnica de Lisboa se deviam fundir numa única. E a razão é porque não há qualquer sobreposição de escolas, pois as que existem numa não existem na outra. Era escusado ter sido criada, depois da implantação da república, a Universidade Técnica de Lisboa. Bastava criar, na Universidade de Lisboa (Clássica), os institutos que não possuía e, obviamente, deviam ser criados.
Esse passo está agora a ser dado e só tenho que dar as minhas felicitações aos que decidiram pôr a ideia em marcha.
Vejo nos jornais que essa fusão dará "dimensão". Esse facto não me parece ser importante e a razão porque apoio a fusão é por motivo de complementaridade - a nova universidade será mais completa que qualquer das actuais duas - e não para ser maior. A qualidade duma universidade mede-se pela excelência do seu ensino e da sua investigação e não pelo número de alunos. Basta dizer que qualquer das actuais duas tem maior dimensão (em número de alunos) do que as inglesas de Cambridge ou Oxford, cujo alto nível é bem conhecido.
Não sei se tencionam dar à nova universidade um nome novo. Apesar de me ter formado na Universidade Técnica, não me incomoda nada que o nome, após a fusão, continue a ser apenas Universidade de Lisboa.
Do que tenho pena é que, como aliás já sucede com as actuais duas universidades, a nova continue com escolas dispersas por toda a cidade de Lisboa. É muito grande a vantagem duma universidade ser estabelecida num "campus", com boa proximidade entre os seus diversos edifícios. O intercâmbio que tal proximidade permite é uma das vantagens duma universidade - e daí o seu nome. Mas há outros benefícios e um deles é poder reunir num grande departamento matérias que são comuns a vários cursos, em vez dum mini-departamento em cada escola. Alguns exemplos são a Matemática, parte do elenco de muitos cursos ou a Genética, necessária à Agronomia, à Medicina, às Ciências, à Medicina Veterinária e a alguns outros cursos.
Pode ser que, dentro de algumas décadas, isto venha a ser compreendido e a Universidade de Lisboa se instale numa boa área, certamente na periferia da cidade.
18 de junho de 2011
Licenciaturas antes e depois de Bolonha
Não é exacto que, com Bolonha, as licenciaturas tenham sido reduzidas para três anos, como algumas pessoa continuam a afirmar. A última que vi foi no Expresso de 30 de Abril de 2011. A Declaração de Bolonha, assinada em 1999, apenas definiu três ciclos do ensino superior, o primeiro com três anos, o segundo com dois e o terceiro com dois, mas nada indicou dos nomes a usar e cada país atribuiu-lhes o nome que entendeu. Quem tem poder em Portugal decidiu dar-lhes os nomes de "licenciado", mestre e doutor.
Em 1994 eu tinha proposto algo semelhante (eu preferia 3+3+2) para corrigir o que sempre considerei errado na legislação portuguesa de 1980. Propus a supressão do mestrado e que os três ciclos tivessem os antigos nomes de bacharel, licenciado e doutor, aliás comparáveis aos bachelor, master e doctor dos países anglo-saxónicos. Esse esquema e a sugestão, em 1995, de propor à Europa uma uniformização de níveis como eu tinha indicado, não foram aceites, embora em 1999 Portugal assinasse a Declaração de Bolonha. (Se a minha proposta tivesse sido aceite a Declaração, em vez de ser de Bolonha, teria sido de Coimbra, de Évora ou de qualquer outra das nossas cidades universitárias).
É óbvio que as licenciaturas pós Bolonha não são comparáveis às anteriores de 5 ou mais anos e são, internacionalmente, bacharelatos. É a quem tem um bachelor que se manda fazer um master. Se a licenciatura é, em Portugal, o grau que precede o mestrado, os estrangeiros - e os portugueses - têm toda a razão em a considerar um bacharelato. E têm toda a razão as Ordens profissionais, que exigiam cursos de pelo menos cinco anos, ao não aceitarem como membros pessoas com uma escolaridade de três anos, simplesmente porque alguém resolveu atribuir a esses diplomas o nome que anteriormente pertencia a um nível mais elevado.
2 de julho de 2010
A licenciatura
Publicado no Linhas de Elvas de 1 de Julho de 2010
Há mais de meio século, a licenciatura era um grau académico concedido em diferentes faculdades a níveis de escolaridade universitária bastante diferentes. Situada a meio dos três graus tradicionais - bacharel, licenciado e doutor - nalgumas Faculdades era obtido ao fim de quatro anos de cadeiras. Nas Faculdades de Medicina o mesmo título de licenciado era obtido ao fim de seis anos de cadeiras e mais um para uma tese de licenciatura, esta posteriormente suprimida. Não me parece que fosse correcto usar o mesmo título para diferentes níveis de escolaridade.
A infeliz legislação de 1980, que pretendeu "modernizar" o ensino superior, apenas agravou os desequilíbrios anteriores. Aos tradicionais títulos de bacharel, licenciado e doutor, acrescentou mais um, de mestre, entre a licenciatura (qualquer que ela fosse) e o doutoramento. Para além desse "enxerto" do mestrado, nada se alterou nos cursos que existiam.
Em 1999, foi assinada por 29 países, entre os quais Portugal (depois de ter recusado praticamente o mesmo que eu que eu vinha propondo desde 19941, 2), a Declaração de Bolonha, propondo um esquema de três ciclos para os estudos universitários, com a duração de 3+2+2 anos. (Eu preferia 3+3+2). A Declaração de Bolonha não impõe nomes para os títulos obtidos ao fim de cada um desses ciclos e cada país é livre para as denominações. Eu tinha proposto a supressão do mestrado, ficando os três níveis com as designações de bacharel, licenciado e doutor, aliás correspondendo ao que existia antes de 1980 e é aproximadamente idêntico ao que nos Estados Unidos e na Inglaterra se designa por "bachelor", "master" e "doctor". Os que mandam no sistema preferiram suprimir o nome de bacharel, ficando os três níveis com as designações de licenciado, mestre e doutor.
Alguns escreveram que "Bolonha encurtou as licenciaturas", o que não é verdade. O que há que considerar - e assim é considerado internacionalmente - é que a licenciatura portuguesa pós Bolonha é apenas um bacharelato, não comparável, portanto, com as do antigamente, pelo menos aquelas que já exigiam, pelo menos, cinco anos de estudos universitários. De acordo com a Declaração de Bolonha e as designações portuguesas, o segundo ciclo, ocupando cinco anos de estudos, será o mestrado.
1 - Mota, Miguel - Achegas para o novo estatuto da carreira docente universitária. Público de 2 de Julho de 1994
2 - Mota, Miguel - A propósito da Escola Superior Agrária de Elvas, o Ensino Superior Agrícola. Linhas de Elvas de 5 de Maio de 1995
25 de setembro de 2009
Bolonha não "reduziu" coisa nenhuma
Um erro que tem sido generalizado e que o Global Notícias comete (22-9-2009) é dizer que Bolonha "reduziu as licenciaturas para três anos".
Bolonha, que veio dizer em 1999 essencialmente o que eu tinha proposto cinco anos antes e o governo não aceitou, definiu três níveis no ensino superior. Cada país dá a esses níveis o nome que entender. Eu tinha proposto que desaparecesse o nome mestrado e ficassemos com bacharel, licenciado e doutor, como existia antes da infeliz legislação de 1980, que eu pretendia corrigir. Preferiram suprimir o nome bacharel e passar a chamar ao primeiro ciclo licenciatura. É óbvio que a licenciatura portuguesa pós-Bolonha é - e assim é considerada internacionalmente - um bacharelato.
9 de abril de 2009
Desorientação no ensino superior
Se anteriormente já havia alguns defeitos no ensino superior em Portugal, como ter o mesmo título de “licenciado” para níveis de escolaridade muito diferentes, a partir de 1980 e continuando no presente, a acumulação de erros é um indicativo de enorme desorientação. Pretendi, a partir de 1994, ajudar a corrigir esse erros propondo alterações que não foram aceites(1, 2), embora em 1999 Portugal assinasse a Declaração de Bolonha, que determina essencialmente o que eu tinha proposto cinco anos antes(3). Mas a desorientação não parece desaparecer, como um caso recente vem demonstrar. O jornal "Sol" de 17-1-2009, dá uma notícia intitulada "Primeiro MBA em Gestão chega à Madeira". MBA significa "Master in Business Administration" o que, traduzido à letra quer dizer "Mestrado em Administração de Negócios", ou seja "Mestrado em Gestão". Não há, portanto, MBAs que não sejam "em Gestão", como dão a entender o título e o texto. E no texto diz-se depois que quem fizer este MBA (um mestrado) com aproveitamento pode prosseguir os estudos para um mestrado no mesmo tema. Das duas uma: ou o MBA é um mestrado (como o nome indica e deve ser) e o prosseguimento dos estudos será para um DBA ("Doctor in Business Administration", um doutoramento) ou o MBA da Madeira não é um MBA e então, realmente, justifica-se ir fazer um mestrado. Enquanto em Portugal existirem anomalias deste género, não é possível alinhar com os da média europeia, para não falar dos da frente, grupo em que devíamos estar se no comando dos variados sectores estivesse gente competente. (1) - Mota, M. - Achegas para o novo estatuto da carreira docente universitária. Público de 2 de Julho de 1994 (2) - --- A propósito da Escola Superior Agrária de Elvas, o Ensino Superior Agrícola. Linhas de Elvas de 5 de Maio de 1995 (3) - ---- O ensino da engenharia e a Declaração de Bolonha. Ingenium, Nº 65, Fevereiro 2002
3 de abril de 2009
Avaliação da ciência...
A avaliação dos Laboratórios de Investigação (DN 30-3-200) é muito simples: basta ver a investigação científica que produziram. Há que não esquecer relacionar a investigação produzida com o dinheiro neles investido. Um laboratório que recebe por ano 10 milhões de euros tem obrigação de produzir muito mais ciência do que um que só recebe 200 mil euros. E também convém lembrar que duas avaliações, com intervalo de dez anos, feitas a um grande instituto de investigação, com vasto curriculum e grande projecção internacional, foram arrasadoras para os governos (a primeira do PSD, a segunda do PS) como os responsáveis pelos males apontados. De nada serviram porque os males apontados pelos avaliadores (e um dos estrangeiros participou em ambas), não só não foram corrigidos como continuaram a ser agravados. Deve ser para isso que alguns querem “avaliações”.
Nota: a negro o que foi suprimido pelo jornal
16 de março de 2009
Biblioteca da Universidade de Évora
A palestra será subordinada ao título - 'Agricultura e Desenvolvimento Rural'.
A Biblioteca Geral informa que, no âmbito da iniciativa CONVERSAS AO FIM DA TARDE, a próxima palestra será proferida pelo senhor professor doutor Miguel Mota, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Évora, no dia 25 de Março de 2009, pelas 18 horas, na sala de Bellas Artes. A palestra será subordinada ao título - 'Agricultura e Desenvolvimento Rural'.
30 de agosto de 2008
Exames
São muito judiciosas as considerações sobre os exames (NM 15-6-2008) e de grande utilidade para os alunos que seguirem as sugestões oferecidas. Penso que vale a pena fazer uns milhares de separatas desse artigo, para distribuir pelas escolas do país, desde a primária ao superior.
Um exame escolar é um acto que tem como objectivo avaliar o nível de conhecimentos dum aluno. Tal como usar um termómetro para medir a temperatura duma pessoa. Para muitos alunos que durante o ano estudaram pouco, pode ser grande preocupação. Mas creio que se está a empolar exageradamente o stress daquilo que deve ser um acto normal na vida do estudante.
Li num outro jornal que muitos professores só preparam os alunos para fazerem exames, o que era considerado perverso. Se o exame está bem elaborado, não há nada de errado nisso porque, se o aluno está "preparado para o exame" é porque sabe a matéria exigível. Também, às vezes, se acusam os exames de apenas medirem a matéria memorizada, sem considerarem a capacidade de raciocínio, tão importante para a vida do cidadão. Se, na aquisição de conhecimentos, a memória é inevitavelmente necessária (e deve ser desenvolvida através de treino), a capacidade de raciocínio é importante e deve ser avaliada. Um exame bem feito, embora tenha perguntas que apenas exigem conhecimentos memorizados, deve ter outras em que isso não basta e exigem raciocínio para encontrar a solução.
Todos estes considerandos devem ser tomados em conta pelos professores encarregados de elaborar exames (e estes nunca devem conter erros) e pelos alunos que vão ser examinados. O artigo no NM ajuda os alunos a enfrentarem essas provas com serenidade, não contribuindo para dar a ideia de que são um papão, inevitavelmente causador de stress. Se um aluno fica em pânico quando tem de fazer um exame, como vai enfrentar os problemas de maior gravidade que lhe vão surgir pela vida fora?
Melhorar os professores
Avaliar os professores, como outros funcionários - qualquer que seja a função que exercem - é algo natural e conveniente. Julgo que essa era, antigamente, uma das funções dos inspectores do Ministério da Educação, que iam às escolas, assistiam a aulas e diziam de sua justiça. Os inspectores eram antigos professores que ascendiam a esse posto depois de vasta e demonstrada experiência de bom ensino.
São vários os factores que contribuem para o sucesso - ou insucesso - escolar mas creio que, de longe, o mais importante é a qualidade do ensino ministrado pelo professor. Da minha já remota mas ainda viva memória de aluno do liceu ficou bem marcada a diferença de aproveitamento, conseguindo-se os melhores resultados quando a disciplina era dada por um bom professor, não só muito sabedor da matéria mas sendo capaz de a expor de forma clara, compreensível e, por vezes, apaixonante. A matemática tem sido a disciplina mais tratada ultimamente e há boas razões para isso. Se todas as matérias exigem alguma memorização - e treinar a memória é algo também importante - talvez nenhuma exija tanto do raciocínio como a matemática. Por essa razão é também muito importante treinar o raciocínio. Mas um outro factor importante é o encadeado ou continuidade dos diferentes passos da matemática. Se, em determinado ponto, a matéria não ficou sabida ou ficou algo nebulosa, todos os passos seguintes ficam prejudicados e a aprendizagem sofre grandemente. Num exemplo simples, pode dizer-se que não é possível ensinar contas de multiplicar a quem não aprendeu as contas de somar. (Sem máquina de calcular, evidentemente...). Por estas razões, creio que se deve insistir principalmente em melhorar os professores. Sei que algo está a ser feito nesse sentido mas afigura-se-me que muito menos do que seria desejável e que julgo possível.
A avaliação poderá levar a alguma melhoria dos professores, por aumento do esforço próprio. No entanto, a grande melhoria no desempenho dos professores consegue-se através de cursos de actualização(1). Esses cursos, bastante curtos, deverão ter sessões de dois tipos. Um visará a actualização e sistematização dos conhecimentos no sector em que ensinam. Pode ser feita em sessões em grandes auditórios, para muitas pessoas, em lições teóricas proferidas por bons especialistas da matéria. O outro tipo de sessões deve apenas ter um número reduzido de participantes, para trabalhos práticos, quando necessário em laboratórios, e para debate sobre metodologias pedagógicas, com trocas de experiências pessoais e incluindo a disciplina na aula.
Para estes dois tipos de sessões podem dar boa colaboração as sociedades científicas dos sectores envolvidos. A Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais organizou, em tempos, uma série desses cursos que, mesmo sem qualquer remuneração ou créditos, encontrou grande apetência da parte dos professores do liceu e sempre cientistas disponíveis para proferir as lições. Alguns foram organizados no período em que exerci o cargo de Vice-Presidente dessa Sociedade e dei também aulas sobre a divisão celular, outros aspectos da citogenética, conservação dos recursos genéticos, microscopia electrónica, etc. Compreende-se o interesse dos professores porque o que aprendiam nesses cursos muito os ajudava, não só na mais fácil preparação das aulas, como na forma como ensinavam, o que dá sempre grande satisfação.
Quando fui eleito Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética, logo a Direcção incluiu no seu programa de actividades a realização de tais cursos. Pensando que, com a colaboração do Ministério da Educação, o trabalho poderia ser mais frutuoso, pedi uma audiência ao Ministro. Algum tempo depois o gabinete informou-me que eu seria recebido pela Secretária de Estado e a senhora que me apareceu - e que eu pensei que era a Secretária de Estado - era, afinal, uma assessora, a quem expus o assunto. Achou que tinha todo o interesse e que eu seria posteriormente contactado... o que nunca sucedeu! A Sociedade Portuguesa de Genética ainda conseguiu realizar alguns desses cursos mas em muito menor número do que se tivesse havido uma boa colaboração da parte do Ministério. Julgo que, a nível nacional e em todas as matérias, o que se faz nesse campo é muito escasso. É pena, pois estou perfeitamente convencido de que, realizando todos os anos muitos desses cursos, em todos os sectores do ensino, envolvendo milhares de professores, se conseguiriam progressos espectaculares na melhoria do ensino.
(1) Mota, M. - O problema da matemática. Uma sugestão. Público de 6-9-2002
Doze anos de escola
Já em tempos escrevi sobre o assunto(1) mas como voltou a ser indicado para futuro próximo que a escolaridade obrigatória passará a ser de doze anos, justifica-se que volte a esse tema. Do escrito citado transcrevo: “A solução que já propus ("Ingenium" de Fevereiro de 2002) é incluir nas actuais escolas de ensino básico e secundário, a partir do 5º ano, o ensino de muitos ofícios de forma que, ao completar o actual 9º ano, ou o 12º ano, em vez de sair com alguma preparação académica mas "sem saber fazer nada", ele possa entrar no mercado de trabalho com preparação para exercer um ofício.”
Um governo que não é capaz de ter a funcionar decentemente nove anos de escola obrigatória, havendo alunos que chegam à universidade sem saber escrever correctamente português e dão mais erros do que era antigamente permitido no exame de instrução primária, que tem os elevados índices de insucesso e de abandono escolar que se conhecem, o que é que pretende se tornar doze anos obrigatórios? Ampliar o mau panorama actual? Fazer crer ao mundo que, porque na lei os doze anos são “obrigatórios”, o nível do país subiu muito?
Para muitas profissões, nove anos de escola chegam para um desempenho eficiente. E o país precisa mais de pessoal a esse nível do que de licenciados (leia-se “bacharéis”) de pouca qualidade e em sectores em que não conseguem emprego. Aquilo que há muito preconizo mas que, mesmo com algum incremento recente, ainda é uma fracção muito pequena do que o país necessita é o que acima transcrevi, incluir nas actuais escolas de ensino básico e secundário, a partir do 5º ano, o ensino de muitos ofícios. Na minha opinião deveria haver, como norma institucionalizada em todas as escolas, a partir do 5º ano, vários cursos profissionais, válidos como escolaridade obrigatória, em paralelo com a linha académica, como em vários escritos já propus. Os bons profissionais com esses cursos ou com os que quiserem ir até ao 12º ano na linha profissional, podem muita vezes ser bem melhor remunerados do que os tais licenciados (leia-se “bacharéis”) de fraca qualidade. Como indiquei, nenhum desses es
quemas impediria quem o desejasse, de prosseguir estudos, fazendo em mais um ano extra as disciplinas que tiveram de suprimir para dar lugar à aprendizagem específica da profissão.
É isto que se me afigura muito mais importante para o país e para os estudantes do que impor doze anos de escola onde muitos (os que não abandonarem...) irão estar a contragosto.
(1) Mota, M. - 12 anos de escola? Jornal de Oeiras de 24-5-2005
14 de abril de 2008
Ainda os mestrados
Continua em grande a confusão - inexplicável - causada pela Declaração de Bolonha para o ensino superior. Essa confusão é muito agravada quando misturada com os monstruosos erros da legislação portuguesa de 1980 e o aberrante "enxerto" dum quarto grau académico, o mestrado, entre a licenciatura e o doutoramento.
Leio na comunicação social que está a haver reacções contra a exigência de algumas Ordens, como a dos Engenheiros e a dos Advogados que, no sistema proposto por Bolonha, só aceitam, para o exercício da profissão, as pessoas com o mestrado integrado. E aparece esta frase bombástica: "Lá fora isso só existe para cursos como Medicina e Arquitectura".
É evidente que quem apresenta essas ideias não tem a mínima noção das proporções. No campo da saúde não está vedado o exercício da profissão a quem tem o primeiro grau (de acordo com Bolonha), noutros países designado de "bacharel" e em Portugal, por decisão de quem pontifica nesse sector, designado "licenciado". Claro que pode exercer a profissão - como enfermeiro, não como médico.
Na engenharia sucede exactamente o mesmo. É possível exercer a profissão com o primeiro ciclo, como engenheiro técnico. Para a exercer como engenheiro exige-se como mínimo o nível de mestrado o que, aliás, já é menos exigente do que eram antigamente os cursos de engenheiro ou de médico, como já referi(1).
O mestrado integrado tem toda a razão de ser porque a estrutura dos cursos é diferente. Assim como os primeiros anos de medicina não formam um enfermeiro, os primeiros anos do curso de engenheiro não dão a categoria de engenheiro técnico. A estrutura dos cursos é diferente porque, com o esquema de Bolonha (e como sucedia anteriormente), quem quer exercer a profissão ao nível do primeiro ciclo, tem menos preparação básica e menos disciplinas técnicas. É por isso que os cursos de engenharia ou de medicina (e, possivelmente, também outros) exigem o tal mestrado integrado para o exercício da profissão com os títulos de engenheiro ou de médico e as correspondentes responsabilidades.
(1) Mota, M. - Mestrados. Jornal de Sintra de 21 de Março de 2008